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Minha história

"Olhavam como se eu fosse de outro mundo por ser uma grávida cadeirante"

Arquivo Pessoal
Dieli Costa enfrentou a condição de cadeirante e realizou o sonho de ser mãe Imagem: Arquivo Pessoal

Léo Marques

Colaboração para Universa

20/08/2018 04h00

Diagnosticada com distrofia muscular, a carioca Dieli Costa, 31 anos, enfrentou sua condição de cadeirante e conseguiu realizar o sonho de ser mãe. Casada há 11 anos, ela teve uma gravidez não planejada e só descobriu que estava esperando um bebê aos quatro meses de gestação. Conheça a história dela, que venceu as adversidades e, hoje, tem orgulho da família que formou:

“Tudo ia perfeitamente bem na minha infância. Era uma criança alegre e brincalhona, tinha uma vida normal. Aos 12 anos, comecei a sentir dificuldade de andar e correr. Subir escadas já não era uma tarefa fácil. Foi tudo muito de repente. Quando eu vi, comecei a cair com frequência e a andar na ponta dos pés. Fui ao médico e eles me diagnosticaram com distrofia muscular. É uma doença de origem genética e que causa degeneração dos músculos. Eu me sentia péssima, ainda mais porque era uma adolescente, num momento onde você começa a ganhar liberdade, poder ir sozinha para a escola, cinema, sair com as amigas. Foi tão doloroso para mim que precisei passar por psicólogo.

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Quatro anos antes de parar de andar completamente, aos 19, conheci Wellington, um anjo que se tornou meu marido. Não estava na cadeira de rodas ainda, mas sabia que ficaria. Foi então que conversei com ele e falei que, se quisesse terminar no momento que eu fosse para a cadeira de rodas, tudo bem, porque eu não queria ser um peso na vida dele. Mas Wellington não quis de forma alguma terminar comigo. 

Hoje, estamos juntos há 11 anos. Desde o começo do nosso relacionamento eu quis ser mãe, sempre falávamos em ter filhos. Mas, como não sei qual o tipo de distrofia muscular eu tenho, ficava com medo. Com o tempo, deixamos esse sonho para trás. Tudo mudou há quatro anos, quando eu estava com um cisto no ovário e precisei fazer um tratamento com remédio por seis meses. Só que ele me deixou com gastrite e, por isso, precisei parar de tomar o anticoncepcional também. Foi quando engravidei. Soube apenas quando estava no quarto mês.

Quando constatei, no exame de ultrassom, não pude conter as lágrimas de alegria. Eu e meu marido ficamos muito felizes. Mas, logo depois, fiquei apavorada por causa da distrofia, com medo do meu bebê nascer com o mesmo problema. Por eu ser cadeirante, pensamos que íamos viver em hospital. Também me perguntava se eu conseguiria dar conta ou como seria quando a barriga crescesse. Foi uma mistura de felicidade e medo.

Arquivo Pessoal
Dieli e o marido Wellington com o filho Enzo Imagem: Arquivo Pessoal

Mas o que ocorreu nos meses seguintes me surpreendeu. A gravidez foi tranquila. Fiz todo o atendimento pelo SUS. No pré-natal, pensei que ia ter algum tratamento diferenciado por ser cadeirante e pela minha deficiência ser genética, mas não tive. As consultas eram mensais e o acompanhamento e tratamento foram iguais aos de qualquer outra grávida. Os meses finais da gestação não foram fáceis, pois o bebê já estava grande e eu não tinha mais posição para dormir. Preferia ficar sentada do que deitada. Quando precisava fazer a transferência da cadeira para o sofá, era um sufoco, por conta do peso. Os meus pés também já estavam bastante inchados e nenhuma sandália cabia.

Durante esse período, todo mundo olha com um olhar do tipo: ‘Meu Deus, não acredito que essa garota inventou de engravidar na cadeira’. Os olhares eram péssimos! As pessoas se comportam como se você fosse um ser de outro mundo. Elas olham com olhar de pavor, de curiosidade. Escutei até uma pessoa dizendo: ‘Tadinha, está grávida’. Mas no hospital eu fui tratada como uma mãe normal, com as limitações que sabia que teria.

No momento do parto, minha médica do Hospital Sarah (da rede Sarah Kubitschek) pediu que eu optasse pela cesárea e também que eu ficasse em observação no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) depois do parto, porque a maioria das pessoas que tem distrofia tem problema do coração, mas graças a Deus não é o meu caso.

Nos primeiros dias, depois da chegada de Enzo, já em casa, tive medo de não dar conta. Mas esse medo logo foi embora porque não tinha tempo para nada. Passei dois dias sem pentear o cabelo por conta da correria. A parte mais difícil foi a amamentação, porque eu não tenho muita força no braço, então ficar muito tempo na mesma posição com o bebê é muito cansativo. Além disso, no primeiro mês, o bico do meu peito rachou e sangrou, o que causava dores horríveis. Isso me fez chorar em muitos momentos. Mas graças a Deus depois passou e eu pude amamentá-lo até os dois anos.

Wellington sempre dividiu tudo comigo, desde o começo. Era ele, por exemplo, quem dava banho em Enzo e fazia o almoço. Mas era eu quem trocava a fralda e essas pequenas conquistas me deixavam realizadas. Minha mãe me ajudava a arrumar a casa e depois voltava para a dela. Foi um período cansativo porque muitas vezes ficava sozinha parte do tempo, mas não trocaria aquele momento por nada.

Quando Enzo cresceu, foi um pouco difícil porque não dá para correr atrás dele. A criança tem que obedecer ao seu comando de voz. Foi complicado, mas a gente aprende a dar conta. As pessoas acham que não somos capazes de cuidar de uma criança, mas graças a Deus eu mostrei o contrário. Cuidei e cuido do meu filho com muito amor. Hoje ele tem três anos, é uma criança muito saudável, ativa e continuo me virando bem na criação dele.

Por isso eu sempre digo: tudo é possível com amor. O amor faz a gente superar, romper barreiras e, depois que a gente vira mãe, aumenta ainda mais. Independentemente da capacidade física, todas podem ser supermães!”

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