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Diversidade

Após agressões e ameaças, minorias organizam redes de apoio pós Bolsonaro

LGBT symbol in the palm of the hand

Laura Reif

Colaboração para Universa

04/11/2018 04h00

A campanha de Jair Messias Bolsonaro rumo à presidência do país foi marcada por vários momentos: ausência em debates, duras críticas à esquerda e ao PT, bordões e um atentado à vida do então candidato. Mas outros episódios fizeram parte dessa trajetória, protagonizados por parte de seus eleitores. Ameaças às minorias e discursos de ódio ligados à promessa da vitória de Bolsonaro também foram características do período eleitoral.

Neste domingo (28), Jair Bolsonaro foi eleito com 55,1% dos votos. Menos de um dia depois, começaram a circular nas redes sociais todo tipo de orientações e contatos de coletivos e indivíduos oferecendo assistência para quem foi ameaçado, agredido ou poderá vir a ser nos próximos anos. Todo esse conteúdo direcionado a mulheres, à comunidade LGBT+ e à população negra.

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De vários relatos que circularam nas redes nos últimos meses, alguns se destacaram na mídia. Entre eles, a notícia sobre um jogo criado pelo BS Studios, intitulado “Bolsomito 2k18”, no qual um avatar do novo presidente agride feministas, negros, gays e militantes de esquerda.

Também no início do mês de outubro, logo após o primeiro turno, uma mulher foi ameaçada no metrô por um homem que a chamou de “lésbica imunda” e disse que a “raça” dela em breve iria acabar. Ele completou a fala com “Bolsonaro presidente”.

Recentemente, o vídeo de um estudante de direito de 25 anos fazendo apologia à morte de negros e militantes de esquerda viralizou. Ele veste uma camiseta com o rosto de Bolsonaro, diz que anda armado e afirma: “Essa negraiada vai morrer.” O rapaz acabou demitido da empresa onde trabalhava e afirmou que a frase foi infeliz. 

Ninguém solta a mão de ninguém

Uma arte está sendo usada por pessoas que se colocam como resistência a estes tipos de agressões, com uma rosa e a frase: “Ninguém solta a mão de ninguém”, simbolizando união de grupos vulneráveis. Com esse sentimento, coletivos começaram a se posicionar.

O advogado Halisson Paes é um dos fundadores do coletivo Piranhas Team, que ensina defesa pessoal para mulheres e LGBTs. Criado em 2016, o grupo do Rio de Janeiro conta com turmas de artes marciais. Paes contou à Universa que esta semana, após a vitória de Jair Bolsonaro, a busca pelas aulas aumentou muito. Só entre os dias 28 e 31 de outubro, a página ganhou mais de 3.000 seguidores e mais de 200 pessoas entraram em contato com o Piranhas relatando medo e buscando uma vaga nos cursos.

Além disso, um manual com dicas de segurança para minorias de autoria do grupo foi amplamente compartilhado essa semana. São dicas que já eram preocupação do coletivo, mas que, de acordo com Paes, se tornaram “pauta do dia” durante o período eleitoral. Lançado justamente com o intuito de reforçar a proteção a esse público, instruções como “ande acompanhado”, “saia de casa com o celular carregado”, “ao caminhar, prefira andar mais próximo ao meio da rua, evite os cantos e lugares mais escuros” decoram os folhetos virtuais.

Sintoma de histeria

Além do Piranhas Team, Paes também foi um dos organizadores do Reaja!, que foi alvo de uma campanha de fake news. Criado após o segundo turno das eleições, o grupo é uma rede de advogados que se oferecem para prestar apoio jurídico para LGBTs. Em pouco tempo, pipocaram postagens dizendo que o coletivo era falso. Diziam também que a rede buscava roubar dados de quem entrasse em contato, o que os organizadores negam.

Divulgação
Parte do manual divulgado pelo coletivo 'Piranhas' Imagem: Divulgação

Halisson contou que o número era do celular dele e que logo foi hackeado. Ele está investigando o caso e irá fazer um boletim de ocorrência de crime virtual. O boato foi muito divulgado pela própria comunidade LGBT que, com medo, replicou a notícia falsa. “Eu diria que é mais que medo. O que aconteceu com a proliferação de fake news em relação ao Reaja! é um sintoma de histeria”, lamenta Paes.

