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Relacionamentos

"Fui casada, me separei e agora vivo um amor livre com o mesmo homem"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Helena Bertho

do UOL

27/02/2018 04h00

Muito tem se falado sobre diferentes formas de se relacionar, além da monogamia. Deva Geeta, 35, e seu parceiro Ayama Roy, 33, sempre tiveram como padrão experimentar novas possibilidades. Eles namoraram, viveram um casamento monogâmico, abriram a relação para frequentar casas de swing, ingressaram no universo do tantra, se separaram e, hoje, depois de um reencontro, vivem o amor livre. Além de Ayama, ela se relaciona também com outro homem e uma mulher. Em entrevista ao UOL, eles contaram como sua história de amor chegou até aí.

"Eu fazia faculdade de secretariado e ele de teologia na mesma universidade. O Ayama era músico e tocava em eventos. Ele acabou sendo chamado para se apresentar no Dia Internacional da Mulher, em uma celebração da minha turma, e nos encantamos ali.

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Nossa troca de olhares foi virando uma conversa, que virou envolvimento e eu terminei meu noivado para ficar com ele. O Ayama era pastor na época e virgem, então tudo era intenso. Eu também sou intensa, então em um ano, nos casamos com toda a cerimônia.

No começo, um casal quadradinho

Nosso primeiro ano de casados foi bem quadradinho, só os dois. Mas não quer dizer que não tenha sido bom: o sexo era maravilhoso, energia a mil e desde sempre nos explorávamos.

'Sabia que 70% das mulheres têm, já teve ou deseja ter algum envolvimento sexual com outra mulher?', foi assim que ele começou a instigar. Ayama estava interessado em conhecer outras, afinal, eu tinha sido sua primeira, e queria despertar meu interesse no tema.

Fui me fazendo de desentendida até que um dia chegamos no assunto "fantasia". Eu falei que achava que ele gostaria de me ver com outra mulher. Sua resposta foi: 'Mas você faria?'. Assim começou nossa jornada em busca dessa mulher, que acabou nos levando até uma casa de swing.

Swing vicia

Primeira vez no swing, frio na barriga, chegamos bem cedo e passamos a maior parte do tempo sentados, observando. Até que comecei a reparar em uma mulher que estava sozinha e recusava os homens que se aproximavam. Tomei coragem e fui falar com ela. Bastou rebolar até o chão, um carinho, logo um beijo e fomos conhecer melhor as salas privativas.

Saímos dali felizes e empolgados com nossa primeira experiência e posso dizer, sem dúvida alguma, que swing é viciante. A partir daí, viramos frequentadores assíduos, ao ponto de chegarmos a ir três vezes na mesma semana e Ayama até tocar na balada. Não sei de onde tirávamos energia. Trabalho, casa, nossa relação a dois, baladas, ménages e mais ménages e ainda a igreja no domingo.

Sim, ele ainda era pastor nessa época e conciliávamos nossa vida na comunidade da igreja com o relacionamento aberto.

O swing era meu refúgio, por ser um espaço onde tudo é permitido e nada é obrigatório. Nem sempre estava lá porque queria sexo, mas só dançar, extravasar e me sentir desejada. E nós tínhamos nossos combinados que faziam com que tudo ficasse harmonioso.

Isso funcionou para nós por mais de cinco anos, mas, com o tempo, as coisas foram saindo do eixo. Começamos a questionar a religião, Ayama deixou de ser pastor e acabou entrando em depressão. Nossa relação estava bem estranha quando, por coincidência, acabei conhecendo o tantra.

A transformação através do tantra

Primeiro conheci as massagens tântricas e achei o máximo, quando recebi pela primeira vez tive a certeza de que era o que eu precisava fazer da minha vida. Comecei a estudar e logo dei um basta na carreira como secretária executiva, que eu já vinha empurrando com a barriga.

Mas o processo foi ficando mais intenso quando entrei na capacitação para ser terapeuta tântrica, onde as práticas vão muito além das massagens. São exercícios para romper com todos os seus paradigmas, tabus, crenças, limites. Eu achava que estava tudo ótimo comigo em relação à minha sexualidade, mas descobri que não!

