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Minha história

Deize Tigrona: "Hoje ganho a vida como gari, mas ainda componho músicas"

Acervo pessoal
Deize Tigrona com o marido, Rafel Imagem: Acervo pessoal

Débora Miranda

Colaboração para Universa

25/11/2018 04h00

Talvez você não reconheça o nome Deize Maria Gonçalves da Silva, mas de Deize Tigrona você com certeza já ouviu falar. Moradora da Cidade de Deus, comunidade do Rio de Janeiro, ela estourou no funk no início dos anos 2000, com o hit "Injeção". A rapper anglo-cingalesa M.I.A. sampleou a música e fez Deize estourar muito além das terras cariocas. Do mesmo projeto veio a relação com o produtor americano Diplo, apaixonado pelo funk carioca.

O sucesso de Deize, no entanto, foi tão estrondoso quanto breve. A funkeira interrompeu a carreira musical quando precisou cuidar do bebê recém-nascido da irmã, usuária de drogas, que ameaçava doá-lo. Entrou em depressão, cancelou turnês e sumiu da cena musical.

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Deize teve uma infância difícil e uma família desestruturada. Apanhava da mãe alcoólatra e chegou a fugir de casa várias vezes, o que a levou a passar temporadas vivendo na rua. Trabalhou como doméstica. E agora, depois da fama, aos 39 anos, sustenta a família (Rafael Alves de Pinho, 44 anos, e os três filhos de 10, 11 e 16 anos) com o emprego de gari. Mas revela que ainda compõe suas letras de duplo sentido e acredita que a vida artística nunca terá fim para ela. Veja sua história:

"Eu estava no auge do sucesso. Já tinha ido me apresentar na França, em Portugal, na Alemanha, na Dinamarca, na Inglaterra. Minha irmã estava grávida, e eu cismei de passar para ver como ela estava. Ela era usuária de drogas, morava na rua, e eu sabia que já estava perto de ela ter o neném. 

Os meninos da rua já me conheciam, porque eu andava sempre atrás dela, e me disseram que ela estava no hospital da Praça XV. Quando cheguei, ela já tinha tido o bebê e me disse que, se eu não ficasse com ele, ela ia dá-lo ou vendê-lo. Tomei aquela porrada, me abalou muito. Foi daí que eu parei tudo. 

Eu já tinha minhas duas filhas, uma de cinco anos e a outra de um. E aí veio o João, recém-nascido. Foi quando eu constatei a depressão. Precisei passar por aquele processo de me recuperar e também de cuidar dele. Vi que não estava bem, que tinha de parar tudo, interromper a minha carreira. Era inevitável.

Eu tinha datas marcadas para fazer show no Canadá. Ia voltar para a Europa para uma turnê imensa. Poderia ter ganhado um dinheiro que talvez me deixasse confortável até hoje. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia que precisava cuidar da minha família. 

Eu já não conseguia dormir, sentia meus braços gelados, minhas pernas geladas, não sabia o que estava acontecendo comigo. O episódio da minha irmã foi o gatilho, uma porrada que eu nunca pensei que fosse doer tanto. Eu não entendia por que ela não queria ficar com ele.

Procurei ajuda médica, fiz vários exames e foi diagnosticada a depressão. No começo eu não aceitei, dizia que pobre não tinha depressão. E fui tentando me acostumar. Não sabia o que era a depressão, realmente. Para a gente que mora em comunidade, seria uma loucura, uma pessoa maluca. Quando passaram os remédios, eu só dormia. Até que meu marido diminuiu a dose e eu conversei com Deus, perguntei o que estava acontecendo, o que eu tinha que fazer para melhorar. 

E caí na real de que eu tinha que voltar a dar atenção aos meus filhos, porque, durante esse processo todo de shows, eventos, entrevistas e viagens, eles foram crescendo e só falavam em saudade. 

Hoje em dia eu trabalho como gari, em fevereiro vai fazer cinco anos. Sustento a família com meu salário, e meu marido de vez em quando faz uns bicos. Sinto-me muito bem, estou trabalhando, estudando e, de vez em quando, ainda faço uns eventos. 

Arquivo pessoal
Deize, João Rafael, 11 anos, Jéssika, 11 e Joyce, 16, com o pai, Rafael Imagem: Arquivo pessoal

Eu só estudei até a quinta série, quando era criança. Depois que tive a depressão, decidi voltar e fiz até a oitava. Aí agora eu botei na cabeça que quero fazer faculdade e voltei para a escola para terminar o ensino médio. Pela minha história e o meu ponto de vista, eu acho que eu daria uma boa advogada, então eu vou fazer direito. Quero trabalhar com direitos trabalhistas, pois algumas companhias ainda são muito opressoras.

