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Por que alguns homens cismaram que o orgasmo feminino é uma mentira?

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O orgasmo feminino é uma sensação muito mais subjetiva do que o masculino e, por isso, seria mais difícil de ser percebido Imagem: Getty Images

Natália Eiras

Da Universa

2019-05-03T04:00:00

03/05/2019 04h00

Até o século 20, o orgasmo feminino era um assunto inexplorado. Por ter sido, muito tempo, preterido pelos pesquisadores, há quem acredite que mulheres não chegam ao clímax em uma relação sexual e que o orgasmo feminino seria um "mito" para pressionar homens na cama.

De acordo com a ginecologista Carolina Ambrogini, especialista em sexualidade no ambulatório do Projeto Afrodite, na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), muita gente tem dificuldade em entender o orgasmo feminino porque, fora a pequena parcela de mulheres que tem squirting, não há uma ejaculação, como a masculina. "O orgasmo é uma sensação muito individual", diz. A curta duração do ápice também influencia da mitificação do orgasmo. "São apenas dez segundos."

Mas quais são as evidências de que uma mulher gozou?

Há muitas evidências biológicas de que uma mulher teve um orgasmo que vão além da ejaculação. "O pesquisadores [William H.] Masters e [Virginia E.] Johnson mapearam, nos anos 1950, o ciclo de respostas sexuais da mulher", diz Carolina. "Eles observaram casais em relações sexuais e perceberam que, durante a prática, que a pressão arterial e a circulação sanguínea da mulher aumentavam e, quando ela chegava ao êxtase, o corpo entrava em um processo de desaceleramento."

A psicóloga e terapeuta sexual Paula Napolitano, de São Paulo (SP), diz, ainda, que o corpo da mulher dá sinais físicos de que ela chegou ao ponto alto da relação. "A musculatura pélvica tem contrações, os bicos dos seios ficam enrijecidos, a lubrificação aumenta ainda mais e o clitóris fica inchado", fala. O pós-orgasmo é ainda mais evidente. "Depois há, ainda, o relaxamento do corpo e dos músculos."

E por que a mulher tem orgasmo?

Paula conta que ainda há pouquíssimos estudos sobre o orgasmo feminino, por isso não se sabe ao certo qual a função biológica da sensação. "Mas cogita-se que ele tem uma descarga hormonal que faz a mulher se sentir mais vinculada com o parceiro". A ginecologista Carolina Ambrogini fala que a contração da pélvis também ajudaria o esperma chegar ao útero, onde estaria o óvulo, facilitando a reprodução. "Além de fazer com que a mulher sinta mais vontade de fazer sexo", diz a especialista da Unifesp.

Então por que há quem duvide da existência do orgasmo feminino?

Além da falta de estudos, o fato do orgasmo feminino ser mais subjetivo do que o masculino ajudaria na mitificação dele. Segundo as especialistas, não existe um mapa ou uma receita que leve a mulher ao clímax. E, por causa do desconhecimento, mulheres heterossexuais o atingem apenas em 65% das vezes em que fazem sexo, de acordo com estudo publicado pelo "Archives of Sexual Behavior", em janeiro de 2018.

O quanto ela foi estimulada, o quanto ela estava psicologicamente presente na relação, são alguns dos fatores que precisam estar bem alinhados para que o orgasmo feminino aconteça. Muito diferente do caso do masculino, que, teoricamente, seria mais fácil. "E ela sempre pode mentir sobre ter gozado", diz a ginecologista Carolina Ambrogini.

O que faz uma mulher fingir o orgasmo é a pressão interna e até do parceiro sexual para que ela chegue ao clímax. "Existe essa exaltação do orgasmo, de que ele precisa existir, que leva as mulheres acreditarem que precisam chegar ao ápice para ter uma relação sexual bem-sucedida", fala Paula Napolitano. "Então, mais do que a pessoa duvidar sobre a existência do orgasmo feminino, ela pode questionar sobre se a companheira que está ao lado dela realmente o atingiu."

"Prazer, este é o orgasmo"

As especialistas pontuam que muita gente não sabe identificar quando teve um orgasmo por terem um olhar distorcido sobre o que ele é, influenciado pelos filmes pornô e o entretenimento em geral. "Existe essa visão quase sobrenatural sobre o clímax, em que a mulher berra e parece que vai sair do próprio corpo", afirma a terapeuta sexual Paula Napolitano. "Há diversas intensidades de orgasmo, que dependem do grau de excitação da mulher, mas ela fica esperando essa sensação irreal e acaba nem percebendo que já teve um orgasmo."

A psicóloga de São Paulo (SP) conta que é comum chegarem ao seu consultório mulheres que não faziam ideia de que já tinham tido chegado ao clímax em sua vida. "Aí pergunto se elas já sentiram um pico de prazer seguida por uma sensação de relaxamento e elas respondem que sim. É quando brinco: 'prazer, este é o orgasmo'", conta.