Futebol é de todo mundo

Na várzea, com uniforme emprestado dos homens, nem o almoço de domingo nem o preconceito as impedem de jogar

Natália Eiras Da Universa
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Por quase 40 anos, mulheres foram proibidas de fazer coisas como rolar a bola em um campo ou disputar um lance com uma adversária de escudo. Pelo menos oficialmente. E isso no Brasil, o país do futebol.

O decreto-lei 3.199, de abril de 1941, instituiu no artigo 54 que "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". A historiadora Silvana Goellner, especializada em futebol feminino, diz que a lei surgiu em uma época em que a ciência higienista estava em alta. "As mulheres tinham que gerar filhos, cidadãos fortes para o Brasil", explica.

Porém, mais do que um reflexo de teorias biológicas da época, a especialista diz que, tendo dinheiro na mão e longe dos pais e dos maridos por causa dos campeonatos, as jogadoras estavam se tornando mais independentes na década de 40, o que pautou a criação da lei. "Elas estavam fugindo dessa representação da feminilidade", fala a historiadora. E a principal fonte de temor era o futebol feminino de várzea, que estava se destacando na época. "E o esporte sempre foi um espaço de ascensão social, incluindo mulheres periféricas", afirma Silvana.

Na periferia de São Paulo (SP), o futebol feminino de várzea tem ressurgido, quase 80 anos depois da proibição. No dia 22 de julho, acontece a 1ª Copa da Liga Feminina de Futebol Amador, que conta com cerca de 100 equipes. Um dos competidores é o Apache, equipe de Parelheiros, bairro do extremo sul de São Paulo. A Universa acompanhou um jogo do time que tem jogadoras de 14 até 40 anos. São donas de casa, mães ou trabalhadoras que se arrumam para entrar em campo (algumas até se maquiam) e se divertem todos os domingos --sem falta.

Autoriza o árbitro.

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Um belo dia para jogar futebol

Domingo, 9 de junho, 14h30. O céu está claro e o sol brilha, esquentando, pelo menos um pouco, o dia frio. A seleção brasileira de futebol feminino venceu seu primeiro jogo na Copa do Mundo Feminina, que acontece na França. A equipe brasileira masculina tem um amistoso marcado para a tarde. Demoramos uma hora e meia --mesmo sem nenhum trânsito-- desde o centro de São Paulo (SP) até o CDC Jardim Herplin, onde as jogadoras do Apaches têm um jogo marcado contra as integrantes do Jardim Colombo.

Somos recebidos por César, um dos dirigentes do campo. Não se trata de um "terrão", como se imagina quando pensa em um jogo de várzea, mas um revestimento de grama sintética. "Veio para nos dar um gramado novo?", pergunta o responsável pelo lugar, percebendo que somos "forasteiros". Quando a reportagem se apresenta como da Universa, ele agradece a presença. "É importante para o futebol de várzea. Uma pena que talvez não tenhamos tantos torcedores por causa do jogo do Brasil", diz.

Com a camiseta de torcida do Apache, Maria Amorim, 34, chega pouco tempo depois com o marido, o bombeiro profissional Luís Alberto Amorim, 37. Os dois são "a cabeça" por trás do time amador. Há 15 anos juntos, Beto fez um ultimato para a então "ficante" quando começaram a namorar: "disse que tinha duas coisas que eu não abria mão: do meu filho de um relacionamento anterior e do futebol". Mal sabia ele que o filho não era um problema para Maria. Muito menos o futebol.

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A "chefa" bate na bola melhor que os caras

Corinthiana, Maria sempre jogou bola. "Gostava brincar quando era pequena", diz. Cresceu, começou a trabalhar como recepcionista e o esporte ficou de lado. Ela, no entanto, sempre quis voltar para o campo. Por isso, o ultimato de Beto virou, na verdade, um incentivo.

Ao longo do relacionamento, o futebol sempre teve um lugar cativo, já que o bombeiro tinha jogo todo domingo. Logo Maria também quis participar do bate-bola. "Eu fiquei um pouco assustado quando ela jogou pela primeira vez. Mas na primeira entrada que a vi dando em um cara, percebi que ela estava em casa", narra Beto.

Aos sábados, o casal organizava, com parentes próximos, jogos em uma quadra no Sesc Interlagos. "Era só eu de mulher. Sempre perguntavam se eu ia mesmo jogar quando alguém chegava para ficar de próximo", diz Maria Amorim. Depois, os mesmos "críticos" ficavam espantados com o jogo dela. "Tem cara que fala que Maria bate melhor na bola do que eu para me provocar. Mas é verdade", afirma Beto.

No entanto, só peladas de fim de semana não estavam sendo o bastante para Maria. Acompanhar o marido nos jogos de futebol do Apache a fez querer competir. Antes adepta do futebol de salão, a dona de casa queria conquistar também o "terrão".

