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Violência contra a mulher

Abusada pelo pai e vizinhos: Mulheres dividem histórias de violência sexual

DRaquel Cunha/Divulgação/TV Globo
Na trama de Walcyr Carrasco, Laura (Bella Piero) vive o drama de ter sido abusada pelo padrasto, Vinicius (Flavio Tolezani) Imagem: DRaquel Cunha/Divulgação/TV Globo

Amanda Serra

Do UOL, em São Paulo

09/02/2018 09h17

A história de Laura (Bella Piero) em "O Outro Lado do Paraíso", que não consegue ter uma vida sexual saudável e ativa após ter sido abusada durante sua infância pelo padrasto, o delegado Vinícius (Flavio Tolezani), representa a de milhões de mulheres da vida real.

Assim como na trama de Walcyr Carrasco, o crime é frequentemente praticado por pessoas próximas: pais, padrastos, tios, irmãos, vizinhos e avôs. Por vergonha, medo e sentimento de culpa, grande parte das sobreviventes se cala e não denuncia os abusadores. 

    A violência sexual contra crianças e adolescentes é a principal queixa recebida pelo Disque 100, o canal do Governo Federal para denúncias de violações de direitos humanos, e está relacionada a 58% de todas as ligações.

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    Números de 2016 mostram ainda que as meninas são alvos mais frequentes deste crime de crime — elas representam 44% dos casos registrados no ano. No mesmo ano, a Central de Atendimento à Mulher, conhecida como Ligue 180, recebeu mais de um milhão de acusações espalhadas por todo país.

    No entanto, a UNICEF estima que 85% dos casos não são denunciados, como os destas mulheres que contam suas histórias:

    "Na infância, sofri 3 abusos sexuais praticados por vizinhos. Até completar 17, e ser abusada pelo meu pai também"

    "Tinha aproximadamente 5 anos quando um dos vizinhos pegou uma banana e passou na minha vagina. Eu era muito novinha e não entendia o que estava acontecendo. Mas recordo bem do medo que senti, porque ele tampou a minha boca.

    Aos 7, um deles me colocou sentada em seu colo e começou a se esfregar em mim. Quando eu tinha 10 anos, ele tocou minha vagina e mostrou o pênis.

    Agora tenho 28 anos, sou casada há quatro anos e tenho um filho, mas, no início da minha relação, foi bem difícil. Tinha medo [de fazer sexo], igual à menina da novela. Foi quando meu marido sentou comigo e eu abri o jogo. O apoio dele foi e é essencial.

    Após o suicídio do meu irmão, meu pai voltou a beber muito. Depois de um dia de bebedeira intensa, ele se deitou ao meu lado pela manhã, antes de eu ir para escola, e começou a passar a mão na minha vagina. Levantei imediatamente e fui chorando para o colégio. Na época, minha mãe trabalhava e saía muito cedo.

    Logo após esse episódio, passei a ir para casa de uma tia depois das aulas. Angustiada, acabei contando para minha prima o que tinha acontecido, mas pedi segredo. Seis dias depois, ela contou para a mãe dela, que me obrigou a falar com a minha.

    Frequentadora da Assembleia de Deus e muito conservadora, minha mãe duvidou das minhas palavras, apesar de todo o histórico de traições do meu pai, que teve até filhos fora do casamento.

    Minha mãe sempre foi muito reservada. Quando 'virei mocinha', uma vizinha me ensinou a usar absorvente. Minha convivência com o meu pai, que morreu há dois anos, era complicada. Nunca tive coragem e apoio para denunciá-lo também, assim como os outros.

    Tudo isso provocou em mim uma repulsa em relação ao meu próprio corpo. Achava que a culpa era minha, pois tinha seios maiores do que as meninas da minha idade e lábios carnudos.

    Eu não passava maquiagem, tinha vergonha de usar batons escuros. Hoje, consigo ver que o erro não está em mim, mas muitas vezes me senti culpada e com nojo do meu próprio corpo. Acredito que a religião, no meu caso a umbanda, tenha me ajudado. Nunca fui em psicólogo, quem sabe um dia procuro".

    Camila*, professora de artes e moradora do Capão Redondo, em São Paulo

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    DRaquel Cunha/TV Globo Divulgação
    Os personagens Vinicius (Flavio Tolezani), Lorena (Sandra Corveloni), Rafael (Igor Angelkorte) e Laura (Bella Piero) em "O Outro Lado do Paraíso" Imagem: DRaquel Cunha/TV Globo Divulgação

    "Tinha entre 9 ou 10 anos quando o meu tio materno passou a abusar de mim"

    "Eu [costumava] ficar o dia inteiro sozinha em casa, enquanto os meus pais estavam trabalhando. Minha mãe pedia para esse tio, que é solteirão, passar em casa para ver se estava tudo certo comigo. Os abusos começaram com abraços e evoluíram para amassos, enquanto tentava fugir dele. Ele sempre dizia: 'não, vem aqui brincar comigo', me dava doces.

