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Minha história


"Sou trans e fugi de casa aos 7. Usei drogas, me prostituí, mas me reergui"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Simone Cunha

Colaboração para Universa

2019-02-28T04:00:00

28/02/2019 04h00

A orientação sexual foi o primeiro desafio a ser enfrentado por Symeony Zabutto de Souza, 43 anos, que, por não ser aceita na escola nem em casa, apanhava muito. Para fugir das surras, foi para as ruas, onde conheceu as drogas, o crime e a prostituição. Mas, após uma conversa com o pai, depois de décadas sem notícias dele, Symeony percebeu que precisava rever sua trajetória. Desde então, conseguiu se libertar dos vícios e reestruturou sua vida, tomando um novo rumo.

"Com sete anos, eu já sentia o peso do preconceito por causa da minha orientação sexual. Na época, apanhava na escola dos meninos só porque tinha um jeito diferente. Quando chegava em casa, apanhava da minha mãe, que não aceitava o fato de eu não conseguir me defender. Ela cuidava de mim, mas não me aceitava. E foi para escapar de uma surra que decidi fugir de casa: peguei um ônibus sem rumo certo e fui.

Quando desci do ônibus, fiz amizade com uns meninos e acabei ficando na rua. Dormíamos sob a marquise de uma padaria que, quando abria, nos oferecia pão e leite. Depois, íamos encontrar outro canto para ficar e não atrapalhávamos a entrada dos clientes. Percebi que, na rua, um ajudava o outro. Ali, tinha amigos. Na minha antiga escola, não. Fiquei assim um tempo, até que decidimos ir para o centro de São Paulo, na Praça da República.

Aos dez anos, eu já cheirava cola e fazia pequenos assaltos para conseguir dinheiro para me alimentar e bancar o vício. Tomava banho no chafariz da praça, dormia no coreto. Acordei várias vezes com pontapés dos guardas, mas, ainda assim, estava melhor do que em casa. Com uns 12 anos, fui pega pelo SOS Criança [instituição que atendia menores carentes que viviam nas ruas] e levada de volta para a minha mãe. Só que ela não me acolheu e eu acabei retornado para as ruas.

A fase das drogas e da prostituição

Nas ruas, aprendi a usar drogas, como maconha, cocaína e crack. Mas não queria viver uma vida miserável, por isso, comecei a me prostituir com uns 15 anos. Assim, conseguia dinheiro para me vestir bem. Antes, vivi em um abrigo para menores e o clima era bem ruim. Naquele lugar acontecia de tudo: brigas, abusos e confusões.

Fiz programa até pouco mais de 20 anos, e vivia entre as ruas e as ocupações. Nessa época, já pensava que não era essa a vida que havia sonhado para mim. Sabia que havia saído de casa e precisava fazer valer todo o sacrifício. Mas não era fácil mudar tudo de uma hora para a outra. Na rua, soube de um lugar que oferecia apoio, o Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, na região do Belenzinho (SP). Ali, tomava banho, lavava minhas roupas e consegui parar com as drogas. Eu pensava: 'Você quer, você consegue', pois não queria viver para dar dinheiro aos traficantes. E assim fui acabando com a minha dependência.

Certo dia, soube que meu pai não estava bem de saúde e queria falar comigo. Não tinha contato com ele e, quando fugi de casa, minha mãe já vivia com o meu padrasto. Mesmo sem muita expectativa, decidi falar. Por telefone, ele me disse que não estava bem e que precisava me pedir perdão, pois se sentia culpado por tudo que eu havia sofrido até então.

Uma nova perspectiva

Isso foi um divisor de águas em minha vida. Essa conversa mexeu muito comigo e me fortaleceu para alcançar os meus objetivos. Sabia que nada cairia do céu, e teria que correr atrás. O primeiro passo foi conseguir alugar um quarto, pois precisava de um endereço fixo para procurar emprego. Era muito difícil entregar currículo sem ter o nome social, pois as pessoas não davam crédito. Certa vez, deixei meu currículo na recepção de uma empresa e, quando olhei para trás, flagrei a moça amassando e jogando no lixo. Mas não desisti.

Percebi que precisava mudar minha postura e comecei a me apresentar nas empresas com os cabelos bem presos, um boné e uma roupa neutra. Não podia me expor até que conseguisse uma vaga. E consegui. Depois que a gente consegue vencer a barreira e entra no mercado de trabalho, tudo começa a fluir melhor. Fiquei na área de limpeza por um ano e, com isso, fui ajustando a minha vida.

Foi uma fase melhor, e só depois que as coisas vão se ajeitando é que a gente percebe que, nas ruas, a agressividade e a hostilidade machucam muito. Não tenho depressão, mágoa ou raiva por tudo que passei, mas sei que não podemos nos acomodar. É um processo contínuo, e temos que nos manter fortes para suportar. Às vezes, dá vontade de pegar o salário e ir aproveitar na balada, em um sábado. Mas sei que, se fizer isso, vou emendar o domingo e a segunda, então, prefiro não arriscar.

Atualmente, estou casada há quatro anos, conheci meu companheiro em um albergue e ele me ajudou muito a vencer. Aliás, é uma ajuda mútua. Sabemos o que cada um passou, por isso, não existem julgamentos. Há um ano, entreguei meu currículo no Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, o local onde um dia eu fui acolhida. Queria muito fazer parte dessa família e, após um processo seletivo, fui contratada. Sou agente operacional. Adoro andar bem vestida, com salto e maquiada. Agora sei que nada pode me tombar! Tudo o que sei é que, assim como eu consegui dar a volta por cima, qualquer um é capaz".