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Minha história


"Pais de suicidas, não sintam culpa", diz mãe de menino que se matou aos 15

Arquivo pessoal
Daniel e Isabela Mastral com o filho Mikhael Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

11/01/2019 04h00

Mikhael tinha 15 anos e cursava o nono ano quando tirou a própria vida, dias antes do último Natal. Os pais são Daniel e Isabela Mastral: ele é escritor e conferencista, 51 anos, e ela médica, 49. No início do ano, o adolescente que adorava estudar inglês e era chamado de Mik pelos pais, foi diagnosticado com depressão e síndrome de Borderline, quando há mudanças de humor, medo de ser abandonado e comportamentos impulsivos. Cerca de 10% dos pacientes cometem suicídio.

Em duas das ocasiões nas quais tentou o suicídio, foi salvo pela mãe. No último dia 22, ela não pôde estar perto. Isabela, que não conseguiu acompanhar o enterro de Mikhael devido à emoção, conta como tem vivido até aqui. Seu relato foi feito à Universa com a ajuda do marido, Daniel.

"É muito triste ver um filho abatido. Ele teve todo nosso amor, amparo, acolhimento, orações. Teve também suporte psiquiátrico de perto. Não levamos nenhum peso de culpa. Fizemos nosso melhor. Paramos nosso trabalho para nos dedicar em tempo integral a ele. Nunca negamos um abraço. Eu também tive depressão e Borderline. Demorou mais de dez anos para achar o tratamento certo. 

Mikhael era um jovem bom, respeitador, honesto, puro e, muitas vezes, ingênuo. Acreditava nas pessoas e no amor. Tratava todos como iguais. Passou a se sentir um peso para nós. Ele sabia que estávamos tomando antidepressivos também e achava que a vida dele estava nos matando. Dizia sempre que nos amava.

Antes da doença se manifestar, Mik saía mais, sorria, brincava, estudava, fazia planos. Aí ele mudou. Parecia ter girado uma chave. Caiu seu rendimento escolar, não saía mais do quarto, passou a ter uma perturbação com sua aparência. Estava com anorexia e bulimia. Tampava o seu espelho para não se ver. Sua autoestima estava baixa, e insistimos em estar com ele sempre. Mas era como ver uma luz apagando. Dia a dia. Não se alimentava, não tomava banho.

Ele se afastou das redes sociais e recebia poucas visitas. Achava que os amigos o abandonaram. Outros, para piorar, ofereceram a ele álcool e drogas para "anestesiar" a dor. E isso piora o quadro, como aconteceu.

Antes deste episódio, houve uma intoxicação e consegui mantê-lo vivo. Ele ficou internado em UTI por quatro dias, 16 horas em coma profundo. 

No dia 20 de dezembro, se feriu e conseguimos contornar novamente a situação. Consegui novamente evitar que algo pior acontecesse. No dia seguinte, o levamos a uma especialista em transtornos em adolescentes e saímos com a esperança de conseguirmos uma vaga no HC (Hospital das Clínicas de São Paulo) para tratamento. A médica considerou seu estado bom. Ele saiu feliz da consulta, enxergando melhores possibilidades. Nessa mesma sexta-feira, saiu para encontrar umas amigas. 

Sábado, dia 22, tentou novamente se matar e dessa vez não estávamos perto. Naquele mesmo dia, no fim da tarde, a vaga do HC estava à disposição, mas era tarde demais. 

Ele deixou seu diário. Lá, escreveu tudo o que estava sentindo, desde a primeira tentativa. Escreveu do fundo do poço. Vamos publicar o diário dele na data em que faria 16 anos, 15 de fevereiro. É um relato feito por alguém muito ferido. Nós também vamos apresentar nosso olhar nessa publicação, no site. Somos cristãos e Jesus nos ensina que não é fraqueza expor a dor.

Espero que ajude muitos a enxergar que depressão é uma doença e que essas pessoas recebam mais empatia. Elas precisam de amor. Esperamos também que preconceitos caiam. Não há como acrescentar mais dor e punição a quem está tão ferido.

Peço que escolas e amigos não os abandonem, não zombem, não julguem quem está nessa situação. Sejam pacientes, abracem, acolham, visitem. Isso os faz se sentirem importantes. 

Esgotamos todos os recursos. Fizemos nosso melhor. Infelizmente, enquanto acharem que depressão é "frescura" ou que é "demônio", os índices podem aumentar. Falar sobre o tema é a melhor maneira. Papais e mamães: não carreguem o fardo da culpa. Um dia, estaremos todos juntos.

Estamos vivendo o luto. Dói profundamente. Como se uma estaca entrasse em seu peito. Não 'briguem' com Deus. Nem esperem respostas rápidas. Tudo vem ao seu tempo. A dor será transformada em saudade e ela em boas lembranças".