As sombras foram aparecendo a cada meditação e cada massagem mais profunda que eu recebia e neguei olhar para elas por um bom tempo. Durante o curso de capacitação, houve uma vivência onde todos estávamos despidos, de olhos fechados e ficamos por quase uma hora cheirando uns aos outros, sem toques. Esse foi o marco para eu entender que o swing não fazia mais sentido. Pois eu senti tanto meu corpo, tanta energia, que perdeu sentido estar em um meio onde eu só deixava essa energia vazar. Percebi que eu poderia trabalhar essa energia sexual muito melhor do que dançando de calcinha em cima do balcão de um bar. 

Quando entramos no tantra, veio a separação

Passei a trabalhar com isso e, quando aconteceu um encontro para casais do centro de tantra, onde eu fazia minha formação, convidei Ayama. No primeiro, ele não gostou tanto. Mas voltou para outro e acabou decidindo ficar por lá, fazendo sua formação.

Nesse momento eu pensei: perdi meu marido para o tantra. E, de fato, nossa separação afetiva começou a acontecer.

Começamos a exigir satisfação, queríamos saber quem fez ou deixou de fazer o quê e tudo foi por água abaixo. Um dia, no meio de uma atividade de tantra, ele olhou bem nos meus olhos com muita raiva e terminou.

Minhas relações não têm mais rótulos

Foi tudo muito doloroso e eu entrei em uma fase depressiva. Por coincidência, começou a surgir uma possibilidade de eu ir para a Índia. Passei três meses lá, acessei minhas mágoas, me virei do avesso, chorei e pude cuidar de mim. Voltei cheia de força e mais equilibrada.

Uma das coisas que começou a mudar foi minha forma de me relacionar. Estava comigo na Índia um parceiro que conheci no Brasil e com quem passei a trabalhar e também me relacionar. Mas sem posse, sem ciúme, numa relação sem rótulos, baseada apenas no amor.

De volta ao Brasil, passei a me envolver com uma mulher também e estava muito feliz e realizada. Até que, no final do ano passado, em um congresso de tantra que organizei, o Ayama ressurgiu em minha vida. Ele teve um gesto muito bonito de pedir perdão por tudo o que houve e começamos a nos reconectar através do amor que nunca morreu em nós.

Assim como já experimentei o swing, já vivi uma relação monogâmica, já estive uma relação homossexual rompendo com crenças e preconceitos, trago com cada parceiro ou parceira uma proposta diferente para atrair os casais que vibram na mesma frequência. Por isso, criamos juntos um curso para casais

A visão de Ayama: "Ela foi minha educadora sexual"

"Logo no começo do nosso casamento, eu entrei em depressão, principalmente pela crise na igreja. O casamento era uma forma de manter as aparências para a comunidade, inclusive. Mas a vida liberal era uma forma de escape em relação a toda a rigidez da religião.

Quando a Geeta entrou no tantra, eu estava numa fase muito difícil. Tinha saído da igreja e chegava a ter ideações suicidas. Nossa relação estava estranha. No segundo encontro tântrico que fui, algo mudou dentro de mim e precisei de meses para processar. Depois de um festival de fim de ano que passamos na comunidade tântrica, acabei decidindo ficar por lá.

Mas entendi que fiz muita coisa machista na época, sem perceber, querendo controlá-la. Conforme fui percebendo isso e observando de longe como ela amadureceu, comecei a nutrir por ela  uma grande gratidão, que fez reascender um sentimento dentro de mim. Depois de vários relacionamentos que tive, voltei a me reaproximar dela.

Até que em um dia de congresso que ela ministrou, onde estavam várias das minhas ex, decidi falar com todas, pedir desculpas pelos abusos que cometi. Com a Geeta, foi um verdadeiro reencontro. Éramos duas crianças, aprendendo juntos. Hoje, entendo que ela foi minha educadora sexual."