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Diversidade

Por que alguns LGBTI+ apoiam quem quer acabar com seus direitos?

Getty Images
Caitlyn Jenner em evento de Elton John, festa paralela ao Oscar de 2018 Imagem: Getty Images

Lucas Vasconcellos

Colaboração para Universa

04/12/2018 04h00

Mulher trans mais famosa do mundo, Caitlyn Jenner declarou recentemente que se arrependeu de ter apoiado Donald Trump. Caitlyn, que foi padrasto de Kim Kardashian e é pai de Kendall e Kylie Jenner, defendeu o atual presidente dos Estados Unidos quando ele ainda concorria à vaga. A decepção veio quando o governo dos EUA declarou, em 20 de outubro, estar estudando definir gênero como uma condição biológica e imutável. Ou seja, a pessoa seria tratada em todas as esferas de acordo com o órgão sexual que ela apresenta na hora do nascimento.

Em entrevista ao Washington Post, Jenner disse que aprendeu sobre os obstáculos da comunidade LGBTI+ e que, infelizmente, estava errada ao defender Trump.

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No Brasil, em meio ao turbilhão eleitoral, comentários homofóbicos do presidente eleito Jair Bolsonaro foram relembrados. “Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”, ele declarou à revista Playboy, em 2011. Mesmo com o teor preconceituoso de frases desse tipo, Bolsonaro recebeu apoio de gays, como do maquiador que se tornou digital influencer Augustin Fernandez, e do cantor de axé Netinho, que é bissexual.

É claro que ainda não dá para saber o que acontecerá no Brasil a partir de 2019, quando começa o mandato do presidente. E muito menos condenar quem é LGBTI+ por terem apoiado Trump ou Bolsonaro -- as democracias são livres. Embora pareça paradoxal para muita gente, a questão é bem menos complexa.

Nem toda pessoa trans entende a transfobia

De acordo com o  professor da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Mulher (NEPEM), Thiago Coacci, “a gente cai na armadilha de achar que algumas características de uma pessoa implicam no compartilhamento de certas ideias”. Em outras palavras, não significa que só porque Caitlyn é trans, que ela tenha sofrido transfobia e saiba o que é isso. Ou esperar que Augustin, que já ironizou a violência sofrida por homossexuais e negros em um vídeo em seu Facebook, entenda que dor é essa -- e leve a sério o sofrimento alheio.

“Espera-se muito das pessoas pela sua identidade. As características que unem um grupo podem facilitar a percepção de algumas experiências de exclusão, por que eles sentem isso na pele. Mas não quer dizer que o indivíduo vai necessariamente perceber isso e criar consciência política sobre essas experiências de exclusão", reforça Thiago.

E dentro desse cenário, justamente por não sentirem na pele a dor, a ideologia política se sobrepõe à outras questões. Afinal, o lugar de fala não é tão simples quanto é pintado por aí.

Djamila Ribeiro, no livro O que é lugar de fala (editora Letramento), trabalha essa questão. Embora esteja falando de racismo, a ideia vale para outros grupos tidos como minorias, caso da comunidade LGBTI+ e das mulheres, por exemplo: “O fato de uma pessoa ser negra não significa que ela saberá refletir crítica e filosoficamente sobre as consequências do racismo. Inclusive, ela até poderá dizer que nunca sentiu racismo (...). Mas o fato dessa pessoa dizer que não sentiu racismo, não faz com que, por conta de sua localização social, ela não tenha tido menos oportunidades e direitos”, ela afirma.