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Em 2016, ela aproveitou que o futebol feminino estava ganhando espaço para criar uma equipe de mulheres. "Comecei a buscar outras jogadoras nas redes sociais", diz. Atualmente, a equipe tem 22 atletas amadoras. Algumas são do bairro, outras de regiões mais afastadas. Elas não fazem treinamento, mas estão sempre dispostas a competir.

Além de liderar o Apache, Maria também criou a Liga Feminina de Futebol Amador, que tem times da região metropolitana de São Paulo. "Para incentivar o pessoal a sempre marcar jogos, fizemos um ranking das equipes femininas. Então, todo domingo queremos ir para o campo para, quem sabe, conquistar uma posição melhor".

Mãe de dois, Maria se divide entre os afazeres domésticos e os de "chefa" do Apache. No dia em que a entrevistamos, ela havia acabado de ser promovida a técnica da equipe master, formada por jogadores homens acima dos 35 anos. Ela sabe que as coisas já estão melhores para mulheres futebolistas, mas quer mais. "O espaço ainda é muito pequeno. Queremos jogar no horário mais disputado, o das 10h da manhã, não o das 15h30, o horário que ninguém quer", afirma.

"Somos tão boas quanto os caras e jogamos depois de todo mundo. Por quê?".

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"Eles não querem que a gente use a mesma camisa"

A partida é formada por dois tempos de 30 minutos, totalizando uma hora de jogo. Assim como o masculino, são onze jogadoras em cada lado do campo. Os embates costumam ser marcados extra-oficialmente entre as líderes de cada time.

As adversárias do Jardim Colombo chegam pelo menos 30 minutos atrasadas. Enquanto o jogo não começa, o campo do Jardim Herplin é tomado pelas crianças da comunidade, que batem uma bola com os pais. No vestiário, as jogadoras do Apache amarram os cabelos e colocam os uniformes, cedidos pelo time masculino. Por isso, as camisas são largas e as bermudas compridas.

A equipe de Parelheiros é uma das únicas que tem um time feminino. "Somos uma exceção, porque os caras não querem que mulheres usem a mesma camisa. Acham que vão estragar a reputação. Por isso, as jogadoras é que precisam se organizar", afirma Maria.

Em campo, os times trocam poucas palavras. Na realidade, o jogo é bem silencioso. A única voz que ouvimos é a de Beto, técnico do Apache, pedindo para elas se movimentarem mais. "Eu não consigo fazer essas mulheres abrirem a boca, pedirem a bola", reclama o bombeiro. Ele aponta uma jogadora e pede para repararmos nos lances dela. "Uma vez ela fez um gol do meio de campo", narra. "A Letícia, se tivesse tido apoio desde criança, era para estar na Seleção", diz.

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Craque e filha de jogador

Letícia Klein, 25, usa o cabelo preso, bem lambido e partido ao meio. Ela é tímida e sorri, envergonhada, quando é abordada para ser entrevistada por ter sido apontada como "a craque do time". A jovem, que trabalha como repositora, diz que começou a bater bola aos nove anos. "Foi algo natural", diz.

O futebol é de família. Letícia é filha de Benê, como é conhecido Benedito Aparecido de Oliveira, que chamou atenção na categoria de base do São Paulo nos anos 1990. Ele deixou a carreira, mas Letícia quis seguir os passos dele. Chegou a fazer algumas peneiras, inclusive para jogar no Santos. "O meu sonho era ser jogadora de futebol", fala.

A repositora diz que não conseguiu ir além no esporte por falta de apoio. "Sofri por não ter um empresário, um olheiro. Ninguém vem na periferia ver mulher jogando futebol. E, sem dinheiro, a gente não consegue viajar para participar das peneiras", afirma. Na família, no entanto, ela diz ter sido motivada a continuar jogando. "Eles têm muito orgulho de mim".

Letícia pode estar no futebol de várzea, mas ela tem comprometimento de profissional. "Treino um pouco todos os dias", fala. O chute potente, segundo ela, é fruto de um esforço diário. "Fico batendo bola contra a parede por pelo menos 40 minutos diários, sempre sozinha", afirma.

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Apoio x preconceito

"Que bonita essa com a bola na mão", grita Gabriela Alves, 27, da beira do campo. A empresária é atacante do Apaches, mas está com o joelho machucado. Isso não a impede de prestigiar as companheiras de time. "É a nossa diversão de fim de semana. Se não estamos no campo, estamos na festa", brinca.

Fora Gabriela e as amigas, alguns rapazes acompanham a partida. Inicialmente, eles até fazem piada, mas mudam o tom ao longo dos dois tempos. "Elas batem forte", comentam. No entanto, são poucas pessoas que estão prestando atenção no jogo. "A comunidade podia prestigiar mais o que a gente faz aqui", fala Gabriela.

