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Minha história

Mãe tentou se matar ao descobrir que filhos são gays: 'Fui cruel com eles'

Arquivo Pessoal
Com os filhos, que ela demorou a aceitar Imagem: Arquivo Pessoal

Luiza Souto

Da Universa

03/09/2018 04h00

 A secretária executiva Inês Silva, de 50 anos, descobriu primeiro que sua filha caçula, então com 17 anos, é lésbica. Tentou se matar ingerindo uma cartela de remédios para o coração. Achava que havia errado em sua educação. Após um ano de terapia, o filho mais velho contou que terminou o noivado porque estava apaixonado por outro rapaz. Nova tentativa de suicídio e guerra declarada contra os filhos. Hoje, a viúva de Pernambués, na Bahia, é ativista na causa e ajuda outras famílias a passar por cima de preconceitos e rótulos. Por telefone, ela conta como superou seus medos.

"Casei aos 17 anos, grávida de três meses do meu primeiro filho, André, que hoje tem 30 anos. A Andreia tem 26. Achava que tinha aquela família de comercial de margarina: estava tudo normal, até a adolescência dos meus filhos. Minha menina estava namorando o filho de uma grande amiga, e meu filho noivo de uma garota que conheceu no colégio.

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Aos 17, minha filha foi para a Disney e voltou muito decidida a terminar o relacionamento. Não deu nenhuma satisfação e ainda colocou senha no computador e no celular. Achei que tinha alguma coisa errada. Uma vez ela deixou o e-mail aberto e, pensando que estava protegendo ela de alguma coisa, fui lá e olhei. Havia uma troca de mensagens, em inglês, com outra menina por quem estava apaixonada.

Primeira tentativa de suicídio

Minha mente pensou em várias coisas. Como assim, minha única filha, única neta da minha mãe, gay? De jeito nenhum! Fora fatores externos. Estava preocupada com o que as pessoas falariam, na família, no trabalho. É uma amargura que eu sentia. Não enxergava minha filha como filha. Me perguntava: "por que eu?", "o que eu deixei de fazer?", e pensava que alguém havia a aliciado.

Ficamos em guerra. Fui cruel com ela. Impedia todas as amigas de chegarem perto porque eu achava que estavam influenciando. Você fica na maluquice achando que alguém a contagiou, quando na verdade não é isso. Quando você tem um filho, coloca um pedaço da gente no mundo e acha que eles podem fazer o que a gente quer, quando na verdade ele tem suas próprias escolhas.

Tinha problema de arritmia e já tomava remédio para o coração. Um dia, tomei a cartela inteira. Minha intenção era realmente acabar com minha dor. Não pensei na minha família, no sofrimento que geraria. Sei que fui egoísta. Mostrei a cartela para minha filha e falei: "vá viver sua vida, porque para mim não dá mais". Imagina se tivesse dado certo? Eles carregariam uma culpa que não era deles. Era falta de entendimento meu. Mas o socorro veio de imediato. Passei um ano vendo o psiquiatra, tentando aceitar. Tomei muitos medicamentos. Ficava dopada e chorava descontroladamente.

Segunda tentativa, para chamar a atenção

Comecei a me acostumar com essa dor, mas ainda com pensamento errado de que se ela “quisesse ser” lésbica, pelo menos que ninguém soubesse. Achava que tudo voltaria ao normal. Quando estava me recuperando, achando que estava tudo bem, num dia de domingo meu filho vem e fala "estou terminando o noivado porque estou apaixonado por um menino". Foi outro choque.

Essa outra tentativa de suicídio foi para chamar atenção. "Afinal, eu não presto?", me perguntava. E voltou tudo de novo. Perguntei para mim mesma: "o que eu fiz?". Eu estava preocupada porque estava sofrendo. Achava que minha dor era maior que a de todo mundo.

Dessa vez tomei calmante, mas com o intuito de chamar atenção, não de ir embora. Passei mais de um ano no "luto". Não estava feliz, nem falava com meus filhos. Foi muito difícil. Você passa a vida inteira ouvindo o que está certo ou errado. Me sentia duplamente traída.

Minha família segurou as pontas

Fiquei viúva no ano passado, mas até então foi meu marido, aparentemente sempre muito machista e homofóbico, quem segurou as pontas para manter a família unida, me mostrando que eu tinha que ser compreensiva. Ele me fez sair da bolha e ver o mundo com outros olhos ao ponto de entrar na luta pela família.

Meu filho é escritor e publicou um livro falando sobre isso. Trata-se de um romance homoafetivo e fala ainda sobre o amor de uma mãe e o que ela é capaz de fazer para proteger seu filho. E fez uma homenagem para mim na contracapa. "Para Inês, que pôde ver em seu filho um homem concreto em sua concreta humanidade”, escreveu. Não me senti à vontade.

Dois meses antes do lançamento, ele sentou na minha cama, com a minha filha, pegou na minha mão e me disse: "mãe, eu preciso de você na noite de autógrafos", e me pediu um beijo. Então a ficha caiu: eu tinha uma família de verdade, coesa, onde todos têm liberdade de ser o que de fato eram. Eu tinha que sair do armário com eles para ajudá-los a enfrentar o mundo! Fiquei muito emocionada. Eu disse que o amava de qualquer jeito. Decidi que ia escancarar para o mundo que tenho um filho gay e uma filha lésbica. Foi melhor do que ficar praticamente dois anos me martirizando. 

No fim, virei militante

No dia do lançamento do livro, resolvi entrar para a militância e hoje participo de um grupo de Famílias Pela Diversidade. Conheço os namorados dos meus filhos, eles frequentam minha casa. Ele mora em Bauru (SP) com o companheiro e minha filha está em Montreal (Canadá) há quatro anos. Em 2016, paguei passagem da então companheira dela para virem me ver. O relacionamento delas acabou no ano passado.

Mas sinto que, com a ajuda de meus filhos e de grupos de famílias, ganhei muitos mais filhos. 

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