menu
Topo

Diversidade

O verdadeiro kit gay: álcool leva héteros a ter experiências homossexuais?

iStock Images
Álcool pode diminuir inibições e pessoas ficam propensas a experimentar Imagem: iStock Images

Jacqueline Elise

Colaboração para Universa

04/11/2018 04h00

Quando tinha 22 anos, em 2015, o estudante Maurício* foi a uma balada LGBT paulistana com sua namorada e seus amigos. Ele e a parceira, que é bissexual, tinham combinado que poderiam ficar com outras pessoas na festa sem problemas, por diversão. Maurício se entendia como heterossexual, mas nunca tinha parado para pensar se também sentia atração por homens. O álcool entra, a coragem vem: na pista de dança, um garoto aborda Maurício e os dois se beijam. Foi a primeira vez que ele tinha ficado com alguém do mesmo gênero.

Veja também: 

A situação na qual Maurício se encontra é bem comum: algumas pessoas, quando consomem álcool, se sentem mais dispostas a experimentar coisas novas, ou até mesmo tomam coragem de fazer algo que não fariam se estivessem sóbrias. Aqui, a bebida surge como um mecanismo para diminuir a vergonha e ficar com alguém do mesmo gênero. Mas isso significa que estar alcoolizado “transforma a sexualidade” das pessoas?

“Normalmente, quando eu me disponho a isso, eu estou numa balada ou numa festa com amigos. Apesar de ter pego vários caras, nunca me senti excitado pegando um, e por isso mesmo questiono se sou bissexual ou não. Mas dar um nome específico para a minha sexualidade não é algo que me incomoda”, relata. Ele afirma que se relaciona com pessoas, independentemente do motivo e de quem sejam. Mas admite que o álcool ajuda a “flexibilizar” a situação quando o assunto é ficar com homens, em comparação ao seu comportamento com as mulheres.

Há uma explicação lógica para a forma que a bebida e outras substâncias atua no corpo humano. “A gente sabe que o álcool modifica o funcionamento de partes do sistema nervoso que têm uma ligação mais do que direta com os comportamento que a pessoa vai emitir: nas áreas que correspondem ao nosso prazer, ou o comportamento encarregado da inibição social, o álcool pode promover justamente essa transformação, que as pessoas vão se sentir desinibidas e fazer coisas que normalmente não fariam”, explica Paula Morillas de Holanda, psicóloga e fundadora da Clínica LGBT, de São Paulo, que fornece atendimento à comunidade.

Além do álcool, Holanda diz que o ambiente social no qual a pessoa vive pode facilitar as coisas. Maurício se sentiu à vontade de ficar com outro homem pois estava em um lugar no qual não haveria julgamentos, e com pessoas que não o tratariam mal por beijar alguém do mesmo gênero. “Só quem sabe que eu faço isso são colegas LGBT, justamente com quem eu normalmente vou em festas e baladas, então não é exatamente um problema. Tenho amigos que sei que se incomodariam em algum nível com isso e outros que eu só duvido da maturidade mesmo, então decidi me preservar no caso desses últimos”, diz o estudante.

“Normalmente, o ambiente pune ou reprime manifestações de comportamentos afetivos e sexuais entre pessoas do mesmo gênero, porque a gente vive em uma sociedade moldada na heterossexualidade”, pensa Holanda. “Estas regras sociais fazem com que as pessoas não se manifestem de certas formas. Aí o álcool pode amenizar as regras, em forma de desinibição - as pessoas ficam menos preocupadas, menos sensíveis às regras e vão conseguir se engajar em comportamentos mais orientados pela vontade, pela curiosidade e pelo desejo”.


Álcool é “coragem líquida”?


Ainda há, no imaginário popular, uma associação do álcool com a coragem: que beber dá o impulso que falta para realizar algo que sempre quis. “Esse é um pensamento muito comum, de que as pessoas expressam de uma maneira verdadeira seus desejos quando estão sob efeito do álcool. A coragem passa a existir mais, sim, mas é interessante pensar o que é este comportamento, de que há pessoas que, quando sóbrias, não ficam com pessoas do mesmo gênero, mas quando estão bêbadas, ficam”, reflete a psicóloga. Ela atribui isso à rigidez com que tratamos a própria sexualidade.

“É possível que homens e mulheres héteros, que ficam com pessoas do mesmo gênero quando estão alcoolizados, continuem se descrevendo como hétero? Sim, mas o que define a heterossexualidade então? Neste caso, não seria um caso de bissexualidade ou homossexualidade? Por isso digo que a sexualidade ainda é vista de forma muito rígida”, relata.

Além destas regras, Holanda cita que um dos motivos que podem levar a alguém usar a bebida como “coragem líquida” é uma auto-repressão. “Se a pessoa está inserida nessa lógica de que o ‘correto’ é ser heterossexual, é natural que ela ‘bloqueie’ qualquer variante disto. Mas e se estas pessoas estivessem em um ambiente social que não punisse este tipo de comportamento, a desinibição de experimentar não aconteceria naturalmente, sóbria? Não seria necessário diminuir a inibição com substâncias para ter coragem de expressar algum desejo”.

É errado ficar com alguém do mesmo gênero estando bêbado?


Não há nada de vergonhoso em sentir a vontade de ficar com pessoas do mesmo gênero quando bebemos. “Quantas vezes a gente descobre que só não gostava de algo porque nunca tinha experimentado?”, questiona a psicóloga. Ela, inclusive, vê que pode ser uma oportunidade de se questionar. “Se calhou da pessoa notar que também gostava de pessoas do mesmo sexo no momento em que ela estava bêbada, por que não? Que bom que ela teve uma chance de perceber isso”.

Ela afirma que o sentimento de culpa, ou de estar fazendo algo errado, é mais comum para homens, “por conta da masculinidade tóxica”, segundo ela, na qual qualquer comportamento que foge da imagem da heterossexualidade seria motivo de vergonha. E os homens realmente têm motivos para sofrerem mais neste contexto: de acordo com estudo feito com 83 pessoas heterossexuais nos Estados Unidos, divulgado pelo Journal of Social Psychology, em 2018, a atração por pessoas do mesmo gênero após consumo de bebida alcoólica aumentou mais no grupo de homens da pesquisa. Para as mulheres, apesar de haver também uma disposição maior de experimentar com outras mulheres, o interesse principal continuou sendo o sexo oposto.

Apesar de parecer uma situação engraçada, somente quem se engaja nesta prática de beber e experimentar sexualmente pode definir sua própria orientação sexual. “Se a desinibição que a pessoa sente quando consome álcool já existisse naturalmente num ambiente social livre de punições, as pessoas possivelmente se sentiriam mais à vontade de experimentar e viver seus desejos sem o uso de substâncias”, reflete.