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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


"Fiz de tudo. Não me sinto culpada": mãe fala do suicídio da filha, aos 14

Arquivo pessoal
A filha de patrícia, que se matou na última semana: ela amava girassol Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

26/10/2018 04h00

Os jovens vêm engrossando cada vez mais a lista de suicídio no mundo: tirar a própria vida já é a segunda causa de morte entre adolescentes, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). A filha da comerciante Patrícia Chaves, de apenas 14 anos, morreu no último sábado, 20, após a família tentar ajudá-la por dois anos contra a depressão. À Universa, a comerciante de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, contou sua luta: “A dor é insuportável”.

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A filha de Patrícia desenvolveu depressão ainda muito nova, e escolheu acabar com o sofrimento no último sábado, 20. Aqui, Patrícia relembra a história, sob pedidos para não revelar o nome da caçula.

“Minha filha faleceu aos 14 anos, mas já tinha tentado tirar a vida duas vezes. A primeira, aos 12. Numa noite, há dois anos, peguei seu telefone e vi que ela tinha combinado de matar aula com uma amiga. Fui na escola, verifiquei que ela faltou mesmo e briguei com ela. Perguntei: ‘Você acha que está certo o que você fez?’. Ela arregaçou as mangas do casaco, mostrou o braço todo cortado e respondeu: ‘E você, acha que é certo que eu faça isso comigo?’.

Foi nesse momento que eu entendi porque, até no calor, ela andava de casaco. Me desesperei. Também tenho depressão e fui atrás do psicólogo que me atendia. Marquei de levá-la, mas antes dessa primeira consulta ela tentou suicídio pela primeira vez. Fomos ver um psiquiatra em seguida.

Não faz sentido ficar perguntando os motivos, se ela teve algum gatilho. Eu tenho depressão profunda, tentei me matar duas vezes. Há alguns casos em nossa família.

É uma doença silenciosa. Por isso levei a sério desde o início, nos primeiros sinais, e a levei para tratamento psicológico e psiquiátrico.

Ela desenvolveu bipolaridade e tomava inúmeros remédios para se estabilizar. 

Os motivos para a tristeza dela eram variados: aos 12 anos, relatou que sofria bullying na escola, que não tinha muita aceitação. Ela era bissexual, mas a família a apoiava sempre. Nessa época, eu e o pai dela estávamos separados e ela era louca por ele, mas ele arrumou outra família, e a então mulher tinha filhos. Ela se sentiu rejeitada, ficaram sem se falar. Os pais se separam, mas eles não podem se afastar do filho de jeito algum.

Conversávamos com ela, procuramos preencher o seu tempo com idas ao teatro, shopping, aulas de natação, inglês e espanhol, além das consultas com a psiquiatra e a psicóloga. Ela também me ajudava na loja que tenho e ainda ganhou um shih tzu, porque adora cachorros.

Em maio último ela se mudou para o Rio para estudar o 8º ano no CAp da UERJ (Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde contava que foi muito bem recebida. Ela morava com minha filha mais velha, de 22 anos. Mas a questão é que ela não estava suportando viver e, há alguns meses, tentou suicídio pela segunda vez.

A irmã pediu para ela prometer não fazer aquilo de novo. ‘Não, não prometo’ foi a resposta.

Na terceira vez, ela conseguiu. E isso está doendo muito em nós. A página dela no Facebook era fechada para a família. Antes de fazer o que fez, postou o que estava planejando. Um amigo leu e alertou minha filha mais velha. Decidimos levá-la ao consultório no dia seguinte, até para ver se precisava interná-la, mas pouco depois das 9h, ligaram da delegacia informando que ela havia falecido.

Antes da fatalidade, ela deixou uma lista com métodos que poderia utilizar. 

Agora vou tentar ajudar outras pessoas. São muitos adolescentes nessa situação. No primeiro sinal de angústia, digo para procurarem os pais, a direção da escola, para pedir socorro. E as pessoas têm que levar a sério. Infelizmente, acham que o adolescente está querendo fazer drama. Na dúvida, leve a sério sempre. Eu ia na direção da escola, no conselho tutelar, falava sobre isso na reunião dos pais.

Foram dois anos vivendo assim. Fiz de tudo para ela estar bem. Não me sinto culpada, mas a dor é insuportável.

Está sendo tudo muito difícil nesse momento. Agora estou me apegando a Deus para confortar meu coração e tentando ajudar outras famílias. Agora, ao pensar nela, lembro-me de um girassol. Ela adorava a flor.”

Suicídio atinge idades cada vez mais tenras

A morte entre jovens foi tema de debate na última quarta-feira, 24, na Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo). Luana Fernandes, psicóloga e mestre em Saúde Pública da unidade, explica que a decisão de levar o tema para discussão são os números entre os mais jovens ainda. Eles estão chegando ao público infantil: “Estudos recentes dizem que o suicídio tem atingido idades mais tenras, a partir de 11 anos. Ainda estão sendo compilados dados nessa faixa etária, mas já sabemos que é a segunda maior causa de morte entre adolescentes”, explica. 

É preciso escutar seu filho

“Adolescência é uma fase de adaptação complicada, tem a questão do desenvolvimento, e é uma idade onde nossa estrutura emocional está frágil, tornando esse público mais propenso a desenvolver problemas psiquiátricos”, observa Luana.

No Mapa da Violência 2017 observamos que em 12 anos, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 - um aumento de quase 10%. Para evitar esse tipo de morte, orienta Luana, deve-se escutar mais os adolescentes. Ela lança olhar crítico sobre o comportamento comum de achar que a rebeldia é “algo típico da idade”.

“A melhor medida é a escuta, a observação. Tem que prestar atenção em qualquer mudança. O isolamento social é um grande aspecto que o adolescente apresenta, e aí deve-se perguntar se está tudo bem e orientar. A escola também deve promover palestras”, lista Luana.

Segundo o Ministério da Saúde, entre os fatores de risco para o suicídio estão transtornos mentais, como depressão, alcoolismo, esquizofrenia; questões sociodemográficas, como isolamento social; psicológicos, como perdas recentes; e condições clínicas incapacitantes, como lesões. 

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