menu
Topo

Minha história

"Dei à luz em coma e conheci meu filho dois meses depois do parto"

Arquivo pessoal
Mulher em coma abre Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

11/08/2018 04h00

Com 26 semanas de gestação, a pastora Andreia Vasconcelos, 31, foi infectada com o vírus H1N1. Sem conseguir respirar, ela foi entubada e precisou fazer uma cesárea de emergência. “Dei à luz em coma, fiquei 45 dias inconsciente e só conheci meu filho quase dois meses depois do parto”. Neste depoimento, ela conta sua história:

“Eu estava grávida de 26 semanas quando peguei a gripe H1N1. Eu achei que fosse uma rinite alérgica. Tive sintomas como ardência na garganta, perda de apetite e muito cansaço. Mal conseguia levantar da cama. Fui ao pronto-socorro, fiz uns exames e o médico me prescreveu um antialérgico. Melhorei um pouco, voltei para casa, mas depois piorei rapidamente.

Veja também

Passei a noite sentada no sofá, sem conseguir dormir e com dificuldade para respirar. De manhã, meu marido, o Aldenir, me levou ao hospital novamente. No caminho, eu desmaiei. Fui encaminhada à UTI do Complexo Hospitalar de Niterói, no Rio de Janeiro, onde me deram uma máscara de oxigênio, mas ainda assim eu sentia muita faltar de ar. Eu estava desesperada. Os médicos explicaram que a sensação que eu estava era a mesma de uma pessoa morrendo afogada.

Arquivo pessoal
Andreia, ainda grávida, com o marido, Aldenir Imagem: Arquivo pessoal

Eles suspeitavam que eu havia sido infectada pelo vírus H1N1, mas a confirmação só veio 15 dias depois. Os médicos falaram para o meu marido que o meu caso era grave e que eles precisariam me induzir ao coma para me entubar. Lembro da médica me falando que me colocaria para dormir para eu poder descansar. Ela me deu uma outra máscara, pediu para eu respirar e contar de 10 a 1. Contei até 8 e apaguei. Ninguém sabia quanto tempo eu ficaria inconsciente.

Meus dois pulmões pararam de funcionar e meu filho teve três paradas cardiorrespiratórias

Na madrugada seguinte eu dei à luz em coma ao meu segundo filho, o Jonathan. Ele nasceu com 26 semanas no dia 24 de abril de 2016. Segundo a minha obstetra, e equipe foi para a sala de cirurgia disposta a fazer de tudo para assegurar a minha vida e a do meu filho, mas eu já era dada como morta. Tive falência pulmonar total. Durante o parto, meu filho sofreu três paradas cardiorrespiratórias. Foi um milagre nós dois termos sobrevivido.

Após o nascimento do Jonathan, eu fui submetida a uma cirurgia para ser acoplada a um pulmão artificial. Eu fiquei em coma por 45 dias e tive várias complicações. Meus rins pararam de funcionar, precisei fazer hemodiálise, tive infecção generalizada. Meu marido passava o dia no hospital. De manhã, ele ficava com o Jonathan na UTI neonatal, e, à tarde, comigo.

Reprodução
A família no hospital, durante a internação de Andreia Imagem: Reprodução

Tinha visões no coma: Deus conversava comigo num deserto

Tenho algumas lembranças do período em que fiquei inconsciente. Lembro de um louvor que meu marido colocava para eu ouvir, dele falando que não desistiria de mim e fazendo carinho no meu braço. Também lembro da fisionomia dos enfermeiros e deles conversando, além do som dos aparelhos no quarto. Eu ouvia essas coisas e tentava responder e me mexer, mas era como se eu estivesse muito cansada e não conseguisse acordar nem sair do lugar.

Eu também tinha visões. Eu me via andando num deserto e Deus se comunicando comigo. Ele dizia que eu estava passando por tudo aquilo, mas que ia ficar tudo bem, que era para eu continuar andando que eu encontraria uma fonte de água. Após caminhar muito, cheguei a uma praia.

Acordei com uma recepcionista me chamando para levantar e ver minha família

Havia uma recepcionista da UTI que era alegre e efusiva. Um dia, eu ouvi nitidamente essa moça falando: ‘Andreia, vamos levantar, vamos acordar, sua família está esperando’. Eu abri os olhos. Ela ficou assustada e saiu correndo. Depois, meu marido chegou. Ele estava agitado, falou que eu estava no hospital e me mostrou a foto do Jonathan no celular e disse que estava tudo bem com ele.

Nessa hora, eu olhei para a minha barriga e fiquei confusa. Eu sabia que estava grávida, mas não que havia tido o bebê. Fiquei nervosa porque não estava entendendo nada, não lembrava do parto. Fui sedada e voltei a dormir.

Ao despertar do coma, eu tinha a sensação de que eu tinha dormido apenas um dia. As ideias ainda estavam bagunçadas. Eu achava que tinha explodido um botijão de gás no prédio onde eu morava. Demorei alguns dias até processar o que tinha acontecido.

Arquivo pessoal
Aldenir e Andreia no aniversário de dois anos do filho, Jonathan Imagem: Arquivo pessoal

Meu filho nasceu saudável e eu fiquei com sequelas

Após me recuperar, fui na UTI neonatal conhecer meu filho, quase dois meses depois do nascimento dele. Antes de vê-lo, eu tinha medo de ele me rejeitar. De não me reconhecer como mãe, pois não tivemos contato logo que ele nasceu e por não poder amamentá-lo. Quando o peguei no colo, todas as dúvidas e temores desapareceram. Tudo passou a se encaixar e a fazer sentido pela primeira vez.

O Jonathan nasceu saudável. Hoje, ele está com dois anos e três meses. Já eu fiquei com sequelas, perdi grande parte da capacidade do pulmão esquerdo. Hoje me dedico integralmente à minha casa e à minha família. Meu relacionamento com o meu filho é especial por tudo o que passamos juntos. Tenho muita gratidão a Deus, porque ele cumpriu a promessa que me fez durante o coma de que ficaria tudo bem”.

Você também tem uma história para contar? Ela pode aparecer aqui na Universa. Mande o resumo do seu depoimento, nome e telefone para minhahistoria@bol.com.br. Sua identidade só será revelada se você quiser.