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Violência contra a mulher


Famosas sexualizadas na infância contam como isso afetou suas vidas

Gustavo Frank

Da Universa

22/01/2019 16h55

As discussões sobre erotização infantil ganharam força recentemente por causa da polêmica em torno de MC Melody, de 11 anos. Mas essa não é uma questão estritamente atual. Várias famosas que consolidaram suas carreiras já se sentiram à vontade para falar sobre a sexualização precoce de seus corpos -- a fim de conscientizar os pais e as novas gerações.

Em entrevistas, algumas delas revelaram como isso afetou não só sua vida profissional, mas também seu psicológico. Relembre: 

Miley Cyrus

Reprodução/YouTube
Imagem: Reprodução/YouTube

A cantora e atriz, de 26 anos, começou sua carreira em 2001, quando tinha 9. Mas foi em 2006, aos 14 anos, que ganhou fama mundial após ser apresentada pela Disney como Hannah Montana -- que lhe rendeu o título, ainda criança, como uma das cem celebridades mais bem pagas do mundo. Mas não eram só flores -- e quem falou sobre isso foi a própria Miley.

Reprodução
Miley Cyrus para a "Vanity Fair" Imagem: Reprodução

Em entrevista à "Harper's Bazaar", a cantora relembrou sobre como foi sexualizada quando começou a fazer sucesso, como quando fez um ensaio para a revista "Vanity Fair", aos 16 anos, em que aparecia seminua.

"Tem muita coisa que eu não lembro sobre ser uma criança do mundo do entretenimento, porque é muita coisa para manter no meu cérebro. Parece que não é nada quando você faz parte daquilo. Eu só percebi quanta pressão eu estava passando e como isso me moldou nesse ano", disse ela, revelando não ter consciência sobre o que era "permitido" quando era criança e ter nadado junto à naturalização imposta pela mídia sobre sua imagem.

Deveria ser mais chocante o fato de que quando eu tinha 11 ou 12 anos eu usava aplique, maquiagem, unha falsa e colocava roupas que na maioria das vezes eram homens mais velhos que escolhiam

No mesmo bate-papo, Miley relembrou a fase em que assumiu sua própria personalidade e chocou muita gente. Um dos argumentos ressaltados por ela foi o de que as pessoas ficaram chocadas enquanto ela rebolava nos palcos, mas essa surpresa não era mesma quando era criança e vivia produzida como uma mulher adulta.

"As pessoas ficaram muito chocadas com algumas coisas que eu fiz. Deveria ser mais chocante o fato de que quando eu tinha 11 ou 12 anos eu usava aplique, maquiagem, unha falsa e colocava roupas que na maioria das vezes eram homens mais velhos que escolhiam. Não é segredo o motivo de muitas pessoas se perderem no caminho, porque elas sempre têm alguém dizendo a elas o que têm que fazer", opinou.

Natalie Portman

Alberto E. Rodriguez/Getty Images
Imagem: Alberto E. Rodriguez/Getty Images

Vencedora do Oscar de Melhor Atriz, hoje, aos 37 anos, é uma das pessoas mais respeitadas de Hollywood. Sua carreira começou em 1994, quando tinha 13 anos de idade, época em que teve que lidar com muitas pressões exteriores devido à fama alcançada.

Reprodução/Divulgação
Natalie Portman, aos 13 anos, no filme "O Profissional" Imagem: Reprodução/Divulgação

Em entrevista à revista "People", Natalie contou que nessa mesma época já começou a sentir um tratamento diferente dos homens em relação a sua imagem, que passou a ser sexualizada após a atuação no filme "O Profissional". Esse pensamento se confirmou quando ela recebeu uma carta de um indivíduo, que dizia ser seu fã, dizendo que tinha "fantasias sexuais" com ela.

"Eu entendi muito rapidamente que se eu me expressasse sexualmente, os homens se sentiriam aptos a objetivar meu corpo. Senti a necessidade de cobrir meu corpo para enviar minha mensagem ao mundo de que sou digno de alguém em segurança e respeito", contou.

Faziam contagem regressiva para meu 18º aniversário. Era a data em que já poderiam dormir comigo porque seria legal. Os críticos falavam de meus 'seios incipientes' em suas resenhas

Essa questão, hoje com outro ponto de vista, foi importante para que Natalie se envolvesse na militância feminista, aderindo ao #MeToo e sempre levantando a bandeira em aparições públicas e entrevistas.

"Numa rádio local, faziam contagem regressiva para meu 18º aniversário. Eufemisticamente, era a data em que já poderiam dormir comigo porque seria legal. Os críticos falavam de meus 'seios incipientes' em suas resenhas. Entendi rapidamente, mesmo sendo uma menina de 13 anos, que, se eu me expressasse sexualmente, me sentiria insegura e os homens se sentiriam no direito de discutir e coisificar meu corpo, apesar do grande desconforto que isso me provocaria", contou ela na Marcha das Mulheres, em Los Angeles, em janeiro de 2018.

Emma Watson

Reprodução/Vanity Fair
Imagem: Reprodução/Vanity Fair

Além de atriz, aos 28 anos, a eterna Hermione Granger, de "Harry Potter", hoje é também embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres.

Em discurso feito no lançamento da campanha "HeForShe", Emma revelou que começou a questionar os preconceitos de gênero quando era criança. O estopim para que isso acontecesse foi quando, aos 14 anos, começou a ser sensualizada por alguns veículos da imprensa.

Reprodução/Divulgação
Emma Watson caracterizada como Hermione, em "Harry Potter" Imagem: Reprodução/Divulgação

"Aos 8 anos, eu fui confundida e classificada como "mandona" porque eu queria dirigir os teatrinhos que preparávamos para os nossos pais, porém os meninos com a mesma atitude não eram considerados "mandões". Aos 14 anos, passei a ser sensualizada por alguns membros da imprensa. Aos 15 anos, minhas amigas começaram a parar de praticar seus esportes preferidos para que não criassem músculos. Aos 18 anos, meus amigos eram incapazes de expressar seus sentimentos", declarou ela.

Aos 14 anos, passei a ser sensualizada por alguns membros da imprensa

A atriz falou sobre como essa sexualização precoce, que a forçava a deixar a imagem da "bruxinha" de lado, mudou sua concepção sobre o tratamento feito entre ela e seus colegas de elenco homens, citando a força do feminismo atualmente como uma das vias para lutar contra essa imposição ainda feita às crianças artistas de usarem seus corpos.

"Eu acho correto que eu possa tomar decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho correto ter mulheres envolvidas, como minhas representantes nas áreas políticas e nas decisões que influem sobre a minha vida. Eu acho correto que, socialmente, receba o mesmo respeito que os homens. Porém, é com tristeza que posso afirmar que não existe um só país no mundo onde todas as mulheres possam esperar ter todos estes direitos. Nenhum país do mundo pode dizer que alcançou a igualdade entre os sexos."