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Violência contra a mulher

Denúncias contra Asia Argento questionam movimento #MeToo

Pascal Le Segretain/Getty Images
A atriz Asia Argento em foto de 2017 Imagem: Pascal Le Segretain/Getty Images

Da AFP, em Nova York

22/08/2018 17h31

Um golpe para o #MeToo ou um sinal de seu progresso? As denúncias de que uma de suas líderes, a atriz italiana Asia Argento, assediou sexualmente um menor de idade e pagou para não ser processada por isso lançam uma grande interrogação contra o movimento.

Argento foi uma das primeiras acusadoras do ex-produtor de Hollywood Harvey Weinstein, denunciando que ele a estuprou em um hotel durante uma edição do Festival de Cannes, quando ela tinha 21 anos.

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Mas o jornal "New York Times" revelou neste domingo (19) que Argento aceitou pagar 380.000 dólares ao ator e músico Jimmy Bennett, 20 anos mais jovem que ela, quando este a ameaçou com uma ação judicial por tê-lo agredido sexualmente em 2013 – quando ele tinha 17 anos e ela 37 – em um hotel da Califórnia. A idade mínima do consentimento nesse estado é de 18 anos.

Argento admite o pagamento, mas nega as acusações de abuso sexual.

As acusações contra Argento lançaram um balde de água fria sobre o #MeToo, já criticado porque destruiu a carreira de homens poderosos após acusações de agressão ou assédio sexual que, na maioria dos casos, não foram verificadas pela justiça.

"As pessoas usarão estas novas informações de imprensa para tentar desacreditar este movimento. Não deixem isso acontecer", pediu após a notícia Tarana Burke, que fundou o movimento #MeToo há uma década.

"Disto se trata o movimento. Não é um esporte de espectadores. É gerado pelas pessoas", afirmou. "E somos imperfeitamente humanos e todos devemos ser responsáveis por nosso comportamento individual".

Para Burke, o #MeToo deve digerir agora "a incômoda realidade de que não há uma só forma de ser um perpetrador".

"A violência sexual é sobre o poder e o privilégio. Isso não muda se o perpetrador é sua atriz, ativista ou professor favorito de qualquer gênero", apontou.

A atriz Rosanna Arquette, outra acusadora de Weinstein, afirmou que sua colega italiana poderia ser ao mesmo tempo vítima e abusadora.

"Conheço muitas, muitas vítimas de estupro e de trauma que têm um comportamento sexual errático. Os estigmas que carregam são profundos", tuitou.

Argento, de 42 anos, afirmou na terça-feira que nunca teve relações sexuais com Bennett, mas admitiu que lhe pagou para ajudá-lo e para evitar "mais intrusões" dele em sua vida, a pedido de seu então namorado, o famoso chef Anthony Bourdain, que se suicidou em junho.

"A única conclusão razoável neste momento é que é possível que duas coisas horríveis sejam verdade ao mesmo tempo", disse Monica Hesse, uma jornalista que opina sobre gênero, no Washington Post.

"Deixem que as histórias sejam complicadas, porque isso não é uma coisa ruim. É a única forma de reconhecer que não há rótulos claros nestes casos, só seres humanos quebrados", escreveu.

Para Kara Alaimo, professora de relações públicas da Universidade Hofstra, as denúncias contra Argento não prejudicam o movimento, pelo contrário, são "prova de seu êxito", porque conseguiu fazer com que as vítimas se animem a denunciar seus abusadores poderosos, sejam homens ou mulheres, e porque foi um homem que fez a denúncia, superando os estigmas.

"Esperemos que isto crie um clima no qual homens e mulheres se sintam cômodos denunciando, se são vítimas de abuso sexual", disse Alaimo à AFP.

O advogado de Weinstein, Ben Brafman, criticou "a incrível hipocrisia" de Argento e afirmou que isto demonstra que as acusações contra seu cliente carecem de sustentação.

Mas para Bennett Gershman, professor de direito da Universidade Pace e ex-promotor, as denúncias contra a atriz não terão nenhum impacto no caso Weinstein, porque o produtor está sendo julgado por sua denúncia.

"Isto é claramente irrelevante em termos de evidência. (Argento) não foi testemunha de nada que o promotor estivesse investigando" e portanto não afeta o caso da promotoria contra Weinstein, opinou.

Todos os abusadores devem ser medidos com a mesma vara, disse à AFP Tori Van Pelt, presidente da Organização Nacional de Mulheres dos Estados Unidos.

"O movimento #MeToo é a exposição de abusos e assédios sexuais cometidos por aqueles que estão em posição de poder, e não importa quem são essas pessoas. É um crime", concluiu.

Mas acrescentou que nada muda a denúncia de estupro de Argento por parte de Weinstein. "O que lhe aconteceu, aconteceu, e não importa o que aconteceu depois".

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