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Ideias para uma vida mais plena

"As pessoas querem a carpideira chorando no caixão", diz viúva de Chorão

Renato Parada/Divulgação
Graziela Gonçalves está lançando um livro sobre a relação com o cantor Imagem: Renato Parada/Divulgação

Camila Brandalise

Da Universa

26/09/2018 04h00

Viúva do cantor Chorão, morto em março de 2013 por overdose de cocaína, Graziela Gonçalves percebeu ter superado o luto ao olhar para uma foto do casal. “Um dia, vi uma imagem que, até então, só me fazia chorar, e me dei conta de que foi lindo o que eu vivi", diz, sorrindo.

Ela teve que rever fotos e bilhetes do casal para escrever o livro recém-lançado “Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?” (ed. Paralela), em que conta a história dos dois desde que se conheceram até os últimos dias da relação -- além de fazer uma reflexão sobre o que viveu.

Arquivo pessoal
Chorão e Graziela no dia do casamento, em 2003 Imagem: Arquivo pessoal

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Mas, até conseguir ver beleza na relação, passou por um calvário. Os constantes desentendimentos com os integrantes da banda Charlie Brown Jr. reverberavam de maneira cada vez mais negativa na vida dos dois, ela conta. Nos últimos quatro anos do casamento, o cantor desenvolveu uma dependência química grave de cocaína, e Graziela, síndrome do pânico.

Perder o Alê, apelido que ela usa até hoje para se referir ao cantor, chamado Alexandre Magno Abrão, foi “cair no abismo”. Ela viveu um período de depressão --“não teria saído viva se não tivesse minha família ao meu lado"-- e brigas imaginárias com o marido --“foram discussões homéricas na cozinha da minha casa”.

Nesta entrevista, Graziela fala da dificuldade de conviver com um dependente químico e sobre como a mulher, em hipótese alguma, deve se sentir responsável pelo vício do parceiro. “A gente vive em uma sociedade machista, em que a mulher tem que ser não só esposa, mas mãe, empregada e secretária do marido. Temos que virar essa chave.”

No livro, você fala do seu esforço para fazer o Chorão parar de usar cocaína. O amor não é mesmo suficiente para um dependente deixar de usar drogas?
Não. A pessoa tem que querer parar. Percebi isso com o Alexandre quando ele ficou impermeável a qualquer sugestão minha para procurar tratamento. Começou a fugir do assunto, mentir. Ele estava doente. Quem enfrenta um problema desse na família ou relacionamento, claro, quer salvar a pessoa. Mas percebo, hoje, que não dá para se responsabilizar pela escolha do outro. Mesmo que seja alguém que você ama. Quis escrever o livro também para mostrar a outras mulheres nessa situação que elas não têm culpa.

Quando ele morreu, a família chegou a dizer que você era responsável pela morte dele. Já se sentiu culpada pelo que aconteceu?
Em nenhum momento. Mas me senti julgada como se fosse, porque a gente vive em uma sociedade machista, em que a mulher tem que ser não só esposa, mas, também, mãe, empregada, secretária do marido. Temos que mudar essa chave. Quando a gente ama alguém, tão completamente e por tanto tempo, como eu o amei, tenta tudo, até o final. Fiz tudo que eu podia dentro da minha capacidade.

Arquivo pessoal
Graziela leva o marido à primeira consulta com uma psiquiatra; três encontros depois, ele desistiu do tratamento Imagem: Arquivo pessoal

Como o vício dele te abalou?
Ele estava doente. E eu adoeci junto. Passei a viver na órbita daquela situação e desenvolvi uma codependência. Tinha a ilusão de que possuía algum controle sobre ele, e o vício dele ficou maior do que qualquer coisa na minha vida. Fiquei mal, perdi 10 kg. Ele saiu de casa quatro meses antes de morrer, mas, mesmo longe, me ligava, dizia que voltaria para casa, que me amava, me pedia que o esperasse. Mesmo longe, a relação continuou. Ele já era dependente há quatro anos, me pedia para não contar para ninguém, me via como a única ferramenta para fazer pará-lo de usar cocaína. Foi muito difícil. A morte dele foi o chute final para eu cair no abismo

Como foi esse período?
Não queria mais viver. Não via sentido algum em nada. Não tinha força para me defender, nem queria. Passei por um tratamento psiquiátrico, tomei remédio. Depois, tive uma fase rebelde. Queria fazer tudo que pudesse, saía muito, achava que ia morrer no outro dia. Tinha períodos de euforia e de depressão profunda. Se não fosse minha família, não sei se teria saído viva desse momento.

Você sentiu raiva do Chorão depois que ele morreu?
Sim. Tive discussões imaginárias homéricas com ele na cozinha da minha casa. Perguntava: “Por que você me deixou aqui?”, “O que vou fazer da minha vida?”.

Quando você percebeu que o luto passou?
Enquanto escrevia o livro, de um ano para cá. Tive que voltar em fotos e bilhetes nossos e, da primeira vez que os vi, chorei, me descabelei. Da segunda, chorei menos. Na terceira, só fiquei triste. Na quarta, peguei uma foto e pensei: “Que lindo o que eu vivi”.

Arquivo pessoal
Em estúdio, opinando sobre o trabalho do marido Imagem: Arquivo pessoal

Também no livro, você questiona a ideia de ser colocada como coadjuvante da história dele. O que o público não sabe sobre você que acha importante contar?
Que eu era protagonista na nossa relação. Ele me mostrava todas as músicas. Quando tinha qualquer problema, era comigo que ele vinha se aconselhar. Para o público ou para a imprensa, não sentia a necessidade de mostrar isso. Minha personalidade era mais tranquila.

Você comenta que, hoje, consegue perceber o contexto machista no relacionamento. Como?
Ele era ciumento. Havia situações de pedir para não falar com algum amigo meu, regular roupa. Vejo que nós, mulheres, aceitamos isso para não criar problemas na relação. Ainda é difícil lembrar e pensar: “Caramba, como deixei isso acontecer?”. Hoje, ele ia ter de se adaptar, porque atitudes machistas não cabem mais no mundo em que vivemos. E eu nem iria permitir que ele as tivesse.

O que mais te incomoda como viúva do Chorão?
O patrulhamento. Quando comecei a namorar, me perguntavam: “Como assim, já está com outro?”. As pessoas querem a carpideira chorando na beira do caixão para a vida inteira. Isso é maldade.

Você se apaixonou de novo?
Sim. Conheci meu namorado há três anos, um amigo em comum nos apresentou. Não gostei dele no começo, achei chato. Eu estava em um momento mais rebelde, queria sair, fazer o que quisesse. Um ano depois, peguei carona com ele para a casa de praia desse mesmo amigo em comum. E foi descontraído, demos risada. Pensei: “Não é que ele é legal?”. Ele é calmo, tranquilo. Teve muita paciência comigo.

Quais lembranças carrega do Chorão?
O carinho com que ele me tratava. Eu me senti muito amada. Teve um momento que essas lembranças eram sofridas, fiquei muito tempo sem ouvir as músicas. Ouvir a voz dele me doía demais. Até hoje, na TPM, escuto e choro. Mas não me lamentando. É uma sensação boa por lembrar que ele fez muitas coisas lindas para mim.

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