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Diversidade

"Somos alvo da limpeza de Bolsonaro": ameaçados, casais gays escondem afeto

Talyta Vespa

Da Universa

25/10/2018 17h39

Andar de mãos dadas, abraçar e beijar o parceiro do mesmo sexo eram atitudes normais para muitos casais LGBT, especialmente em São Paulo. Desde o início da campanha eleitoral, no entanto, muitos casais gays passaram a evitar demonstrações públicas de carinho. A mudança se deve em grande parte a relatos, nas redes sociais, de xingamentos e agressões contra eles.

A Universa conversou com dez casais e ouviu depoimentos de medo e, outros, de enfrentamento. Alguns relatam que foram agredidos sob gritos de "Jair Bolsonaro" e que, por isso, agora, fingem ser amigos quando estão na rua. Há, no entanto, parceiros que, mesmo com receio, se recusam a parar de demonstrar seu afeto e continuam namorando em público. 

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O crime de ameaça tem pena prevista de um a seis meses de prisão. Quando há uma ofensa -- ou, na linguagem jurídica, injúria -- soma-se um a seis meses de detenção. E, caso seja considerada qualificada, quando ataca uma condição específica da pessoa, como ser homossexual, a pena sobe para um a três anos, segundo a advogada criminalista Priscila Pamela.

Leia, abaixo, os depoimentos.

"Fingimos ser quem não somos o tempo todo"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Os olhares de reprovação e xingamentos fizeram com que o blogueiro Lucas, de 22 anos, e o namorado Filipe, de 21, deixassem de agir como um casal em lugares públicos. “A gente se abraçava, andava de mãos dadas, nos beijávamos. Vivíamos tranquilamente, mas começamos a evitar tudo isso", conta.

"Ouvimos frequentes notícias de pessoas sendo agredidas nas ruas por posições políticas e estamos apavorados. Somos o alvo da limpeza que Jair Bolsonaro quer fazer no Brasil, se ganhar. A gente decidiu passar a agir como amigos quando, na rua de casa, passou um carro com cinco homens gritando em nossa direção: “O que é de vocês está guardado, o Bolsonaro não gosta de ‘viado'.”

“Tá faltando homem? Aqui tem um bem macho"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

O casal Gabriela, de 20 anos, e Ingrid, de 24, está junto há três anos e não pretende mudar o comportamento. “A única coisa que a gente faz é avaliar melhor o ambiente do lugar aonde pretendemos ir. Se não pudermos agir como casal, não vamos. Na rua, continuamos brincando, beijando, abraçando, andando de mãos dadas. Não é justo que nos escondamos quando tantas pessoas lutaram para que isso fosse possível", diz Gabriela.

"Certa vez, ouvimos de um cara: “Tá faltando homem? Aqui tem um bem macho". Também já vimos pessoas orando no metrô contra nossa presença. Dá medo, tira o sono, tira a fome. Mas não vejo sentido em quem entende nosso amor como uma afronta. Precisamos ser vistos para que corramos um risco menor de isso voltar a acontecer no futuro.”

"Só trocamos carícias em ambientes LGBT"

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal Imagem: Arquivo Pessoal

“Estamos juntas há dois anos e seis meses. A gente costumava se acariciar no rosto, no cabelo. Nunca tivemos o costume de beijar em público. Agora, só trocamos carinhos se estivermos em um ambiente LGBT", conta a professora Paula, de 22 anos, que namora Evelin, de 24. "Na noite de domingo (21), estávamos na Avenida Paulista, andando de mãos dadas, quando passou um grupo de homens com a camiseta do candidato Jair Bolsonaro – aconteceu, por lá, uma manifestação a favor dele naquele dia – e um deles gritou: ‘Bolsonaro vai resolver isso daí’. Todos riram, menos nós. Por medo, tiramos o adesivo do Haddad do carro".

“Selinho na porta de casa, chamar a namorada de amor’. Qual o problema?”

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Juntas há sete anos, Sheila Parreiras, de 31 anos, e Taya Cristo, de 28, decidiram desde o começo do período eleitoral que não mudariam o comportamento em lugares públicos. “Fazer isso seria concordar com quem diz que nos comportamos de maneira inapropriada. A gente faz coisas que casais fazem, ué. Dar um selinho de despedida na porta de casa, chamar uma à outra de amor. Qual o problema?", indaga Sheila.

"Sentimos que a reação das pessoas mudou, ficou mais intolerante. Agora, somos mais encaradas, muitos saem de perto da gente, fazem cara feia. Não percebíamos essa repulsa descarada antes. As pessoas se sentem livres para expressar o que acreditam com naturalidade. Ouvi de uma prima, que até então gostava da gente, que Bolsonaro precisa ser eleito para que o irmão dela não aprenda na escola que ser gay é normal. É duro".

