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Carreira e finanças

Primeira turma exclusiva de pilotas de avião se forma no Brasil

Fabio Salles/Divulgação
Turma de pilotas recém-formadas tem mulheres de 25 a 33 anos Imagem: Fabio Salles/Divulgação

Camila Brandalise

Da Universa

13/07/2018 04h00

Tem gosto de déjà-vu o sorriso de orgulho da comandante de voo Cintia Lanhozo, de 31 anos, ao ver 16 colegas pilotas (sim, o termo existe e é usado na aviação) receberem diplomas para trabalhar na mesma companhia aérea que ela. Enquanto caminha pelo evento de formatura, ela relembra a própria experiência. Quatro anos antes, ela se formava. Só que, na época, era a única mulher.

A Avianca Brasil celebrou há dois dias a primeira turma de pilotos composta exclusivamente por mulheres; a única da história da aviação brasileira, segundo a empresa. Elas têm entre 25 a 33 anos e, com essas contratações, elevam para 34 o número de pilotas na empresa. O número de homens é de cerca de 600. 

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Atualmente, 3% dos pilotos brasileiros são mulheres, segundo a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Há 1.465 mulheres e 46.556 homens. A Avianca pretende ter 30% de pilotas mulheres em cada uma das novas turmas formadas. Informa que também pretende investir na diversidade. Nesta turma, não há negras.

Passageira não embarcou ao saber que comandante era mulher

Ser mulher e jovem nesse meio, para Cintia, é conviver com olhares e cochichos o tempo todo. 

Camila Brandalise/Universa
Comandante Cintia Lanhozo Imagem: Camila Brandalise/Universa

Ela conta que já passou por situações constrangedoras. “Um senhor pediu para falar comigo, antes da decolagem, e disse: ‘Cuidado com nossas vidas, mocinha’. Respondi que teria cuidado, inclusive com a minha.” Os relatos vão de cochichos entre passageiros (“de cada dez que entram no avião, seis comentam”), ao episódio de desistência de uma passageira, quando soube o gênero da responsável pelo voo. Parece coisa da década passada, mas foi há quatro meses. “Não me importo. Só quero fazer meu trabalho”, diz.

“Mas você consegue pilotar aquele bichão?”

A pilota Mireli Rinaldi, de 30 anos, é constantemente questionada se é comissária de bordo. “Sempre estranham quando explico que sou pilota.” Certa vez, um taxista perguntou: “Mas você consegue pilotar aquele bichão?”. “Tentei levar na brincadeira, disse que só sabia pilotar fogão.”

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Pilota Mireli Rinaldi Imagem: Camila Brandalise/Universa

As mudanças, em comparação com a época em que começou, são evidentes. “Quando entrei na escola de aviação, era só eu e mais uma colega, entre 60 homens”. Nos aeroportos, a impressão é a mesma. “Há muitas mais mulheres pilotos nos saguões”.

Habilidades femininas

O presidente da Avianca Brasil, Frederico Pedreira, afirma que o esforço para diversificar o quadro de profissionais começou há dois anos, e com dificuldades. “Até hoje, só 5% dos currículos que recebemos são de mulheres.”

Acumular horas de voo é um dos maiores empecilhos para montar um bom currículo. Empresas de aviação privada não querem pagar quartos de hotéis para dois funcionários, por isso, preferem que os pilotos sejam dois homens; assim, eles podem dormir no mesmo quarto. “Também afirmam ter gastos para reformular o quadro de funcionários quando a funcionária engravida”, diz a pilota Paula Soffo, de 32 anos. 

Arquivo pessoal
Copilota Paula Soffo e comandante Jaqueline Guglielmi: experiência com horas de voo Imagem: Arquivo pessoal

Pedreira salienta que sempre teve retorno positivo pelo trabalho das profissionais. Um dos elogios diz respeito à capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Senso comum, mas faz sentido dentro de uma cabine de avião. “Durante o voo, ao mesmo tempo que piloto, falo com o controle de tráfego aéreo e estou apertando vários botões", diz Cintia.

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