Direitos da mulher

Homem tem lugar no feminismo? Feministas dizem qual é o papel deles na luta

Reprodução
Antonia Pellegrino, Djamila Ribeiro e Nathalia Borges Imagem: Reprodução

Natacha Cortêz

Do UOL, em São Paulo

03/01/2018 04h00

Feminismo” foi a palavra de 2017. A escolha é do dicionário americano Merriam-Webster, que concluiu que a busca pelo termo cresceu depois da marcha de mulheres contra Donald Trump, que aconteceu na ocasião da posse do presidente, não só nos Estados Unidos como em várias capitais do mundo.

Se você ainda não ouviu falar desse movimento organizado e protagonizado por mulheres pela igualdade de gêneros, mais cedo ou mais tarde vai ser confrontado por seus valores e reivindicações que buscam uma verdadeira mudança de paradigmas na sociedade. “O futuro é feminino”, aposta o slogan feminista mais pulverizado dos últimos tempos.

Mas e quanto aos homens nisso tudo: qual é o lugar deles no movimento? Um homem pode se dizer feminista? Aliás, um homem pode reivindicar valores feministas e falar em nome das mulheres? Se sim, quando? Se não, quando eles devem apenas ouvir?

Antonia Pellegrino, codiretora de “Primavera das mulheres”, documentário que radiografou os caminhos que o movimento feminista tem tomado no Brasil, Djamila Ribeiro, filósofa e autora do livro “O que é lugar de fala?”, e a mestre em psicólogia Nathalia Borges, cocriadora da fanpage "Já falou para seu menino hoje?" - mulheres que estiveram à frente da luta feminista no país em 2017 - respondem sobre o (delicado) lugar do homem no feminismo.

UOL: Qual é o lugar do homem no feminismo?
Antonia: O feminismo é uma luta das mulheres, mas que só se realiza plenamente com a aliança dos homens. Porque não há apenas mulheres no mundo. Então o lugar dos homens na nossa luta é o lugar dos aliados. E precisamos deles. 

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Em 2015, o ator Dado Dolabella causou barulho na internet quando fez a pergunta acima Imagem: Reprodução Twitter
 Djamila: Ter práticas que contribuam para a vida das mulheres. Se é um legislador, pensar na descriminalização do aborto, por exemplo. Se é um gestor público, pensar em política para as mulheres. Na hora de discutir transporte coletivo, tem que discutir gênero. Na hora de discutir direito à cidade, tem que discutir gênero. Por que, se não há creches o suficiente, onde a mulher vai deixar o filho dela para poder trabalhar? Se você é professor, na bibliografia do seu curso: há quantas mulheres? Aliás, você reprime um aluno que está assediando uma aluna?

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Nathalia: Há espaço para homem no feminismo. E é justamente enfrentando o machismo no seu ambiente e situações do cotidiano, é conversando com o seu colega que assediou uma moça na rua, é sendo responsável nos afazeres domésticos e assumindo o cuidado dos filhos. Ou seja, há espaço para homens na militância desde que seja respeitado o protagonismo da mulher no movimento feminista. 

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Antonia Pellegrino Imagem: Reprodução Facebook
Um homem pode se dizer feminista?
Antonia
: Um homem pode se dizer aliado do feminismo, simpatizante às lutas feministas, em processo de desconstrução à luz do feminismo. Mas se dizer feminista não faz sentido. Assim como eu, mulher branca, não posso me dizer uma feminista negra. Eu sou uma aliada do movimento negro, mas me entender como uma feminista negra não faz o menor sentido.

Djamila: Homens precisam discutir masculinidades, primeiramente. É interessante que entendam essa masculinidade construída na agressividade, essa masculinidade tóxica que não pode ouvir não. A filósofa Simone de Beauvoir disse: o único homem feminista é aquele que enxerga a mulher como sujeito. Como ainda são raros os homens que fazem isso, então talvez eu diga que não.

