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Minha história

"Minha filha morreu grávida de dois meses. Meus netos nasceram por milagre"

Samila Champoski/S7 fotografia
Ângela e os netos Imagem: Samila Champoski/S7 fotografia

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

30/10/2018 04h00

Frankielen Zampoli, 21, tinha uma filha de um ano e estava grávida de dois meses de gêmeos quando sofreu um AVC e teve morte cerebral. Para salvar a vida de Asaph e Anna Vitória, ela foi mantida viva com a ajuda de aparelhos e continuou gestando os bebês por mais quatro meses. Nesse depoimento, a mãe da jovem, Ângela Silva, de 50 anos, conta como foi perder a filha e a decisão de criar os três netos. 

"Na madrugada do dia 17 de outubro de 2016, por volta da meia-noite, eu perdi o sono e não conseguia dormir. Estava com um aperto no peito e meu pensamento estava na Frankielen. Sentia que algo não estava bem com ela. Ela estava grávida de nove semanas de gêmeos. Eu me ajoelhei e orei por ela. Três horas depois, o telefone tocou: era o Muriel, marido dela, me ligando para avisar que deixaria a Isis, minha netinha de um ano em casa, porque a Fran estava com muita dor de cabeça e eles iam ao hospital. 

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Quando eles chegaram, ela gemia de dor e desmaiou. Eu deixei a Isis com a minha filha mais nova, a Ana Gabrielle, e fui para o hospital com o meu marido. Chegando lá, foi constatado que ela teve um AVC. Ela fez uma cirurgia e ficou em observação por 72 horas. Após esse período, os médicos deram o diagnóstico de morte encefálica. 

Eu não acreditei que ela estava morta, me recusei a aceitar os pêsames da equipe médica. Eu sou evangélica, tinha fé de que Deus faria um milagre e restauraria a vida dela. Os médicos falaram que não podiam fazer mais nada por ela e que os bebês não iriam resistir. Em poucos dias, eles não teriam mais batimentos cardíacos. Naquele momento, fizemos uma corrente de oração entre familiares, amigos e os irmãos da igreja. 

Uma semana depois, o obstetra me chamou e disse que, para surpresa dele, os batimentos cardíacos dos bebês estavam cada dia mais fortes. Ele pediu autorização para tentar levar a gravidez adiante. Eu me enchi de esperança, achei que com o desenvolvimento deles dentro dela, isso poderia ajudá-la a melhorar.

Ao longo da gestação, a barriga dela cresceu e ela ficou muito bonita

Samila Champoski/S7 fotografia
Ana Gabrielle, Ângela, Isis e os gêmeos Imagem: Samila Champoski/S7 fotografia

A Frankielen foi mantida viva com a ajuda de aparelhos, medicamentos e alimentação por sonda por 123 dias, cerca de quatro meses. Ela ficou internada na UTI do Hospital do Rocio, em Campo Largo, Curitiba. Eu e o Muriel íamos vê-la todos os dias. 

Durante as visitas, eu conversava com ela como se ela estivesse me ouvindo. Eu pedia para ela acordar, dizia que a estávamos esperando e que eu estava cuidando da Isis, para ela ficar despreocupada. Eu lia a Bíblia para ela, orava e colocava louvores para ela escutar. 

Ao longo dos meses, a barriga dela foi crescendo. Eu passava a mão e sentia os gêmeos se mexendo. Uma vez por semana, ela fazia ecografia com musicoterapia. Era mágico vê-los se desenvolvendo tão bem. 

No decorrer da gestação, ela ganhou peso, ficou com a pele corada e tinha um semblante bem tranquilo. Ela ficou muito bonita, parecia que estava dormindo. Eu decorei o box da UTI com fotos da nossa família e comprei um sapatinho rosa e um azul. Deixava em cima da barriga dela. Era uma forma de criar um vínculo dela com os filhos. 

Uma mãe jamais deveria enterrar um filho

Na 27ª semana, o quadro da Fran se desestabilizou, ela teve febre, a pressão subiu e os bebês entraram em sofrimento. Os médicos fizeram uma cesárea de emergência, e o Asaph e Anna Vitória nascerem prematuros de seis meses no dia 20 de fevereiro de 2017. Eles me ligaram avisando do parto. Tive uma mistura de sentimentos. Por um lado, chorei e fiquei triste porque ela estava partindo. Por outro, me alegrei pela vida dos meus netos. Eles nasceram saudáveis e sem sequelas. 

Samila Champoski/S7 fotografia
Imagem: Samila Champoski/S7 fotografia

Após o parto, nós autorizamos a doação de órgãos da Frankielen. Foram captados o coração e os rins. Na despedida, eu falei para ela ir em paz, disse que eu ia criar os filhos dela e ia me esforçar para ser uma boa mãe. Pedi para ela olhar por nós de onde estivesse. Eu já perdi pai, irmã, avô, mas nada se compara ao sofrimento de dizer adeus a um filho. Uma mãe jamais deveria enterrar um filho. É a pior dor do mundo. 

Sinto a presença da minha filha através dos meus netos

Eu manifestei ao meu genro a vontade de ficar com as crianças. Eu acredito que seria a vontade da Frankielen. Ela confiava em mim. No início, o Muriel queria que elas morassem com ele, mas, depois, concordou que seria melhor elas ficarem comigo. Ele é um bom pai e bastante participativo na vida dos três. Hoj,e a Isis está com três anos e os gêmeos com um ano e oito meses. Ele visita os filhos com frequência, ajuda financeiramente e me acompanha nas consultas deles. Eles adoram o Muriel e o chamam de papai. 

Quando eu enterrei a Frankielen, minha vontade era de morrer junto com ela, mas eu pensei: quem vai honrar e cuidar da minha família? Ela precisa de mim. Olhar para os três me dá força para viver e seguir em frente. Eu sinto a presença dela através deles. É como se ela estivesse viva. Ameniza a minha dor. Asaph e Anna Vitória são um milagre. Peço a Deus que me dê saúde e muitos anos de vida para eu cumprir minha missão nessa terra: cuidar dos meus netos que se tornaram meus filhos".