"Bolsonaro vai matar viado"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

A relações públicas Carolina, de 34 anos, conta que nunca teve medo de trocar carícias com outras mulheres na rua. Com a atual namorada, Camila, de 23, está sendo diferente. “Nos beijávamos e abraçávamos, sempre que dava vontade. Hoje, andamos como duas colegas. É triste, sinto que estamos deixando eles ganharem, que estamos nos abatendo. Mas há uma onda de intolerância acontecendo e estamos morrendo de medo. Eu estava passando em frente a uma escola na semana passada e um grupo de alunos começou a gritar: ‘Bolsonaro vai matar viado’. Abaixei a cabeça e segui reto, rezando para que não me vissem”, conta.

“Temos medo, mas permanecemos livres”

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Risadas e expressões de raiva marcam os passeios de Paloma, de 26 anos, e Beatriz, de 21. O casal diz ter medo de ser vítima de agressões por ser homossexual, mas não pretende fingir.

“A gente demonstra afeto, troca carícias e beijos na rua, em festas e eventos. Morro de medo de que conservadores voltem a achar que têm direito de interferir na nossa vida, mas permanecemos livres. Estávamos jantando em um restaurante dia desses e um casal nos encarou enquanto comentava sobre a gente com a mesa ao lado. Ficamos lá até o fim. Nossa família nos ama, nossos amigos nos apoiam, por isso vamos resistir para não perder a liberdade que demoramos tanto para conquistar”.

"Saímos do Brasil por medo da intolerância"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

A dupla cidadania do analista de vendas Cristian Lekitsch, de 39 anos, foi essencial para que ele e o marido, Victor, saíssem do Brasil com tranquilidade. "Nos mudamos para a Alemanha no fim do ano passado por causa da onda conservadora que começou a tomar conta do país. Eu imaginava que as coisas piorariam, então decidimos nos mudar mesmo sem ter casa nem emprego. Deixamos nossas famílias e amigos por medo", explica.

"Consegui um trabalho em três semanas. Nós tivemos todo o apoio do governo, que colocou a gente em um curso de alemão e ajudou o Victor a tirar a cidadania. Aqui, ser LGBT é normal. Todos andam na rua, se beijam e abraçam como qualquer casal. Me sinto livre”.

“Continuaremos abraçadas”

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Cecília, de 30 anos, e a namorada Priscila, de 23, decidiram resistir às ameaças sofridas. “Sempre andamos de mãos dadas, abraçadas, e continuaremos agindo assim. Já fomos encaradas diversas vezes, conhecemos vítimas de agressões, mas acreditamos que temos os mesmos direitos de um casal heterossexual, por isso não vamos aceitar que os agressores nos vençam. Cara feia e xingamento não vão nos intimidar”, afirma Cecília.

"Malhamos juntos e fingimos ser dois desconhecidos"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

“Nós malhamos na mesma academia e, antes desse discurso de ódio ser naturalizado, agíamos como um casal comum. Hoje, fingimos que não nos conhecemos", conta Wildson, de 29 anos, que está noivo de Davi, de 27.

"É horrível. Faço mestrado e parei de ir à universidade com aliança por medo de que vissem o nome dele escrito no anel e me reprimissem. Tirei todos os broches da minha mochila – a maioria com bandeiras de arco-íris e do movimento trans. Criamos um código: quando estamos na rua e nos sentimos ameaçados, passamos o dedo na sobrancelha esquerda e isso quer dizer 'eu te amo'. É difícil ter que se adaptar ao ódio".

“Sou PM e, agora, ando armada em dias de folga”

Jéssica*, de 35 anos, preferiu não se identificar por ser policial militar. Apesar de ser obrigação de um agente de segurança andar armado, a jovem afirma que, mesmo em dias de folga, saía de casa sem o armamento.

“Eu e minha namorada temos um comportamento bastante afetivo nas ruas. Nos beijamos como todo casal. Mas, tenho percebido uma animosidade nos olhares de alguns meses para cá. Sei que viveremos tempos difíceis, por isso, vou comprar uma arma menor, de uso velado, para portar no dia a dia. Xingamentos e olhares nos afetam, ela tem transtorno de ansiedade e fica nervosa sempre que acontece. Eu sou contra o armamento, mesmo sendo militar. Mas, hoje, me sinto incapaz de evitar andar armada. Tenho muito medo”.

O que faço se for ameaçado?

Segundo a advogada criminalista Priscila Pamela, da Rede Feminista de Juristas, a orientação é de que, no momento da ameaça, a vítima peça ajuda a pessoas ao redor, para manter o agressor por perto, e ligue para o telefone de emergência da polícia do seu Estado (como 190, em São Paulo) afirmando que está sendo ameaçado. O encaminhamento será dado em uma delegacia."É difícil, mas é a ação mais efetiva. Nessa situação, é possível acusar alguém diretamente pelo crime."

O crime de ameaça tem pena prevista de um a seis meses de prisão. Quando há uma ofensa -- ou, na linguagem jurídica, injúria -- soma-se um a seis meses de detenção. E, caso seja considerada qualificada, quando ataca uma condição específica da pessoa, como ser homossexual, a pena sobe para um a três anos, segundo a advogada.