Relacionamentos

Relacionamento aberto: Eles fazem valer as próprias regras no amor

Arquivo pessoal
André e Muriel Imagem: Arquivo pessoal

Geiza Martins

Colaboração para Universa

10/04/2018 04h00

Quando o assunto é sentimento, desejo e compromisso, há poucas certezas. Se assim não fosse, não seriam tão comuns as histórias, as músicas, livros e filmes sobre quem amou com medo de perder a pessoa amada — seja para outro ou para o mundo.

Mas enquanto a maioria opta por um pacto de exclusividade, há quem prefira experimentar o amor com mais liberdade e, por isso, embarque em um relacionamento aberto.

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A sociedade ocidental é predominantemente monogâmica, ou seja, cada indivíduo escolhe um único parceiro para a vida, ou por um período determinado. No entanto, a ciência é clara: o ser humano não é naturalmente monogâmico.

Segundo o psiquiatra Mario Louzã, a monogamia social (de médio a longo prazo) surgiu ao longo da evolução da espécie humana. Isso porque o recém-nascido, que demora para atingir a maturidade, tem maior segurança para se desenvolver com os dois pais juntos. "Porém, a monogamia sexual parece ser mais uma criação cultural que permite melhor organização da estrutura familiar e social", diz.

Não à toa, muita gente promete amar, respeitar e "ser fiel em todos os dias da vida" sem nem saber se terá filhos. Frequentemente, fecha-se um acordo de exclusividade em início de namoro mesmo, sem nenhuma pista de que aquilo vai virar casamento ou família.

Este é o motivo pelo qual, na prática, tanto se ouve falar na palavra traição. Afinal, ainda que nos declaremos exclusivos, os desejos seguem firmes e fortes. E é por isso que algumas pessoas têm abandonado este modelo de relacionamento.

Tentativa e erro

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Os problemas mais banais de um relacionamento aberto são ciúme, insegurança... E quem vai lavar a louça!", se diverte a psicóloga Muriel Duarte, de 31 anos, ao falar sobre a sua relação aberta de 5 anos com o gestor ambiental André Biazoti, de 30.

Para eles, o relacionamento, que já começou aberto, não passa por problemas muito diferentes de um namoro convencional. "Sempre fui muito livre, cheia de amigos, viajo bastante e tinha medo de perder alguma oportunidade ou até mesmo trair por estar em uma relação fechada. Gosto de me sentir livre e queria que o André se sentisse também", conta. 

Apesar disso, o casal não sentiu necessidade de ficar com outras pessoas durante o primeiro ano de união. "No começo, a gente sente muita paixão pelo outro e fica apenas com aquela pessoa mesmo", conta André.

Hoje, os dois dividem a mesma casa e respeitam regras que estabeleceram ao longo dos anos, seguindo o tal método de "tentativa e erro, explica Muriel". "Nem sempre nossos limites foram claros, às vezes eles foram forjados na dor de perceber que eles existem. Também não são eternos, podem mudar com o tempo, mas devem ser respeitados enquanto forem vigentes".

Pode, não pode...

Se há uma regra para o relacionamento aberto, é esta: cada casal estabelece suas próprias normas. D.P. e L.G.*, por exemplo, estavam casados há 3 anos quando decidiram abrir a relação. Eles podiam ficar com outras pessoas, no entanto, elas precisavam ser aprovadas por ambos.

"Nós conversávamos, falávamos que talvez aquela pessoa não fosse legal. Às vezes rolava um 'olha, vou ficar com um pé atrás aqui porque talvez você goste dessa pessoa'. Era sempre uma conversa", relembra D.

O novo acordo surgiu em um momento de crise, quando ambos tentavam salvar o casamento. Segundo D., L. estava apaixonada por outra pessoa e ele já havia traído a parceira muitas vezes. "Como eu não tinha sido tão honesto, deixei que ela dissesse primeiro quais eram os limites. Foi muito sincero", conta.

Hoje eles estão separados, seguem amigos e juram que o motivo do fim não foi a abertura do casamento. "Foi a melhor fase da minha vida, me sentia mais bonita e desejável, estávamos juntos [com mais frequência], com a certeza de que estávamos no caminho certo", diz L.

Se o relacionamento vai mal, Mario Louzã desaconselha a abertura. "É pouco provável que salve a relação. Abrir é para os casais que estão muito seguros de seu relacionamento, cientes dos limites, critérios e regras dessa abertura", acredita.

