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Minha história

"Adotei uma menina com HIV depois que ela foi rejeitada por outra família"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Beatriz Santos

Colaboração para Universa

13/10/2018 04h00

Michelle Martins Romualdo, 31, adotou Laura, 7, ainda bebê, ao saber que ela acabara de ser rejeitada em um processo de adoção. É que os adotantes descobriram que a pequena tinha HIV. Com a certeza que não queriam deixar aquela criança morando em um abrigo, Michelle e o marido entraram com o pedido de adoção de sua primeira filha. Confira o depoimento a seguir.

"Venho de uma família grande, somos em três irmãos biológicos e sete adotivos. A adoção sempre esteve enraizada em mim. Mas a adoção da Laura, especificamente, não foi planejada. Pelo menos não no momento em que aconteceu.

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Em agosto de 2011, eu estava grávida de gêmeas. A minha primeira gravidez depois de um ano de casada. Estava realizada. Só que com cinco meses eu perdi. Foi muito triste! Uma dor que doía o tempo todo e mais ainda quando eu olhava para o quarto delas vazio. 

Dois meses se passaram e eu voltei à minha rotina, embora ainda estivesse de luto. Estava numa visita à casa da minha mãe quando soube da Laura. Minha tia chegou dizendo que no abrigo onde ela era voluntária havia uma menina de três meses que tinha acabado de ser rejeitada por um casal. Eles desistiram da adoção após descobrirem que ela foi exposta ao vírus HIV. A mãe biológica era usuária de drogas e tinha transmitido o vírus para ela por meio da amamentação. 

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Laura acabava de entrar na lista de crianças 'inadotáveis', porque poucas pessoas estão dispostas a adotar uma criança com o perfil dela. Eu não estava na fila de adoção. Nem pensava em adotar naquele momento. Um dia antes, inclusive, eu tinha chorado muito ao desembalar as roupinhas das minhas filhas que guardei após a perda. Mas quando ouvi a história dela parece que eu já me tornei mãe daquele bebê. 

A adoção

Eu não queria saber como ela era ou como ela estava, só não queria que ela passasse a vida em um abrigo. Liguei para o meu marido na mesma hora e contei tudo. Ele disse que eu estava doida e que ele não estava preparado para lidar com outra perda, caso não desse certo o processo. Eu insisti muito que, ao menos, fôssemos visitá-la. Ele aceitou. 

No mesmo dia fomos vê-la e foi amor à primeira vista. Ela era tão pequenininha, chorava tanto. Ali eu descobri que ela já era minha. Meu marido não quis segurar ela, tinha medo de se apegar e sofrer depois. Isso foi numa sexta-feira. 

No sábado, eu fui na casa da assistente social do abrigo. Ela me explicou a situação da bebê e pediu que segunda-feira fôssemos ao fórum da cidade conversar com a promotora da Vara da Infância. Foi o final de semana mais longo da minha vida. 

Só que na segunda, antes de ir ao fórum, me ligaram do abrigo dizendo que ela estava indo para o hospital, porque estava muito mal, com muita febre. Saí correndo de casa. Ela estava com infecção urinária e a carga viral [a quantidade de vírus no sangue] muito alta. 

Chegamos no hospital e já éramos uma família. Eu me apresentei como mãe dela e fiquei lá durante os sete dias em que ela estava internada. Enquanto ela era tratada, eu dava os passos para a adoção. 

Fui ao fórum e a promotora me passou a guarda dela imediatamente, pois seria um risco ela ficar no abrigo em contato com outras crianças, por estar com imunidade baixa. Ela saiu do hospital e veio direto para a minha casa. 

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A adaptação

Já tínhamos tudo para ela: quarto, berço e roupas. Parece que era para ser mesmo. Ela chegou em casa e já começou a ser acompanhada por uma infectologista. Também passou a tomar o coquetel antirretroviral. 

Hoje ela tem uma saúde de ferro, é a que menos fica doente em casa. Faz acompanhamento com infectologista a cada três meses e exames a cada seis meses. A carga viral dela se estabilizou e hoje está não detectável, mas toma as medicações diariamente. 

Somente a família próxima soube que ela tinha HIV e eu nunca permiti que a tratassem como coitadinha. Também não tolero preconceito, mesmo que velado. Uma vez, a escola me ligou dizendo que ela estava passando mal. 

Como a nossa cidade é muito quente, às vezes, o nariz dela sangra. Foi o que aconteceu. Mas eu cheguei lá e encontrei a minha filha toda ensanguentada. Quer dizer, eles não quiseram limpar ela e deixaram que eu chegasse para resolver. Fiquei muito chateada. Aquele dia eu chorei muito. Falei para a coordenação que eles não tinham preparação para serem uma escola e mudei ela de colégio. 

Desde então, eu a preparo para lidar com situações como essa. Ensino como ela deve agir para que nunca a diminuam. Laura tem uma vida totalmente normal: estuda (está no primeiro ano do ensino fundamental), faz balé e taekwondo. É uma garota muito inteligente. 

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Depois que ela chegou tive mais três filhos: Pietro, 4 anos, Hugo, 2 anos e Murilo, 8 meses. Somos em seis agora. A adoção foi um divisor de águas na minha vida. Ela me ensinou a sorrir novamente, a acreditar na vida. Cada vez que eu passo por algo difícil, lembro do quanto ela é forte todos os dias. Laura me ensinou a ser mãe e nos fez família."

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