    Como minha mãe era muito rígida, eu não tinha abertura para falar nada. Além disso, eu não sabia o que estava acontecendo exatamente, não tinha entendimento sobre sexo. Ele é irmão dela, como eu iria falar? Ele tem o perfil do tio legalzão da família, que brinca com todos os sobrinhos, faz coceguinhas, beija muito, empresta dinheiro para os parentes.

    Mas os abusos foram evoluindo. Ele colocava minha mão no pênis dele, abaixava minha calça, ficava se esfregando. Conforme fui crescendo e 'pegando corpo', os abusos pioraram — com mãos nos seios, abraços por trás — e passaram a ser verbais também.

    Ele dizia: 'você não vai arrumar nenhum namoradinho'; 'você tem que pensar no seu futuro e estudar'. Fingia que estava preocupado comigo, quando, na verdade, não era isso. Só não ocorreu penetração porque acho que ele tinha medo de alguém descobrir.

    Quando eu estava com 15 anos, passamos em frente a um motel e ele disse: 'sua primeira vez em um desses será comigo, eu que vou te levar'. Eu vivia um conflito interno sobre certo e errado, tinha vergonha. Quem iria acreditar em mim? Uma moleca falando do tio mais legal, do paizão da família... Seria acusada de 'estar gostando' por não ter barrado. Ainda hoje me sinto muito envergonhada e culpada.

    Durante a adolescência, sofri um outro assédio sexual, de um professor de teclado, e por causa disso parei com as aulas. Conversando com a minha mãe outro dia, contei porque parei com o curso. Ela não acreditou e disse que eu estava inventando, que a verdade é que eu não queria aprender a tocar. Aí, tive a prova de que morrerei com essa história do meu tio, sem que ninguém saiba.

    Estou casada há 10 anos e meu marido só soube dessa história há um ano, mas ainda assim não consegui revelar todos os detalhes para ele. Desenvolvi um trauma. Não deixo minha filha de 2 anos brincando sozinha com meu irmão de 11. Já me peguei observando eles escondida atrás da porta para ver se estavam fazendo qualquer outra coisa que não brincar.

    Não tenho paz com o meu próprio irmão, que é uma criança também".

    Marcela*, bancária, de Osasco (SP) 

    "Fui abusada por um pastor e pelo genro dele" 
    Reprodução/GShow/O Outro Lado do Paraíso
    Laura se lembra de trauma após sessão de regressão em "O Outro Lado do Paraíso" Imagem: Reprodução/GShow/O Outro Lado do Paraíso

    Tinha 11 anos quando morava em uma fazenda em São Gabriel do Oeste, no interior do Mato Grosso do Sul. Meu sonho era poder estudar, mas onde morava não tinha escola. Um pastor da igreja evangélica que minha mãe frequentava então disse que eu poderia morar na casa dele e, assim, estudaria. Mas a intenção dele era outra. 

    Naquela época, quando isso [abuso sexual] acontecia, a gente tinha medo, vergonha de falar. Achava que ia apanhar do meu pai se contasse os abusos que sofria do pastor. Ele iria dizer que a culpa era minha.

    Ele já era um senhor, tinha seus 50 e poucos anos e esperava a mulher sair para abusar da minha irmã e de mim. Eu estava na fase de crescimento e ele começou tocando os meus seios, depois enfiava a mão dentro da minha calcinha. Ele dizia que era gostoso, que era 'normal', mas a gente não sabia se era normal ou não. Minha mãe não tinha explicado, ensinado 'aquilo' para gente. Aprendemos sobre o nosso corpo e relações sexuais com a vida.

    Os abusos duraram seis meses, até eu me mudar para a casa de uma das filhas desse pastor, que era recém-casada. Aí começou outro pesadelo: o marido da moça passou a me assediar. Dessa vez, durou apenas um mês e meio e pedi para voltar para casa, ainda que isso significasse ficar sem estudar. Em ambas as vezes, só não houve penetração porque não deu tempo. 

    Cresci com medo de homem, de ficar sozinha com eles no mesmo espaço. Temia passar pelos abusos novamente mesmo sendo mais velha. Chorava sem motivos, sentia um vazio, uma tristeza. Bloqueei minha sexualidade, a possibilidade de descobertas. Perdi a virgindade com quase 19 anos, após dois anos de namoro. Aconteceu por acontecer, queria que aquilo acabasse logo. 

    Já tive muita vontade de denunciar esse pastor, porque ele continuou pregando. Tenho certeza que abusava de outras crianças. Mas nunca falei sobre isso com ninguém, tenho vergonha até hoje.

    Eu e a minha irmã não tocamos no assunto. Procuro não lembrar deles para evitar sofrimento. Mas jamais esqueci a fisionomia desses homens. Essas pessoas que usam o nome de Deus para fazer mal para os outros são as piores. 

    Nunca fiz terapia, a vida foi me ensinando e curando. Engravidei aos 26 e me vi obrigada a casar, mas meu sonho sempre foi estudar".

    Rose*, comerciante, de Dourados (MS)

    *Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.

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