É o caso de Muriel e André. Eles podem ficar, transar e até se relacionar com outras pessoas sem consulta alguma. A principal regra é "omitir, mas não mentir": se um deles perguntar, a verdade tem de ser dita.

"Não há fidelidade, mas há lealdade porque não há mentiras. E quando a gente compartilha as outras histórias parece que fica leve e engraçado. A gente acaba rindo das outras relações, das desventuras, dos rolês errados", conta Muriel.

Zona de conforto

Uma regra essencial para o convívio entre André e Muriel é o respeito à casa que eles dividem. Para que um deles leve uma terceira pessoa ao endereço, é preciso que haja consentimento de ambos, mesmo quando Muriel está viajando a trabalho.

O quarto, por exemplo, é um lugar proibido para outros parceiros — algo que eles descobriram na prática. Agora, quando ela está viajando e André chama alguém, ele circula com a nova companhia apenas por outros espaços da casa.

Segundo o psiquiatra Mario Louzã, esse sentimento é mais que comum. Por mais que as pessoas estejam preparadas para abrir o relacionamento, é possível que, na hora H, alguém se sinta preterido, rejeitado e que o ciúme venha à tona. Daí, o segredo está na maneira como o casal lida com isso. "Neste caso, é bom repensar a proposta de abertura da relação e os termos dessa proposta, para evitar um ‘estrago’ maior".

Muriel e André lidam com o ciúme criando um ambiente de segurança, conforto e carinho. "Resolvemos questões com muito diálogo, respeito e comunicação", afirma André. Porém, acreditam que quem foi mordido pelo sentimento tem de resolvê-lo internamente, por ser fruto de uma insegurança da pessoa. "Se sinto ciúmes dela com outro cara, sou eu que tenho de lidar e resolver. Não jogo para cima dela", explica.

Para André, em um relacionamento aberto, quaisquer questões pessoais vêm à tona com mais facilidade. "Colocamos na mesa não só o nosso relacionamento, mas os nossos fantasmas e traumas, crises pessoais, porque tudo isso, de certa forma, lidamos juntos".

Mas, e a paixão por outros?

Pessoas se apaixonam e, vamos combinar, a paixão por "terceiros" pode rolar tanto em relações abertas como fechadas. André conta que tanto ele quanto Muriel já se apaixonaram por outras pessoas. "Temos nossos casos e a gente sempre se apaixona por algumas pessoas". E eles falam abertamente também sobre isso.

O ciúme, é claro, bate nestas circunstâncias, mas André assegura que os dois passam por essas situações juntos. "Temos muita força no que estamos construindo como relação, por isso não chega a abalar. [Na verdade, uma situação assim nos] fortalece porque nos apaixonamos por outras pessoas, mas não perdemos essa certeza de que queremos ficar juntos e que nos amamos".

No entanto, cada relação é diferente e não são todas que resistem a uma nova paixão. O namoro de 7 anos — 6 deles com a relação aberta — entre C.F. e D.D. foi interrompido justamente por uma. "Namoramos bem cedo, dos 14 aos 21 anos. A gente pensava 'cara, vamos ficar o resto da vida juntos, não podemos ter só nós mesmos'", diz C., hoje aos 30, mãe e e em um casamento fechado com outra pessoa.

As regras da abertura foram mudando aos poucos. Primeiro, eles podiam beijar outras pessoas, mas não tinham permissão para ficar novamente com elas. Depois, a autorização para sexo veio e para o envolvimento também. "Nós sabíamos de todo mundo. E o 'outro' também sabia que o namorado era o amor da vida".

Tudo mudou quando C.F. se apaixonou por outro cara. A relação se tornou um triângulo por nove meses, até que o novo parceiro deu um ultimato a ela. "Ele me colocou na parede e disse que não aguentava mais aquilo, que ele segurava a onda, mas estava sofrendo muito", conta C.F.

Enquanto isso, o namoro com D. passava por um desgaste. "Ele tinha passado um mês fora. Quando voltou, a gente decidiu terminar". C.e o novo namorado ficariam juntos por cinco anos depois disso, em um relacionamento fechado.

Muriel e André dizem que sabem que isso pode acontecer com eles. "Se algum dia ela se apaixonar por outra pessoa e quiser ir atrás para ser feliz com ela, quem sou para ficar segurando? O que eu mais quero é a felicidade da Muriel", diz.

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