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Violência contra a mulher


"Dormi no ônibus e, ao acordar, estava com a mão no pênis de um estranho"

PxHere
Quase 100% das brasileiras já passaram por alguma forma de assédio no transporte coletivo, indica pesquisa do instituto Locomotiva Imagem: PxHere

Marcos Candido

Da Universa

2019-06-26T04:00:00

26/06/2019 04h00

A universitária Maria Chaves, 18, pegou no sono ao embarcar em um ônibus na saída da faculdade, em São Paulo. Para se sentir mais segura ao viajar de noite, ela tem o hábito de sentar nas cadeiras da frente para ficar mais próxima do motorista.

Mesmo assim, ao acordar, a mão dela estava em cima do pênis de um estranho. Em choque, ela começou a gritar. "Ele me chamou de louca", relembra. Somente um passageiro a acudiu enquanto ela gritava contra o agressor, que tinha cerca de 50 anos. O motorista parou o veículo e o homem desceu depois disso.

A história de terror narrada por Maria não é incomum. O transporte coletivo é onde as brasileiras mais têm medo de sofrer algum tipo de abuso sexual. É o que indica uma pesquisa encabeçada pelo Instituto Patrícia Galvão, organização social que luta pelos direitos das mulheres, e da Locomotiva, empresa especializada em pesquisas.

O estudo mostra que 97% das mulheres já foram vítimas de alguma forma de assédio no transporte coletivo. Há quase uma onipresença deste crime no Brasil.

O assédio costuma começar com olhares: mais de 40% das mulheres no País já foram perturbadas pelo olhar insistente e constrangedor de outros passageiros. Já 35% das entrevistadas foram "encoxadas", 33% escutaram assédios, 22% já tiveram uma mão estranha tocando em seu corpo e 19% ouviram comentários de cunho sexual.

Divulgado na semana passada, o estudo ouviu mais de mil mulheres acima dos 18 anos, das classes ABCD, que usaram transporte coletivo ou por aplicativo nos últimos três meses nas cinco regiões do País.

Maria fez um boletim de ocorrência contra o agressor. O caso aconteceu em fevereiro deste ano na zona leste de São Paulo, mas os traumas permanecem nela até hoje.

"Ando de ônibus, mas sempre com alguém. Dia desses, fui até a faculdade sozinha, mas não consegui voltar e precisei chamar minha mãe", diz.

"Comecei a chorar"

Há três anos, Laís dos Santos, 22, foi constrangida por olhares de um desconhecido no ônibus. Ela retornava da faculdade e estava de pé na parte dos fundos do veículo. Sentado, os olhares do homem viraram tentativas de encostar na perna dela. Laís recuou, tentando "ignorar a existência" do assediador até o fim da viagem.

"Já estava perto de descer quando vi que ele estava com a mão no pênis, se masturbando", lembra. "Eu fiquei sem reação, meu olho encheu de lágrimas. Dei sinal na hora e desci um pouco antes do meu ponto".

"Fui andando até em casa, dei oi para minha mãe, entrei no banheiro e comecei a chorar.

Ela conta que se sentiu violada. "Humilhada, com nojo de mim. Na minha cabeça só conseguia pensar no que tinha feito para passar por essa situação", desabafa.

Situações de assédio são banalizadas

Para a porta-voz do estudo da Locomotiva, Maíra Saruê, o mais chocante é a abrangência dos casos. Segundo ela, mulheres de todas as cores, idades, raças e em todas as regiões enfretam roteiros semelhantes de assédio no transporte coletivo.

Um exemplo disso: quando as mulheres da pesquisa eram questionadas se já tinham sido vítimas assédio sexual, o número de respostas afirmativas ficou na casa dos 50%. Quando o pesquisador fez perguntas mais específicas, como se já sofreram com olhares insistentes e "encoxadas", que também são formas de assédio, o número de respostas afirmativas atingiu 97%.

"A diferença mostra que o assédio é tão cotidiano que chega a ser banalizado, como se fosse algo normal no dia a dia da mulher que se locomove", explica.

Pela lei, assédio de cunho sexual pode ser registrado como crime de importunação sexual. A lei entrou em vigor em 2018, após vítimas serem atacadas com ejaculação em ônibus de São Paulo.

Não à toa, um outro estudo, feito apenas com mulheres da capital paulista, demonstrou que o medo de passar por esse tipo de situação começa ainda no ponto de ônibus.

A especialista defende o uso da lei de importunação sexual combinada ao treinamento de motoristas e policiais para saber como agir diante destes casos. "É preciso que todo mundo olhe para essa situação", conclui.