Para dar continuidade ao projeto, o grupo criou uma página no Facebook, que é a única forma de contato, no momento. Questionado se a preocupação com segurança é “histeria”, Paes citou o aumento de agressões motivadas por preconceito. “Se o problema da violência vai aumentar? Minha resposta é não ‘vai aumentar’. Já aumentou”, comenta. Ele diz que uma de suas amigas, que é travesti, quando compareceu à zona eleitoral para votar no segundo turno, levou uma cuspida na cara de um outro cidadão.

Agressão na eleição

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A travesti Angela Lopes também foi vítima de agressão no domingo (28). Em frente à casa dela, em São Carlos, município de São Paulo, Angela foi abordada por um desconhecido que a golpeou na cabeça, nuca e corpo com um martelo. “Fiquei tentando buscar na minha memória alguma relação com essa pessoa. Ele só dizia ‘Você vai morrer, viado filho da puta!’”

Ela mora em frente a uma escola que é zona eleitoral, que estava sendo preparada para as eleições. “Ele queria me matar, isso foi claro no discurso dele e na maneira como ele me agrediu”, contou à Universa. Ela levou 15 pontos, além dos hematomas.

“Vamos morrer pelo machismo, pela misoginia, pelo feminicídio, pelo transfeminicídio. Vamos ter que dar as mãos e nos unir como coletivos. Agora temos uma realidade política que defende que reclamar das agressões contra esses sujeitos são ‘mimimi’”, completa ela.

Outras frentes

Mais grupos se posicionaram para reforçar os cuidados contra a violência, como a Marcha Mundial das Mulheres. Em comunicado, o coletivo declarou: “Durante as eleições centenas de milhares fomos às ruas para dizer Ele Não! e participamos ativamente da campanha, olhando nos olhos e dialogando com a população em todos os cantos do país. Somos resistência contra o controle de nossos corpos e de nossas vidas. Somos muitas mãos que não se soltarão.”

Pequenos coletivos também começaram a se formar após os resultados do segundo turno das eleições. Em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, surgiu o grupo Advogados Ativistas do ABC, composto por ex-alunos da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo.

Um dos advogados fundadores, Gustavo Zardi, contou que o grupo é uma frente de defesa jurídica a favor de grupos vulneráveis na região do ABC. “Pretendemos, com a advocacia, lutar contra qualquer imposição autoritária e arbitrária”, explica. “De forma explícita, [Bolsonaro] ataca os direitos humanos e elogia torturadores, legitimando a violência por parte das instituições”.

Até quem não faz parte de grupos organizados está estendendo as mãos. O advogado e DJ Daniel Rodrigues, em São Paulo, também está oferecendo assistência jurídica para quem sofrer ameaças ou agressões, mas não possui meios para pagar pelo serviço. Em post no Facebook com mais de 9.000 compartilhamentos, ele escreveu: “Se alguém se sentir desrespeitado por ser negro, gay, trans, drag, nordestino, eu me coloco para prestar assistência jurídica gratuita”.

Desde que fez a publicação, em 29 de outubro, Rodrigues já foi buscado para atender casos de homofobia e racismo. “Foram pessoas que sofreram preconceito nos últimos dias, especialmente por conta das eleições. O mais comum é em escolas. É impressionante. Por exemplo: o filho de diretor que virou para uma menina negra e falou que os dias dela estavam contados, pois Bolsonaro foi eleito”, revela.

Para entrar em contato com os grupos citados na matéria:

Piranhas Team: facebook.com/PiranhasTeamFC

Reaja!: https://www.facebook.com/REAJALGBTI

Marcha Mundial das Mulheres: facebook.com/marchamundialdasmulheresbrasil

Avogados Ativistas do ABC: facebook.com/advogadosativistasdoabc

Daniel Rodrigues: daniel.rs@adv.oabsp.org.br