Gravações no Coroado

Quando comecei a escrever funk, eu ouvia muito MV Bill, que era nosso vizinho de porta na Cidade de Deus. Botei na cabeça que ia lançar um CD e comecei a compor, a fazer umas poesias.

Até que o DJ Duda, lá na quadra do Coroado, anunciou que ia gravar e produzir quem tivesse algo para cantar. O Coroado é uma escola de samba e lá acontecem os bailes funk. Eu tinha feito uma letra que falava sobre a Hilda Furacão, personagem daquela série que tinha passado na Globo, e desci lá para gravar com ele. Na época não tinha estúdio, não tinha nada. Em um mês ele produziu e botou para tocar. Aí a gente passou a gravar direto no Coroado.

O baile começou a encher demais. O Duda e um outro DJ queriam levar a gente para cantar em outras comunidades. Só que eu não ia, porque o funk para mim naquela época era duvidoso. Continuei trabalhando como empregada doméstica para ajudar minha mãe. 

Mas comecei a perceber que uma galera da Cidade de Deus começou a cantar a minha música fora. E foi se tornando sucesso. Não teve como evitar de eu ir para outras comunidades, de ir para as rádios comunitárias e de gravar. Estourei mesmo quando fiz "Injeção", que havia sido lançada originalmente em 2002, numa versão totalmente diferente e que tocou muito. 

Até que em 2005 a M.I.A. apareceu e sampleou a música. Aí se alastrou por todos os lugares. Quando ela veio para o Brasil cantar no Tim Festival, nos apresentamos juntas. Aí veio o Diplo, e também fizemos música juntos. Mas vou ser sincera: nessa época a gente não ganhava tanto dinheiro quanto hoje em dia no mundo do funk. 

Eu andava sempre com meu marido, não tinha empresário naquele tempo. A gente fazia as músicas, dava o telefone, o pessoal ligava. Quer dizer, não sei se eu tive uma má administração. O que eu sei é que tinha que ser desse jeito. Foi muito marcante, muito intenso. Muita gente diz que eu sou maluca de ter largado tudo. Mas hoje eu quero mais. 

Eu tenho sede de voltar para os palcos, mas já não sinto frustração pelo que passou. Se tivesse uma produtora para investir, eu gostaria muito de largar tudo e ir. Na verdade, eu acho que não tem fim o mundo artístico para mim. Eu componho e tento não fugir das minhas raízes, o duplo sentido para mim ainda é tudo. Na verdade é o que mantém o funk até hoje em dia. 

Infância difícil

Nasci no Rio, num hospital da zona sul, o Miguel Couto. Minha família morava no Macedo Sobrinho, mas tiraram as favelas todas de lá e nos mandaram para a Cidade de Deus. 

Minha mãe engravidou com 16 anos, e o padrasto dela não a aceitava. Naquela época mais antiga, os homens eram muito mais machistas do que hoje, era bem pior. Então, a minha avó decidiu ficar comigo e foi ela quem me criou. 

Minha mãe bebia muito e batia na gente. O meu pai só conheci aos 30 anos, quando estava me curando da depressão. Ele diz que sempre vinha me ver, mas que meu padrasto, minha mãe e minha avó não deixavam.

Minha mãe teve um bocado de filhos. Na verdade, eu sou a mais velha de nove irmão. Dez, porque um morreu bebezinho. Às vezes eu fugia de casa, ia para a casa da minha madrinha, e ela me levava de volta. O meu avô não queria que eu morasse lá, porque ele achava que eu tinha me perdido, que não era mais virgem. Então, ele me mandava para a minha mãe, ela me batia e eu fugia de novo. 

Dormia em laje, ficava dentro do ônibus dormindo de ponto final a ponto final. Roubava roupa do varal dos outros. Vendia picolé na praia. Quando eu fiz 12 anos, eu procurei trabalhar e não parei mais. Passei a ver a vida com outros olhos. Fui trabalhar como doméstica.

Hoje tenho uma família unida. Sou rígida com meus filhos, incentivo os três a estudar. Eles têm um futuro brilhante, porque a oportunidade que eu não tive eles têm. Para mim é importante ver meu filho com um diploma. Antes, nossos pais queriam nos ver com carteira assinada. 

Com meu marido estou há 24 anos. É um bom homem. Agora ele está desempregado, quem está trabalhando sou eu. Ele é muito bom com as crianças, se doa, conversa. Às vezes parece que são irmãos. Eu sei que não existe família assim que nem a minha. Nós somos muitos unidos."