Tanto a jogadora como o técnico Beto concordam que dificilmente o time ouve xingamentos dentro de campo. "Eles podem até comentar enquanto estão tomando uma cerveja, mas são preconceituosos no canto deles", diz o bombeiro. "Não deveríamos focar tanto no que eles poderiam falar, na verdade". Os torcedores reconhecem a importância de, em uma comunidade como Parelheiros, ter pessoas engajadas em práticas esportivas. "Quanto mais gente em campo, menos gente na rua".

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"Largo tudo em casa para vir jogar"

No banco de reservas, a bicicleteira Angela Maria Lopes Santana, 40, a mais velha da equipe, não para quieta. "Passa essa bola, loirão!", grita para a colega Jéssica, que veste a camisa número 11. Para irritar a jogadora em campo, a chama pelo nome de batismo e é alvo de um xingamento. "Ela só gosta de ser chamada de 'loirão'", ri.

Angela dá apelido para todas as jogadoras. "Tem uma que chamo de Corpão, tem outra que é a Morena". E qual o apelido de Maria? "Ela não, ela é a 'chefa'", fala, olhando de soslaio para Beto, que está tenso vendo o jogo.

Nascida na Bahia, ela joga futebol desde criança. Em sua terra natal, já atuava no futebol amador, mas está no Apaches desde 2016. Angela se gaba de nunca faltar em nenhuma partida. "Todo domingo a gente joga e é só no copo", diz, brincando sobre a cervejinha que tomam antes e depois do jogo -- e durante, claro, para quem está assistindo.

O marido não gosta de dividi-la com o esporte, mas não a proíbe. "Em casa nem tem conversa. Largo tudo para vir jogar. Ele vê eu me arrumando e pergunta onde vou, digo que estou vindo pro campo", fala. Ironicamente, os dois se conheceram quando Angela estava em ação. "Eu estava jogando e ele assistindo", narra.

O companheiro não costuma assisti-la em ação, mas o filho, Arthur, 6, fica grudado nela. "Ele sempre está comigo no futebol", diz, beijando-o. O menino aparece em todas as fotos que elas fizeram no dia.

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Jogar não é mais crime, mas ainda é proibido

As jogadoras, em geral, têm histórias parecidas: sempre gostaram de bater bola, mas foram recriminadas por isso. "Minha mãe chorava quando me via chegando com a calça arregaçada até o joelho", conta, rindo, Laís Félix Menezes, 26. "Ela falava que a filha dela ia virar sapatão. Só porque eu jogava com os meninos na rua valendo uma garrafa de Dolly."

Maria comenta que, apesar de não existir mais uma lei criminalizando o futebol feminino, as mulheres ainda são castigadas caso queira praticar o esporte.

"Em muitas casas, meninas ainda são proibidas de jogar bola. Só não é mais um crime, mas uma proibição moral"

Gabriela concorda. Ela partilhava do mesmo sonho de Letícia de ser jogadora profissional. As duas fizeram, inclusive, peneiras juntas. "Eu vejo a Ludmilla, da Seleção. Ela também não teve base, como eu. Jogava na várzea. Fico pensando que, se tivesse sido mais motivada, poderia ser eu jogando a Copa".

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"Essa palhaçada de 'jogo de menino'"

O árbitro apita o fim do jogo. A partida acaba 0 a 0. As jogadoras do Apache e do Jardim Colombo se enfileiram para se cumprimentar enquanto o campo volta a ser invadido pelas crianças e cachorros da comunidade. Maria deixa o gramado conversando com uma adversária, falando sobre a Copa da Liga Feminina de Futebol Amador. "A gente deixa a rivalidade dentro do campo porque precisamos nos apoiar", fala a dona de casa.

Cansada e suada, Maria reúne o material que levou para o campo. Ela deve voltar a vestir a camisa do Apache apenas no próximo domingo, mas, durante a semana, continua como "chefa". É que ela organiza um projeto chamado Futvida, que ensina futebol para garotas adolescentes de Parelheiros. Atualmente, a dona de casa dá aula para 17 meninas. "Estou juntando algumas chuteiras usadas para levar para elas não jogarem mais descalças. Uma delas perdeu o tampão do dedão no último treino", narra.

Uma de suas "pupilas" é a própria filha, Ana Luiza Alves Amorim, de oito anos. A garota é goleira na escola e tem todo o apoio dos pais para conquistar os gramados. "Tive que mandar uma cartinha para a escola dela porque a professora não estava deixando ela jogar com os meninos", fala Beto. "Para mim, até os 12 anos, todos os times deveriam ser mistos, para não existir mais essa palhaçada de 'jogo de menino'. Futebol é de todo mundo".

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