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Minha história

"Minha melhor amiga morreu e eu adotei os filhos dela"

Arquivo pessoal
Joelma Cristina com Yuri e Vitória Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

Da Universa

28/09/2018 04h00

A publicitária Joelma Cristina Rocha, 44 anos, de São Paulo, foi amiga de Terezinha por 14 anos. Quando se conheceram, Terezinha ainda sonhava em ser mãe de um casal. E Joelma comemorou quando a amiga conseguiu adotar um menino e uma menina, em março de 2004: Vitória, recém-nascida, e Yuri, de 1 ano.

Ela viu os dois crescerem e ajudou a mãe a cuidar dos filhos após a morte do marido de Terezinha, Alípio, quatro meses depois da adoção. Sete anos se passaram quando Terezinha morreu  subitamente, vítima de um infarto. Nesse momento, Joelma estava decidida a adotar os filhos do casal de amigos. “Mas deu medo. Na primeira noite, coloquei a cabeça no travesseiro e pensei: ‘Meu Deus, e agora, como vai ser?’”.

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Joelma, que já foi publicitária e hoje é motorista de Uber, conta aqui a dor de perder dois amigos queridos, o desafio de adotar e cuidar de duas crianças sozinha  - "Não queria casar nem ter filhos e, de uma noite para a outra, virei mãe" - e o susto ao descobrir que o mais velho, Yuri, é autista. Leia, abaixo, o relato dela:

"Conheci a Terezinha e o Alípio em uma agência de publicidade, por volta do começo dos anos 2000. Eles mesmos se tornaram donos de uma e me chamaram para trabalhar lá. Estabelecemos uma relação de amizade muito forte, de família mesmo. Quando eles morreram e os filhos deles ficaram órfãos, era óbvio para mim que as crianças, que eram adotados, não poderiam voltar para um orfanato. Por isso decidi criar os dois como se fossem meus filhos.

O sonho da Terezinha sempre foi ser mãe. Conseguiu adotar a Vitória, em março de 2004. A mãe da criança a rejeitou, e uma conhecida em comum avisou a Terezinha. Ela adotou a menina, que nasceu com um problema de desnutrição e ficou três meses internada. No primeiro dia, até dormi com minha amiga no hospital.

Mas Terezinha continuava na fila de adoção e, ainda enquanto a menina estava se recuperando, recebemos uma ligação, um dia à noite, de um funcionário do Fórum de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Havia um menino, de 1 anos e três meses, que ela poderia adotar. Ela estava estava realizada. Sempre sonhou em ser mãe de um casal de filhos.

Lembro bem do dia em que o Yuri foi adotado. Nosso escritório ficava ao lado da rua 25 de Março, no centro de São Paulo, uma região famosa de comércio popular. A Terezinha me ligou e pediu para eu correr em alguma loja e comprar o enxoval, porque um menino estava chegando em casa. Fizemos um churrasco para comemorar. Foi uma festa!

O Alípio morreu em julho de 2004, quatro meses depois da adoção das duas crianças. Ele sofreu um acidente de carro fatal. Ficamos muito abaladas. Por outro lado, nossa amizade se fortaleceu. Passei a ajudar a Terezinha com as crianças, levava em médico, ficava com elas quando precisasse. Ela até começou a namorar de novo.

Com o tempo, percebemos que, enquanto a Vitória foi se desenvolvendo e começou a falar e andar, o Yuri demorava mais. Tinha algo que estranhávamos . Ele chorava, batia a cabeça. Mas na época não havia nenhum diagnóstico. Terezinha dizia que o filho não tinha nenhum problema. E a vida seguiu: os três eram bem apegados. E eu estava sempre por perto.

Por isso, posso dizer que os primeiros dias após a morte da mãe foram os piores das nossas vidas. Eles choravam muito, sentiam a falta dela. Ao mesmo tempo, faltava a minha amiga, minha irmã. Fazíamos tudo juntos, viajávamos muito. Saber que nunca mais viveria aqueles momentos com ela me doeu demais.

A morte da Terezinha foi abrupta. Estávamos em uma festa no centro espírita que frequentávamos. Era 2011, Vitória tinha 6 anos, e o Yuri, 7. Ela começou a dizer que estava se sentindo mal. De uma hora para a outra. Colocou a mão no peito e caiu no chão. Foi um desespero.

Corremos para o hospital. No carro, ela abriu os olhos, mas não conseguia falar. Foi segurando na minha mão e, chegando perto, soltou, e a cabeça caiu para o lado. Me desesperei e, assim que estacionamos, corri para a emergência. Ela foi para o quarto e, minutos depois, a médica apareceu dizendo que ela faleceu. Não acreditei. “Você deve estar falando de outra pessoa”, disse. Terezinha sofreu um infarto fulminante e não foi possível reanimá-la.

Mil coisas se passaram pela minha cabeça sobre as crianças. Como contar para eles o que tinha acontecido? Disse que a mãe tinha passado mal e que foi encontrar o pai deles no céu. A Vitória chorou. O Yuri pareceu não entender e, quando terminei de falar, logo foi brincar.

Deixei eles em casa e fui ao velório sozinha. Encontrei com a irmã dela, que me disse que não tinha condições de cuidar da Vitória e do Yuri. “Você vê o que faz com eles”, me disse. No dia seguinte, entrei em contato com uma advogada e pedi a guarda. Eu já tinha o convívio com eles. Com uma morte tão repentina, o juiz entendeu que seria pior mandá-los a um orfanato. A irmã e o irmão da Terezinha passaram os direitos das crianças para mim.

Na primeira noite depois da morte da minha amiga, deitei na cama e fiquei me perguntando: “E agora, como vai ser?”. Coloquei na cabeça que ia cuidar deles e segui em frente. Sabia que não seria fácil criá-las sozinha. Mas não via outra alternativa.

Levei os dois a um psicólogo para que nos ajudasse a passar essa fase. Foi muito difícil. Tinha dias que a Vitória ia para a escola e me ligavam de lá dizendo que ela estava chorando sem parar. Quanto ao Yuri, continuava com aquela impressão de que havia algo a ser investigado. Procurei uma APAE e, lá, me disseram que ele tinha uma deficiência intelectual, com transtornos psicológicos. No ano passado, em um dia à noite, ele teve uma convulsão. Vitória e eu ficamos desesperadas. Foi quando decidi levá-lo em uma psiquiatra e tivemos o diagnóstico real.

Yuri é autista e tem transtornos psicóticos. Ouvi da médica que se encaminhava para uma esquizofrenia e começamos um tratamentos com remédios. Ele vive no mundo dele, cria histórias. Tem três amigos imaginários dos quais sempre fala: Juninho, Natan e Naiara.

Não vou falar que é fácil. A ausência da Terezinha dói em nós todos. E o transtorno do Yuri, também, é muito complicado de lidar. Ele tem crises, é difícil convencê-lo a ir para a escola. Já chorei muito. Batalho sozinha para criá-los. Adotar os dois foi uma reviravolta na minha vida: não tinha nem intenção de casar, quem dirá ter filhos. De uma noite para a outra, me vi mãe. Hoje, eles são minha família."