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"Fui acusada de erotizar minha filha", diz mãe de criança trans

Arquivo pessoal
Karina Doblado relata como descobriu que a filha era transgênero, as lutas que viveu e o processo de transição da criança Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração com Universa

20/04/2018 04h00

Miguel, que hoje se identifica como Melissa,12, deu os primeiros sinais de um comportamento feminino aos dois anos de idade. “Ele só tinha amigas meninas”, conta a psicóloga Karina Doblado, 38, que achava que o filho era gay. Mãe da Melissa e do Pedro, 2, ela relata como descobriu que a filha era transgênero, as lutas que viveu e o processo de transição da criança:

“A Melissa sempre foi um bebê meigo e delicado, mas somente aos dois anos de idade é que notei uns sinais mais evidentes. Na escola, ela era o único menino que se enturmava com as meninas. 

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Em casa, ela usava as minhas roupas e sapatos. Eu via esse jeito afeminado e tinha certeza que ela seria gay, não fazia ideia do que era um transgênero. Eu falava que ela ficava horrorosa com as minhas roupas e explicava que ela não precisava ser menina para gostar de menino. Eu dizia: ‘Você pode continuar sendo o Miguel e gostar de menino, a mamãe vai continuar te amando’. Nunca bati, nem a repreendi, sempre busquei o diálogo.

Meu marido, o Renato, e toda minha família, com exceção da minha irmã, a Andresa, me culpavam pelo comportamento da Mel. Eu ficava triste e me defendia dizendo que nunca a incentivei. Eu evitava me arrumar na frente dela para não influenciá-la, mas não adiantava. Ela adorava se maquiar, pintar as unhas e não queria que cortássemos o cabelo dela.

Me denunciaram alegando que eu erotizava a minha filha

Uma vez, uma assistente social me ligou dizendo que havia recebido uma denúncia anônima de que eu estava erotizando a minha filha e que eu deixava ela se vestir como uma drag queen. Foi uma das coisas mais absurdas que ouvi.

Outra situação bem chata é que nossos passeios em família sempre acabavam em briga porque o jeito de andar, falar e se portar da Mel era de menina e isso estressava meu marido. Ele falava para ela virar homem e parar de ser mariquinha. Chegou um ponto que nossa relação foi se desgastando tanto por causa disso, que em 2012 nos separamos por um ano. Foi uma fase bem difícil. Só reatamos depois que ele passou a compreender a Mel e conseguiu superar o preconceito contra ela com amor e respeito.

Eu me questionava por que aquilo estava acontecendo e por que ela simplesmente não poderia ser um menino. Lamentava o nosso sofrimento, mas tinha de apoiá-la. Num aniversário, a Mel me pediu uma festa de princesa e quando perguntei o que ela queria de presente, a resposta foi: queria ser uma menina. Aquilo me doeu o coração.

Não sabia o que era transgênero

A primeira vez que ouvi o termo transgênero foi numa conversa com o meu primo Lucio, que é homossexual. Ele disse que minha filha não se identificava com o próprio corpo e me explicou a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero.

Um tempo depois, assisti a uma reportagem na TV sobre o assunto e descobri que o Hospital das Clínicas de São Paulo tinha um ambulatório que atendia pessoas transgêneros. Fiz a inscrição e aguardei dois anos até conseguir o atendimento. Nesse período, a Mel iniciou a transição de gênero. Um dia fomos ao shopping e ela me pediu para chamá-la de Melissa e para comprar roupas de menina. Eu nunca tinha visto minha filha tão feliz na vida. Os olhos dela brilhavam.

No dia seguinte, eu estava na casa de uma amiga quando ela apareceu maquiada e com as peças novas. Daquele dia em diante ela não se vestiu mais como Miguel. Ela customizou todas as roupas masculinas. 

Passamos na primeira consulta no HC em agosto de 2016, quando ela tinha 10 anos. Ao ser questionada pelo doutor Alexandre Saadeh por que ela estava ali, ela respondeu que ela era uma menina que tinha nascido no corpo errado. Desde então, ela faz acompanhamento multidisciplinar com psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e endocrinologista.

Mel está fazendo tratamento para bloquear a puberdade masculina

Também fomos à escola para conversar com os professores. A Melissa contou aos colegas que ela era uma criança transgênero, que ela não se sentia bem como menino e que ela ficava chateada com o preconceito deles. Ela já havia sido vítima de bullying. Alguns colegas a chamavam de veadinho e a excluíam. Eles pediram desculpas e apoiaram a decisão dela.

Há um ano, minha filha iniciou o tratamento para bloquear a puberdade masculina. Ela toma uma injeção a cada 28 dias. Com isso, ela não vai desenvolver características de menino. Ela não vai ter gogó, a voz não vai engrossar, os pelos e o pênis não vão crescer. Ela fará o bloqueio até os 16 anos quando iniciará o tratamento hormonal para se desenvolver como menina. Quando ela completar 18 anos, vamos levá-la à Tailândia para ela fazer a cirurgia de mudança de sexo.

Minha filha me inspira

Após a transição, a Mel se tornou uma criança muito mais sociável, alegre e feliz. Eu e meu marido a amamos e a apoiamos. Minha filha me inspira. A determinação dela de ser o que ela é me ensina a ser corajosa, forte e a ver o ser humano além da aparência. Me faz enxergar a essência da pessoa e entender que somos muito mais do que um corpo”.

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