"O único homem feminista é aquele que enxerga a mulher como sujeito"

Sobre "lugar de fala”, o que é? Aliás, no feminismo, um homem pode assumir esse lugar? Se sim, quando?
Antonia: O lugar de fala é um conceito que expande a percepção sobre quem fala. Além da mensagem, ele aponta para quem está falando e o lugar de onde a pessoa vem. Estas camadas se tornaram determinantes na produção discursiva. Mas o lugar de fala não pode ser a única categoria que determina quem pode falar sobre algo, senão acaba produzindo um estreitamento às avessas. Essa é a raiz da ideia da esquerda caviar, por exemplo. Porque passa pela compreensão de que quem é de classe média ou média alta não pode compartilhar valores de esquerda. Portanto, acho que homens podem sim falar sobre feminismo, mas não pautar a luta feminista. 

Lucas Lima/UOL Estilo
Djamila Ribeiro Imagem: Lucas Lima/UOL Estilo
Como você explica ‘lugar de fala’?
Djamila: É pensar, sobretudo, quem foi autorizado a falar numa sociedade racista, machista. É só a gente começar a olhar as próprias produções bibliográficas dos nossos cursos, é só a gente começar a olhar quem são, numa redação, jornalistas. A gente não parte dos mesmos lugares de direito à fala. As pessoas gostam de dizer que tem que dialogar, mas como dialogar se um está no topo e o outro está na base? O outro sequer é ouvido, né? Então a gente falar de lugares de fala é pensar as hierarquias que estão postas na sociedade que autoriza que determinados sujeitos falem, ao passo que outros ficam invisíveis. 

O que define um sujeito "esquerdomacho"?
Antonia: Esquerdomacho é o homem que se diz desconstruído, aliado ao movimento feminista, mas segue reproduzindo comportamentos machistas. 

É possível educar novos meninos com valores feministas e estimular neles transformações?
Nathalia: Tão importante quanto empoderar meninas é conscientizar meninos. Pequenas atitudes do dia a dia são capazes de transformar uma realidade machista e criar uma geração mais feliz. As lições devem ser aplicadas na escola e dentro de casa. Ensine sobre empatia: meninos precisam aprender a se colocar no lugar do outro, e isso só será possível à medida que eles conhecerem seus próprios sentimentos e dores físicas e emocionais. Portanto, jamais diga a eles que homens não choram. Fale sobre consentimento: ainda é bastante comum que agressões físicas entre crianças sejam tratadas como indícios de paquera. Nunca diga “seja homem”: ao pedir que se comporte como o estereótipo de macho, você exige que ele negue sentimentos e seja agressivo. Isso é opressor e violento. 

Meninos precisam aprender a se colocar no lugar do outro, e isso só será possível à medida que eles conhecerem seus próprios sentimentos

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Nathalia Borges Imagem: Reprodução Facebook

O feminismo quer que homens e mulheres sejam iguais? 
Antonia: O feminismo quer que homens e mulheres tenham os mesmos direitos. Quer que a sociedade, que foi construída pelos homens e para os homens não nos coloque para trás pelo simples fato de sermos mulheres.

Nathalia: Tratamos meninas e meninos de forma diferente (e desigual), e isso já começa antes deles nascerem. A clássica divisão entre rosa e azul já faz parte da vida da família desde que o ultrassom revela qual o sexo do bebê. Ao estabelecer o que é de menino e de menina, os adultos, a mídia e a sociedade de modo geral, limitam as vivências das crianças, além de rotular espaços e empobrecer possibilidades de exploração do mundo para ambos: meninos brincam de bola, carrinho, lego, ferramentas - objetos que os incentivam a se apropriarem do mundo, mas não de sua sensibilidade. Já as meninas brincam com bonecas, fogões e casinhas - objetos que podem restringi-las ao espaço doméstico e de maternagem. O que quero ressaltar é que embora existam diferenças biológicas entre meninos e meninas, elas não podem resultar em direitos sociais desiguais. 

