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Conheça as Belas da Tarde, clube de submissas que trocam dicas de BDSM

Larissa Zaidan/UOL
Praticantes se encontram mensalmente em São Paulo para falar sobre sadomasoquismo Imagem: Larissa Zaidan/UOL

Jacqueline Elise

Da Universa

2019-02-20T04:00:00

20/02/2019 04h00

O clube Dominatrix Augusta, no centro de São Paulo (SP), é um dos pontos da cidade criados especificamente para a prática de BDSM --Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo. Mas não só de estalos de chicote vive esse lugar: uma vez por mês, sempre em um sábado, a casa abre as portas para um encontro de troca de ideias chamado Belas da Tarde, que reúne pessoas, quase todas mulheres, que assumem a posição de submissas na prática do sadomasoquismo.

Inspirado no filme "A Bela da Tarde", no qual a personagem de Catherine Deneuve vive algumas das fantasias que fazem parte do BDSM, o grupo surgiu há dois anos idealizado pelas submissas Lady Sílvia, 59, e Harleen de Jack Napier, 32. As duas se conheceram por amigos em comum do meio e fundaram o clube como uma forma de encontrar pessoas queridas e auxiliar as submissas e submissos de primeira viagem.

Coleira e guia

No dia marcado para o encontro, 16 de fevereiro, às 19h, caía uma chuva insistente na cidade, o que fez com que algumas pessoas chegassem mais tarde. Mas as poucas que enfrentaram o temporal naquele sábado estavam empenhadas em participar. Praticamente todas usavam coleiras, como as de cachorro, ou o acessório choker, uma gargantilha, que virou moda entre as mulheres. Algumas das que usavam coleira também tinham uma guia, para indicar que já estavam sob a "posse" de alguém.

O assunto que mais rendeu no dia foi justamente o uso da coleira: elas discutiram se poderiam aparecer em eventos públicos com o acessório mesmo sem a presença de um "dono" ou uma "dona" --como são chamadas as pessoas dominadoras. As mais experientes explicam que não tem problema usar, mas que há símbolos específicos: sem uma guia, significa que você não tem um dominador ou dominadora. Com a guia, mostra que você já é "a posse de alguém", nas palavras delas. E se você não se considera submissa, o melhor é não portar o acessório nesses eventos para não ser confundida. 

Elas também trocaram figurinhas sobre técnicas para apanhar, quais objetos mais gostam que usem nelas nas sessões sadomasoquistas, e mostraram fotos de suas últimas aventuras pelo BDSM, como o vergão que ficou marcado no bumbum depois de apanhar, ou a vez que tentaram brincar com agulhas, o needle play.

Submissa, eu?

No BDSM, uma pessoa pode assumir três posições: ela pode ser top, que comandará toda a ação; bottom, aquela que receberá as ordens, chicotadas e afins; ou switcher, que curte os dois lados da moeda. Ser submisso é uma das posições possíveis enquanto bottom, e as criadoras do Belas da Tarde se identificam assim.

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Lady Sílvia organizadora do Belas da Tarde, posa na masmorra do Dominatrix Augusta Imagem: Larissa Zaidan/UOL

Lady Sílvia conta que conheceu o meio nas salas de bate-papo do UOL, no final dos anos 1990, mas que sua primeira vez praticando não foi o que esperava. "Marquei uma sessão com um qualquer e foi horrível, porque eu não sabia nada sobre BDSM. Então, vi que eu precisava parar e aprender um pouco mais sobre onde eu tava me metendo", diz.

Depois de estudar mais alguns anos pela internet, encontrou um parceiro de práticas que foi seu mentor e a fez descobrir o prazer da submissão. Mas como conciliar esse desejo de ser dominada quando ela própria se considerava uma mulher dominadora em outros campos da vida? Hoje ela sabe a resposta: "Uma coisa não invalida a outra. A força e a submissão convivem pacificamente e fazem parte do que eu sou. Posso ser forte e entregar minha submissão a alguém que eu admire. E, veja bem, eu não sou submissa a qualquer pessoa", acrescenta. 

Quem vai aos encontros?

