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Mães e filhos

Adoção tardia: pais falam sobre os desafios e alegrias dessa escolha

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De acordo com Mattos, a preparação é fundamental para uma adoção de qualidade Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para Universa

06/12/2018 04h00

No site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Cadastro Nacional de Adoção indica que, das crianças aguardando uma família, 17,16% têm idade entre cinco e oito anos, mas só 2,97% de pretendentes aceitam receber filhos adotivos dessa faixa etária.

“O principal aspecto alegado pelos pretendentes para evitar a adoção tardia é o medo de que o adotado já ‘tenha uma personalidade formada’, o que traria dificuldades na educação, pois ele não aceitaria os padrões estabelecidos pelos pais adotivos”, explica a assistente social Luciana Lacerda, da Comissão Estadual Judiciária da Adoção (CEJA) do Poder Judiciário do Espírito Santo.

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Segundo o psicólogo Walter Mattos, que trabalha no Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo, os núcleos pré-adoção devem atuar para eliminar riscos e atenuar dificuldades das famílias. “Existe uma tendência de que haja maior dificuldade em crianças mais velhas para se ambientarem a um local novo, porém, isso não é uma regra”, alerta.

A administradora de empresas Ticiana Nunes Moscardini, 38 anos, adotou um filho que, na época, tinha oito anos, e conta que foi preciso cerca de 40 dias para a família estabelecer um vínculo e um convívio mais tranquilo. Ela acredita que essa dificuldade inicial faz parte e independe da idade. Na ocasião, a criança mudou de estado, de endereço e deixou para trás um grupo de pessoas com quem convivia e que eram, para ela, uma espécie de família. Portanto, Ticiana considerou como algo natural o fato de o filho ter ficado um pouco perdido.

“Ele estava bastante rebelde e, em uma dessas crises, conversei seriamente com ele: ‘Sou sua mãe, eu escolhi você para ser meu filho e vamos seguir juntos daqui para a frente’. Percebi que ele precisava ouvir isso para se sentir seguro”, afirma. A adoção completa dois anos este mês e o garoto já está completamente acostumado à nova realidade. Além disso, fala com naturalidade sobre o fato de ser adotado. “Hoje, ele sente orgulho em dizer que é meu filho”, diz a mãe.

Apesar de toda a situação difícil ter sido superada, Ticiana afirma que um período de adaptação, antes da convivência diária, teria tornado tudo mais fácil. Ela acabou tendo que pular essa etapa: “Fui conhecê-lo e já o trouxe para casa”.

De acordo com Mattos, a preparação é fundamental para uma adoção de qualidade. “O período de adaptação não tem um prazo exato, mas deve se iniciar com estágios de convivência. A criança passa alguns períodos na casa do adotante e retorna para o abrigo, até que ocorrem permanências mais extensas e a mudança ocorre de fato. Só depois desse processo é formalizada a adoção”, detalha.

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A securitária Denise Marques Maschio, 32 anos, uma das idealizadoras da OnG Elo e mãe de Felipe, 11 anos, e Vitor, 9 anos, adotados em 2014, afirma que crianças maiores tem seus desafios, mas superáveis. “A adaptação durou 15 dias e foi tensa, com muitas brigas, dores e medo por parte de todos”, diz. Ela afirma que a construção do relacionamento e o reforço do vínculo deve ocorrer diariamente. “Precisamos estar dispostos a aguardar o tempo de cada um, mas é muito gratificante ver os meninos se abrindo para o nosso carinho, e como se doam para que dê certo”, relata.

A importância das campanhas

A campanha "Esperando por Você", criada e desenvolvida pelo CEJA/ES, surgiu devido à necessidade de se realizar a busca por pretendentes para as adoções preteridas: grupos de irmãos, crianças maiores e adolescentes e crianças com necessidades especiais. “A campanha teve início em maio de 2017, possui 35 participantes e já encaminhou seis adolescentes para uma nova família. Cinco encontram-se em processo de aproximação com pretendentes”, diz Luciana.

Ela acrescenta que cada faixa etária tem suas particularidades em termos de desenvolvimento, comportamento e aprendizagem: “Há reais possibilidades de adoções tardias serem bem-sucedidas, principalmente se as famílias proporcionarem um ambiente adequado para o desenvolvimento do adotando, havendo uma aceitação real da criança ou adolescente pelos pais”.

Ela reforça a importância da preparação dos interessados por meio de grupos de apoio à adoção, leituras e cursos. Assim, eles poderão se preparar para as demandas próprias de cada faixa etária. “A vantagem da adoção tardia é que a criança ou adolescente será mais ativa no processo, de modo que também poderá adotar os pais, por vontade própria”, garante.

Ajustando o perfil escolhido

A escolha de uma criança mais velha deve ser objetiva e racional. “O desejo precisa ser desconstruído para coincidir com a realidade”, afirma Mattos. O casal formado por Edegar Preichardt Filho, 37 anos, técnico em informática, e Milena Ritter Ribeiro, 36 anos, enfermeira, entrou na fila de adoção em busca de uma criança de quatro anos. “Ao participar de grupos de apoio, muitos mitos foram caindo por terra. Em certo momento, nos demos conta de que um bebê não encaixaria em nossas rotinas. Uma criança maior consegue se expressar, dizer o que sente e, por isso, ampliamos para até nove anos, sem distinção de cor e sexo”, fala.

Há um ano, o casal tornou-se pai e mãe de Jaciane e Jaciele, gêmeas de 7 anos, e de Antony, de 8 anos. “Ainda não somos experientes, aprendemos sempre e sentimos um amor que cresce a cada dia”, afirma Milena. Ela diz que o apoio psicológico tem sido essencial para contribuir de forma positiva com a adaptação e o processo de desenvolvimento das crianças.

Já o comerciário Peterson Rodrigues dos Santos, 37 anos, teve contato com Lucas, hoje com 12 anos, por meio de apadrinhamento afetivo. “Minha intenção não era a adoção, mas o afeto me fez entrar com pedido pela adoção. Jamais imaginei ter filho por ser gay, solteiro e pobre. O filho por adoção vem com pendências, passado e uma história que deve ser respeitada. Precisamos ensiná-lo a aceitar o amor e o carinho de uma família”, diz. O psicólogo completa que a adoção tardia traz dificuldades e alegrias, como qualquer outra relação que exige convívio frequente: “A adoção é igual à maternidade ou à paternidade, apenas um pouco mais intensa”.