Mães e filhos

"Dei a minha filha para adoção, me arrependi e sonho em revê-la"

Arquivo pessoal
Risonete, hoje, aos 64 anos Imagem: Arquivo pessoal

Em depoimento para Marina Oliveira

Colaboração para Universa

30/04/2018 04h00

"Eu tinha 28 anos, morava na Vila Madalena e tinha vindo de Recife, Pernambuco. Já com um filho nos braços e outro na barriga, uma vizinha que se chamava Valdete, vendo meu sofrimento, desespero e medo em não poder sustentar e criar minha filha que estava prestes a nascer, tentou me ajudar.

Ela me apresentou uma família que vivia em Santo André (SP) e estava interessada em adotar uma criança. Era um casal sem filhos, que tinha uma condição financeira muito melhor que a minha e que poderia oferecer para ela uma condição de vida muito melhor do que eu. Se não me falha a memória, esse casal era comerciante, provavelmente donos de uma loja de tecidos, não tenho muita certeza.

Veja também

Ainda quando estava grávida, optei por entregar a minha filha. Me recordo que a mulher se chamava Vera. Fizemos tudo amigavelmente: houve um compromisso da parte dela em trazer a menina com frequência para que eu pudesse vê-la. Ela me deixou todos os seus contatos e endereço.

O pré-natal foi realizado no Centro de Saúde da Vila Madalena. Minha filha nasceu de parto normal no dia 21.03.1984 no Hospital Universitário – USP, no bairro Butantã, em São Paulo. Recebemos alta no dia 24.03.1984 e ela permaneceu comigo por algum tempo para amamentação.

O casal que a adotou se comprometeu em criá-la com muito amor e carinho, além de oferecer tudo do bom e do melhor para ela. Eles eram brancos. Minha filha nasceu parda. E eles disseram que ela saberia desde pequena de toda sua história, de que era adotada e qual havia sido o motivo que levou seus pais biológicos a tomarem essa decisão. Acredito que seu nome seja Priscila.

O casal estava cumprindo o combinado. Algumas semanas depois de levarem minha filha, eles retornaram e juntos a levamos para tomar vacinas. Eu permanecia muito assustada com aquela situação, sem entender direito o que a vida havia me obrigado a fazer.

Passaram-se alguns meses, chovia muito na Vila Madalena, meu marido estava trabalhando e eu estava em casa sozinha com meu filho Rodrigo, de quase 2 anos de idade. A chuva foi aumentando, o bairro inteiro foi tomado por uma enchente, minha casa ficou destruída e nada sobrou. Consegui subir até a laje com meu filho e logo depois os bombeiros conseguiram nos resgatar.

Quando meu marido chegou do trabalho, eu estava na rua com a roupa do corpo e meu filho nos braços, não tínhamos o que fazer e nem para onde ir. Passamos a morar de favor na casa de amigos.

Alguns dias depois da enchente, a prefeitura nos procurou e ofereceu auxílio-aluguel. Encontramos uma casa na cidade de Taboão da Serra – SP. Todo o bairro onde morávamos estava destruído e, no meio de tanta tragédia, nos aconteceu o pior: todos os dados e endereço do casal que adotou minha filha estavam na casa e tudo se perdeu no meio da enchente e dos destroços.

Tempos depois, voltamos ao nosso bairro em busca de alguma informação ou notícia do casal que adotou minha filha. Precisávamos revê-la, mas nada adiantou, pois tudo havia mudado, inclusive vizinhos e conhecidos. Ninguém tinha nenhuma informação que pudesse me ajudar, ninguém sabia de nada. O arrependimento tomava conta da minha vida e eu estava desesperada.

Essa atitude irresponsável e inconsequente me fez viver todos esses anos com a culpa e o arrependimento. Nunca perdi a fé, nunca perdi a esperança de reencontrar minha filha. Todos esses anos se passaram mas a minha vontade de reencontrá-la e poder abraçá-la permanece comigo. Hoje moro na cidade de Embu das Artes, permaneço casada, tenho 4 filhos e quero muito encontrar e abraçar minha filha, que atualmente tem 34 anos. Eu me chamo Risonete Alves da Silva e tenho 64."

Você também tem uma história para contar? Ela pode aparecer aqui na Universa. Mande seu depoimento, nome e telefone para minhahistoria@bol.com.br. Sua identidade só será revelada se você quiser.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está fechada

Não é possivel enviar comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

O UOL está testando novas regras para os comentários. O objetivo é estimular um debate saudável e de alto nível, estritamente relacionado ao conteúdo da página. Só serão aprovadas as mensagens que atenderem a este objetivo. Ao comentar você concorda com os termos de uso. O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba seu horóscopo diário da Universa. É grátis!

Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
DW
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
BBC
Da Universa
Da Universa
Da Universa
BBC
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
BBC
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
AzMina
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
DW
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
BBC
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Da Universa
ANSA
Da Universa
Da Universa
Da Universa
Topo