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Carreira e finanças

"Diferença salarial não é mimimi", diz especialista em mercado de trabalho

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Salário homem mulher Imagem: iStock

Camila Brandalise

Da Universa

12/09/2018 04h00

Especialista na relação entre mercado de trabalho e mulheres, a economista Regina Madalozzo, coordenadora do mestrado em economia do Insper, acredita que o próximo presidente deve agir para resolver a desigualdade salarial entre homens e mulheres no Brasil - que varia entre 20% e 25%. “Já existe uma lei que obriga empresas a pagarem igualmente. O que o novo governo pode fazer é fiscalizar o cumprimento dela e incentivar empresas a divulgarem dados de salários”, afirma.

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A economista Regina Madalozzo, do Insper Imagem: Insper/Divulgação

Madalozzo aponta ainda para o baixo número de mulheres presidentes e diretoras nas empresas brasileiras - 8% e 21%, respectivamente, segundo pesquisa Panorama Mulher, de 2017 - como um sinal de um mercado que ainda não está totalmente adaptado para a entrada de profissionais femininas. “Por certo tempo, era um membro da família que trabalhava, o homem, enquanto a mulher ficava em casa”, diz. “A dedicação dele era integral e ainda há muitos cargos exigindo isso hoje. Atrapalha principalmente as mulheres, que continuam com as responsabilidades tidas como femininas, como casa e filhos”, diz.

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Mas as mudanças já aparecem. Segundo a pesquisadora, há vários programas de empresas investindo na promoção de mulheres e na equiparação salarial. Em entrevista à Universa, Madalozzo aponta mais dados e análises sobre diferenças de pagamento, dificuldade para mulheres ascenderem a cargos de chefia e impacto da maternidade na carreira.

Diferença de salário

Há quem justifique a desigualdade com o argumento da maternidade, mas, segundo Madalozzo, é uma ideia que não se sustenta. “Primeiro porque a licença-maternidade é um pagamento feito pelo governo”, diz. “Além disso, a diferença salarial, no geral, é de 20% a 25% todos os meses: a conta não bate.”

Para ela, resolver isso é papel do governo e o próximo presidente deveria ter isso em seu plano. Entre ações possíveis, está o incentivo à divulgação de dados salariais a fiscalização do cumprimento da lei que já existe e que exige salários iguais. “Não é mimimi, é realidade, por isso é preciso de conscientização social.”

A disparidade salarial impacta também o crescimento econômico do País. Em estudo do Insper orientado por Madalozzo, concluiu-se que municípios com maior desigualdade tendem a crescer menos do que os que pagam igual. “Receber salário menor é um desincentivo. Percebemos que a mulher sai de empresas altamente produtivas que geram crescimento e vão para outra para serem melhor tratadas, mesmo que não sejam tão produtivas”, diz.

Dificuldade de subir na carreira

O fato é que a competitividade feminina é alta, elas conseguem ingressar em profissões que no passado não conseguiam, mas ainda não evoluem como os homens dentro de suas carreiras. “Nos cargos iniciais (quando os funcionários entram na empresa) normalmente meia equipe é do sexo feminino e a outra metade masculino. Mas quando os cargos vão subindo, a história muda. Só 21% das vagas de diretoria são ocupadas por mulheres. E, nas de chefia, o número cai para 8%”, afirma Madalozzo.

Aí entra uma questão cultural. Após analisar o comportamento das empresas, a pesquisadora afirma que há uma expectativa em relação ao perfil de um homem e o de uma mulher. “Espera-se que ela seja mais tranquila, mas isso não bate com o que se espera de um líder. Porém, quando a mulher age como líder, de maneira assertiva e determinada, é mal vista e não consegue ascender”, diz.

Ela chama isso de discriminação de segundo grau: não é aberta, ninguém diz que a funcionária não será promovida por ser mulher, mas há uma tendência em achar que elas são menos capazes. Mesmo que a mulher se imponha e saiba negociar salário e promoção, agir sozinha não é suficiente na maioria dos casos. “Por isso, a discussão precisa acontecer dentro da empresa e ser estimulada principalmente por homens.”

Segundo estudo divulgado em agosto pelo Insper, em instituições com mulheres presidentes, a taxa de profissionais femininas em outros cargos de liderança pode ser até quatro  vezes maior se comparada a lugares com presidentes homens.

Impacto da maternidade

Mais de 25% das mulheres deixam o emprego depois de se tornarem mães, contra 5% dos homens, e 21% delas demoram três anos para voltarem a trabalhar. É um impacto relacionado à valorização da presença da mulher perto do filho, segundo Madalozzo.”O homem não precisa se afastar em nenhum momento da empresa, diferentemente da mulher, por isso não é considerado socialmente ruim que continue trabalhando normalmente nem se espera que freie a carreira”, diz.

Há, porém, empresas que oferecem a licença paternidade para que o homem participe diretamente do cuidado com o recém-nascido e para que a responsabilidade seja dividida. Normalmente, são entidades que investem na equidade de gênero, com salários iguais e igualdade de sexos em cargos de chefia. Fazem isso porque o retorno é alto. “É um jeito de fidelizar a trabalhadora, mantê-la no cargo e evitar a rotatividade, que é muito custosa para a organização.”