"As pessoas que vêm aqui e não conhecem bem o BDSM precisam saber com o que estão se envolvendo. Tem muita menina que chega deslumbrada com o meio porque conheceu a prática pela mídia. Vem muita gente com baixa autoestima querendo se encontrar, achando que não merece coisas legais e por isso se coloca na posição de submisso, confundindo submissão com carência e subserviência", explica.

Harleen, cofundadora do evento, ressalta que uma das coisas mais discutidas no grupo são os sinais para identificar ações que podem ser abusivas. "Não é legal quando um cara quer te controlar sem ter vínculo algum contigo. Por exemplo, pede suas senhas das redes sociais, quer podar com quem você conversa, te xinga, sendo que vocês mal se conhecem", explica. 

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A submissa Harleen posa com seu "dono", Jack Napier Imagem: Larissa Zaidan/UOL

"Esses são sinais preocupantes não só no BDSM, mas na vida fora dele, também. Isso dá abertura para o gaslighting, quando a pessoa faz de tudo para fazer você pensar que está louca e acaba com a sua autoestima. Também sempre recomendamos que elas não marquem encontro no motel com alguém que mal conhecem, porque pode ser um psicopata", diz Harleen. 

Ela pratica BDSM há oito anos, e tem uma vida de dominação e submissão com Jack Napier, seu "dono", há sete. "Temos um contrato e discutimos tudo que poderíamos fazer, meus direitos, as coisas que eu gosto ou não. Claro que ele não é 100% fixo, algumas coisinhas já mudaram porque eu mudei muito, me conheci melhor. Hoje, temos uma relação fixa, nós vivemos juntos, mas ele não fica com o chicote atrás de mim o tempo todo".

A mulher submissa e o machismo

Duas das dúvidas mais frequentes de quem não conhece BDSM é se a submissão é só para mulheres e se a prática é machista. Apesar do encontro contar com mais mulheres do que homens, essas moças não são meras serventes. Elas estão lá para compreender esse mundo e descobrir novos prazeres, e o fato de serem submissas não significa que são dominadas só por homens. Além do mais, é tudo consensual. 

"Já ouvi muito de algumas feministas que a mulher não pode se submeter no sexo. Onde fica minha liberdade de fazer o que eu quero com meu corpo? Não é que o BDSM é machista, o mundo é machista e algumas pessoas com atitudes machistas projetam isso na prática, mas o BDSM em si é livre", argumenta Harleen.

A submissa iniciante Rosa Vermelha, 46, concorda com esse ponto de vista. Ela passou a viver o sadomasoquismo há um ano e meio e frequenta o Belas da Tarde há três meses. Desde então, descobriu muito sobre si mesma, mesmo não tendo alguém para lhe dominar.

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Rosa Vermelha se sentiu mais empoderada quando descobriu o BDSM Imagem: Larissa Zaidan/UOL

"Ser submissa é um prazer que temos. Toda submissa esclarecida é uma mulher que sabe exatamente o que quer e que pode viver esse desejo. Nós não somos fracas, não estamos nos subjugando por carência. Claro que tem pessoas que chegam no BDSM querendo suprir alguma necessidade afetiva, mas não é esse o objetivo. Conhecendo o meio, eu encontrei mais força, e a vontade é de encontrar alguém com quem eu me identifique e sinta vontade de me submeter", diz.

Ser sub é para eles também

Há homens que também gostam de se se entregar a outra pessoa. É o caso de Zisco, 56, que vive uma relação de dominação e submissão com sua mulher, a Rainha Malvada. "Quando começamos a namorar, eu a chamei para conversar e disse: 'eu gosto de apanhar, tudo bem?'. Achei que ela ia me dar um pé na bunda, sair correndo, mas isso não aconteceu", lembra. Ele e Malvada estão juntos há 27 anos e são bem conhecidos no meio BDSM.

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Zisco pratica BDSM com sua esposa e gosta de usar sua coleira em público Imagem: Larissa Zaidan/UOL

"A submissão é se colocar abaixo da autoridade de alguém. Você vai concordar com o que a pessoa falar, vai querer obedecer no jogo de livre e espontânea vontade. Para mim, é uma liberdade dizer que eu quero fazer isso. E acho tão bonitinho sair de casa usando a coleira", diz Zisco, que ostenta no pescoço uma grande peça de couro com o nome da mulher.