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Violência contra a mulher

"Perdi R$ 120 mil, não tive filho e sou motivo de chacota na Globo"

Arquivo Pessoal
Cristina Silva, uma das ex-pacientes de Roger Abdelmassih Imagem: Arquivo Pessoal

Amanda Serra

Da Universa

01/10/2018 04h00

Acompanhar a minissérie “Assédio”, lançada no Globoplay na última sexta-feira (21), não foi uma tarefa fácil para a empresária Cristina Silva, de São Caetano, na Grande São Paulo. Ela é uma das ex-pacientes do ex-médico Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana. Entre 1997-98, Cristina diz ter investido US30 mil para ter um filho, mas não obteve sucesso mesmo após três tentativas.

A trama de Maria Camargo, dirigida por Amora Mautner, é inspirada no livro "A clínica: A farsa e os crimes de Roger Abdelmassih" (editora Record), de Vicente Vilardaga. Ambos falam sobre as mulheres que foram assediadas e estupradas por Abdelmassih durante os procedimentos de inseminação artificial. Após anos de silêncio, elas se uniram em busca de Justiça e conseguiram que ele fosse preso e condenado.

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“Assisti de sexta a domingo os 10 episódios e veio tudo à tona novamente. Fiquei muito mal no fim de semana. Nem saí de casa, fiquei o dia inteiro na cama. Fui invadida por um baixo-astral”, conta ela, que não viu com bons olhos a obra da Globo.

Acho que essa exposição na TV é um motivo de chacota para nós. Ele deve estar rindo da nossa cara, assim como bem retratou o Antonio Caloni (ator que interpreta o personagem Roger Sadala), quando sai rindo. Ele está morando em condomínio de luxo e usando nosso dinheiro. Tenho a sensação de ter nadado e morrido na areia [fazendo alusão ao fato do médico cumprir prisão domiciliar]. Uma tragédia que virou sensacionalismo... servimos de inspiração. Bom seria se tivéssemos vencido", reclama Cristina.

Outro aspecto que não foi abordado na minissérie e incomodou a empresária foi o fato de não exporem o comércio que o ex-médico movia em sua clínica. “Ele obrigava a gente a comprar a medicação lá, além de realizar todos os exames e cobrar o quanto bem entendia”, reclama.

Durante 10 anos, Cristina conta ter passado por diversas entrevistas no Conselho Regional de Medicina e não ter visto resultado. “Quando a personagem da Bárbara Paz chega e diz para juíza que é a palavra dela contra a do médico, me vi retratada ali. Foi justamente essa a minha frase.”

A união faz a força

Ele manipulava a gente sentimentalmente e financeiramente. Ele dizia: ‘Você só fez três tentativas, tem gente que faz até 10. Queria que eu vendesse meu apartamento. Falava: ‘Você prefere olhar o mar da janela do seu apartamento ou ter uma criança correndo na sala de casa?’ Induzia a ficar na clínica fazendo mil tentativas para conseguir mais dinheiro”, relembra ela, que era proibida de ter contato com outras pacientes na sala de espera por recomendação do ex-médico.

Ele dizia para não conversarmos e mesmo assim a gente não se tocava [fala inconformada]. Dizia: ‘Cada uma tem um problema aqui, não adianta vocês ficarem conversando porque uma vai ter inveja da outra. Você vai engravidar, já a outra precisará de óvulos, de sêmen doado...’ Diariamente a gente ia lá, se via e ficava uma imaginando a história da outra só pela cara, sem saber ao certo o que acontecia. ”

O casamento de Cristina também chegou ao fim, mas ela não atribui a culpa do término somente ao tratamento que realizou na clínica de Abdelmassih. “Me separei logo em seguida por outras questões também, desgaste... no fim envolve tudo", diz.

Nada de chacota, mas sim, força para que a luta continue

Ramón Vasconcelos/Divulgação TV Globo
Stela (Adriana Esteves), Vera (Fernanda D'Umbra), Eugênia (Paula Possani), Daiane (Jéssica Ellen) e Maria José (Hermila Guedes) em cena de "Assédio" Imagem: Ramón Vasconcelos/Divulgação TV Globo

Responsável por colocar toda essa história no papel e dentro do universo da ficção, a autora Maria Camargo ressalta que desde o início sua maior preocupação foi justamente com as vítimas e a forma que retrataria as histórias delas – “para que tudo fosse feito com a responsabilidade e a delicadeza que pede”.

“Não teria como ter idealizado essa minissérie se não pensássemos nelas. Até porque, a existência e a atitude delas dentro desse caso foram a razão de eu querer fazer a série. Não teria nenhuma vontade de escrever só sobre o estuprador serial. Elas não foram só vítimas, mas tiveram um posicionamento heroico, foram responsáveis pela prisão dele. Foi uma superação da dor de uma forma incrível”, afirma ela, que também quis mostrar a injustiça do sistema judiciário brasileiro, e com isso fazer com que o público reflita [ainda mais] sobre a iniquidade cotidiana.

“Esperava que o ressurgir dessa história, levando em conta que o médico da vida real está em casa, trouxesse também questionamentos sobre o que é a Justiça no nosso país. Sobre quem tem privilégios e quem não tem e o que essa Justiça manda como recado para sociedade quando ela diz que essa pessoa pode ficar em casa. Enquanto outros presos, que também têm problemas de saúde, não têm esse privilégio", questiona.

Para Maria, a força da palavra combinada com a comunhão são grandes aliadas na busca por direitos da mulher, libertação e recuperação.
“Quando essas mulheres foram capazes de falar, uma ecoou a fala da outra e elas foram ouvidas. A ideia da série também é mostrar como a união feminina e a quebra do silêncio podem ser redentores e curativos. Se todas conseguissem ter essa união em casos de violência, seja qual for, a coisa muda de lugar”, opina.

A TV amplia tudo

Presidente do grupo “Vítimas Unidas”, a psicóloga Maria Do Carmo Santos aconselhou algumas das mulheres que foram abusadas por Roger a não assistirem a série.

“Toda vez que a história vem à tona mexe na ferida. Essas mulheres nunca tiveram paz desde que se expuseram, afinal, o Roger está em casa. Não é só um medo psicológico, mas retorna à humilhação pública e o medo dele se vingar, afinal, ele prometeu isso. É um homem poderoso, não é à toa que ficou dois anos só preso”, ressalta a doutora das vítimas.

Segundo a especialista, reviver um trauma pode ser “terrível” e pode despertar um gatilho para o suicídio.

“A TV amplia tudo. É como se alguém tivesse filmado seu estupro. Algumas ainda correm risco de morte. É muito fácil uma pessoa fragilizada ficar emocionalmente abalada, sem conseguir lidar com o racional. Ou seja, se tornando refém do algoz, dos seus traumas e sofrimento. Assim, é impossível buscar um fim para esse sofrimento. Não significa que querem morrer, mas podem encontrar como resposta somente isso, porque ficam imersas no emocional, na dor”, explica ela, que conversa diariamente com as mulheres por telefone ou ao vivo.

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