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Minha história

Morei na rua, virei cozinheira para não passar fome e hoje sou chef em NY

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

07/08/2018 04h00

Tatiana Ribeiro, 36, foi morar na rua após fugir do abrigo onde vivia, em busca da mãe biológica. Sem lar, ela ficou dias sem comer e teve que trabalhar desde cedo. “Queria ser cozinheira porque era a única forma de eu sobreviver e nunca mais passar fome na vida”. Leia o depoimento dela.

“Minha mãe me deu para a adoção a um abrigo em Fortaleza quando eu nasci. Fiquei lá até os meus nove anos de idade, quando fugi e fui morar na rua para tentar encontrá-la. Morei nas ruas de Recife, Natal, Belém do Pará e Fortaleza dos nove aos 12 anos. Não havia lugar confortável, eu dormia onde achava seguro: na rodoviária, ao lado da banca de jornal, debaixo da ponte, na praia.

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Não gostava de pedir esmola e comecei a trabalhar cedo

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Eu nunca gostei de pedir esmola, sempre dava um jeito de trabalhar para conseguir o dinheiro suficiente para sobreviver a cada dia. Eu vendia cocada, água sanitária, trabalhava na feira. No feriado de Finados, ia para a porta do cemitério e vendia velas, flores, coroas. Conseguia ganhar de dois a cinco cruzeiros por dia. Havia vezes em que eu não tinha nada para vender e não tinha dinheiro para comprar alimento.

Teve uma vez em que eu estava sem comer comida de verdade havia duas semanas. Estava com muita fome. Entrei na praça de alimentação do shopping e vi um homem com um bife no prato. Peguei o prato e saí correndo, mas o segurança me pegou, me bateu e eu não consegui comer.

Aos 13 anos, saí das ruas e fui trabalhar em casas de família. Eu fazia de tudo: era babá, limpava, lavava, passava, auxiliava na cozinha. Foi nessa época que eu comecei a gostar de gastronomia e vi que tinha o dom de cozinhar. Eu adorava sentir o cheiro das comidas, isso aguçava o meu paladar. Eu observava as cozinheiras trabalhando e as ajudava.

Aos 19 anos, voltei para Fortaleza, na maternidade onde nasci, e descobri que a naturalidade da minha mãe era do Rio de Janeiro. Juntei dinheiro, comprei a passagem e fui para lá para tentar achá-la. Cheguei com R$ 30. Morei por seis meses na rua. Às vezes, pagava R$ 1 e dormia num albergue que dava direito a um café da manhã.

Nunca me prostituí e nem me envolvi com drogas nas ruas

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Nessa fase, eu já tinha corpo de mulher e morria de medo de ser estuprada. Se eu visse um homem suspeito, eu me afastava e procurava outro lugar para ficar. Era a lei da selva, eu tinha que me proteger. Nunca me prostituí nem me envolvi com drogas, nas ruas. A minha situação já era tão ruim que eu não queria piorá-la ainda mais. Via a destruição que o vício causava.

Minha vida teve uma virada aos 21 anos, quando conheci uma mulher na calçada no Rio. Eu falei que estava procurando emprego e que não tinha onde morar. Ela me chamou para ir à casa dela e me ofereceu trabalho. Com o tempo, ganhei a confiança da família dela, que me adotou e me deu a base de tudo o que eu conquistei até hoje. Naquele momento, ganhei uma família e desisti de procurar a minha mãe biológica.

Trabalhei em vários restaurantes e estudei gastronomia

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Depois de um tempo, achei um trabalho de saladeira num restaurante e comecei a fazer supletivo. Ao longo dos anos, trabalhei em casas de família como faxineira e cozinheira. Eu investia o dinheiro que eu ganhava em cursos técnicos de cozinheiro profissional. Após reprovar em dois vestibulares, consegui fazer a faculdade de gastronomia.

Trabalhei em vários restaurantes em todas as funções, como ajudante de cozinha, cozinheira, sous chef. Eu queria ser cozinheira porque era a única forma de eu sobreviver e nunca mais passar fome na vida. Vi na comida um refúgio. Passar fome me levou a ter uma profissão, a ser chef de cozinha.

Fiz um curso de nutrição funcional e isso me abriu portas para atuar como personal chef em casas de famosos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 2016, recebi uma proposta de uma cliente para trabalhar e morar com ela em Nova York. Chegando lá, o trabalho não deu certo. Fiquei três dias no metrô de Nova York porque não sabia falar inglês.

Sou chef de cozinha de um restaurante brasileiro em NY

Conheci um brasileiro que me ajudou a alugar um quarto e me indicou para trabalhar no restaurante brasileiro Beija-Flor, em Long Island City, onde fiquei por um ano e meio. Comecei a estudar inglês e, há seis meses, sou chef de cozinha do Berimbau do Brasil, em West  Village, onde crio os meus próprios cardápios. Eu levo para a cozinha a minha origem nordestina e as raízes dos lugares onde eu morei e o aprendizado das cozinheiras que convivi. Meus carros-chefes em NY são um risoto de alho poró com crispy de carne seca e um medalhão ao vinho madeira com purê de banana da terra e espinafre trufado.

Consegui sair das ruas e me tornar uma chef de cozinha porque sempre tive fé em Deus e o pensamento positivo de que seria alguém na vida. Eu sempre agarrei toda e qualquer a oportunidade que me deram, fosse ela boa ou ruim, com força e determinação”.

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