Por que a "lenda" de que feministas têm pé atrás com os homens? De onde vem essa ideia? Ela faz sentido?
Antonia:
Há muitos mitos que foram construídos para desempoderar mulheres. Por exemplo, o mito do relógio biológico, o mito de que mulheres casadas são mais felizes, o mito de que mulher não gosta de mulher. Este mito de que feminista tem pé atrás com homem é mais um desta lista. Agora, é claro que mulheres feministas são mais vacinadas contra comportamentos machistas. Então certamente elas dão mais trabalho para homens machistas. Ou simplesmente preferem não se relacionar com eles. Por isso a gente sempre diz: homens, melhorem.

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O verbo SER: nenhum ser humano essencialmente bom pode não ser feminista

Eu sou Feminista. Tu és Feminista? Ele é Feminista! Ela não é Feminista?? Nós somos Feministas! Vós sois Feministas? Eles são Feministas! Elas não são Feministas?? Eu não sou Feminista?!? Sou sim, mas sei que preciso ser mais e melhor... Tu és Feminista. Apenas não sabes... Ele não é Feminista? Poderia ser sim, aliás, deveria, ainda que por empatia... Ela é Feminista! E ainda bem que tem consciência de que o é... Nós não somos Feministas? Claro que somos, ainda que disso não falemos o tempo todo... Vós sois Feministas. E fazem muito bem em o ser... Eles não são Feministas? Mas deveriam, pois todos os seres humanos deveriam ser, uns por essência e outros por empatia. E fato é que todos deveriam ser... Elas são Feministas. Sim, são, aliás, feministas convictas. E apesar de toda a ignorante discriminação que sofrem... E você? é ou não é? Sabes afinal o que é ser feminista? Sabes de verdade? Sem preconceitos? Ser feminista é ser simplesmente a favor da igualdade de direitos entre homens e mulheres e a favor do respeito à condição feminina. Ser feminista, portanto, é lutar contra os preconceitos que aprisionam, intimidam e limitam as mulheres nas empresas, nos espaços públicos, nas escolas e nas universidades, nas casas e nas famílias, nos jardins, nas ruas e nas praças da nação e deste mundo, impedindo-as de irem mais longe e de serem mais naturalmente felizes. Ser feminista é lutar pelo reconhecimento dos direitos civis e humanos de todas as mulheres; é lutar para que tais direitos não sejam nem menores e nem menos importantes de que os de quaisquer outros seres humanos. Ser feminista é não aceitar que uma mulher seja morta neste país a cada hora e meia apenas e tão somente porque ela é mulher. Ser feminista é perceber que é um absurdo sermos um dos países do mundo em que há menos mulheres no Legislativo e na cúpula dos Poderes Instituídos do Estado, fatos esses que enfraquecem e desqualificam o ambiente da democracia brasileira. Ser feminista é saber que enquanto não tivermos mulheres ocupando isonomicamente todos os espaços, especialmente os espaços de poder e decisão, que são os espaços em que são tomadas as decisões mais relevantes e impactantes para o presente e para o futuro da nação brasileira e de toda a nossa sociedade, não teremos um país justo, equilibrado, contemporâneo e nem será o nosso país um país melhor. Ser feminista é ter consciência da absoluta e profunda importância da mulher para o desenvolvimento e para o aprimoramento otimizado da humanidade e dos países contemporaneamente. Ser feminista é apenas querer que todas as mulheres possam andar tranquilamente pelas ruas deste país sem correrem o risco de serem assediadas, desrespeitadas, diminuídas, estupradas ou atacadas. Portanto, tenho certeza de que você é feminista, pois nenhum ser humano essencialmente bom pode não ser feminista. Você só não sabia ou não tinha consciência de que era, como eu mesma um dia não tive consciência de que era. Mas isso foi há muitos e muitos anos... Desde então, eu lutei para ser um ser humano melhor e penso que, pelo menos, amadureci e, por decorrência, pude perceber e reconhecer que eu sou Feminista sim e é ótimo assim ser. E, aliás, sempre é tempo para ser e se reconhecer como um ser humano melhor... E você? Não quer ser um ser humano melhor?

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