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Direitos da mulher

Contra o assédio, festival de música na Suécia proíbe entrada de homens

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Trata-se, segundo os organizadores, de um evento histórico Imagem: iStock

Claudia Wallin

Da RFI em Estocolmo

31/08/2018 18h02

Em protesto contra o assédio e a violência sexual, a Suécia inaugura nesta sexta-feira (31) um festival de música só para mulheres, transexuais e não-binários – pessoas que não se identificam nem como homem e nem como mulher.

O Statement Festival, que acontece até sábado (1) na cidade de Gotemburgo, é uma zona proibida para homens: trata-se, segundo os organizadores, de um evento histórico.

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“Este é o primeiro grande festival de música do mundo sem a presença de homens, e que faz uma denúncia contra todos os abusos sexuais em nossa sociedade. Queremos simplesmente que mulheres, não-binários e transexuais sejam capazes de participar de um festival de música e se sentirem ao mesmo tempo seguros”, diz o comunicado do evento.

Para a criadora do festival, a apresentadora de rádio e comediante sueca Emma Knyckare, é razoável excluir os homens de um festival de dois dias de duração, “uma vez que as mulheres são discriminadas durante todo o tempo”:

“Posso entender as críticas, e o fato de que homens também gostariam de participar do festival. Mas espero que eles possam compreender o propósito maior do festival, e procurar outras atividades interessantes para ocupar seu tempo durante o evento. Creio que a maioria dos homens também gostaria de ver uma mudança na cultura de assédio”, disse Emma Knyckare à rádio sueca.

Agressões e estupros

O festival foi organizado como um ato de repúdio aos crimes sexuais ocorridos em festivais de música do país no verão passado. A edição de 2018 do Bråvalla - o maior festival de música da Suécia - chegou a ser cancelada, por conta de denúncias de quatro estupros e 23 casos de abuso sexual ocorridos em 2017.

“Fiquei aborrecida com o fato de que o foco principal da mídia, ao noticiar os casos de abuso sexual, eram sempre os imigrantes e o álcool, e não os homens em geral”, conta a fundadora do evento.

A ideia de criar o Statement Festival começou a tomar corpo a partir de um tuíte de Emma, em que ela escreveu: "O que vocês acham de criarmos um festival em que nenhum homem possa entrar, até que TODOS os homens aprendam a se comportar?”

Organização solidária

A resposta foi surpreendente. Na campanha de crowfunding lançada para financiar a ideia, a meta era arrecadar 500 mil coroas suecas (cerca de R$ 230 mil) em um mês.

Mas em apenas 21 dias, a contribuição de três mil pessoas tornou o projeto possível. O festival está sendo organizado pela Statement, uma entidade sem fins lucrativos. E a própria direção do festival Bråvalla, que já havia decidido cancelar o evento de 2018, se ofereceu para apoiar os preparativos.

“Mas o objetivo principal é essencialmente conscientizar as pessoas sobre a necessidade de acabar com a cultura do assédio, e fazer com que o Statement Festival não seja mais necessário no futuro”, disse Emma Knyckare ao jornal Göteborgs Posten.

Após o anúncio da criação do festival, sete homens apresentaram queixas ao Ombudsman sueco para casos de Discriminação (DO), que chegou a anunciar uma investigação sobre o caso.

Em uma das queixas, um homem argumentou que não achava justo ser impedido de assistir ao concerto da cantora sueca Frida Hyvönen - ao que os organizadores do festival responderam que ele teria oportunidade de assistir a outros shows da artista.

Recentemente, o Ombudsman afirmou que não seria possível apresentar uma conclusão sobre as queixas apresentadas antes da data marcada para o início do festival.

Proibido para machos

O palco do Statement Festival será uma zona proibida para homens - não só o público, como também os artistas e funcionários da organização do evento, serão compostos por mulheres.

“Não se trata de punir os homens, e sim de dar a mulheres e transexuais a oportunidade de se divertir em um festival de música sem precisar ter medo”, argumentou Emma em declarações à TV sueca.

A única exceção à proibição da presença de homens serão os transexuais masculinos.

“Assim como as mulheres, os homens transexuais são frequentemente vítimas de assédio, violência e ameaças. Formam portanto um grupo extremamente vulnerável, e por isso são bem-vindos ao Statement Festival”, observam os organizadores.

Entre os artistas, participam do festival nomes como Frida Hyvönen, Joy, Beatrice Eli, Maxida Märak e Tami T. Também estarão se revezando no palco algumas das melhores comediantes suecas, como Nour El Refai e Petrina Solange.

“Uma mulher de Kiruna (norte da Suécia) me disse que finalmente ela vai ter coragem de ir a um festival de música, pela primeira vez desde Woodstock (em 1969, nos Estados Unidos). É muito bom saber que podemos passar uma sensação de segurança às mulheres”, disse Emma Knyckare ao jornal ETC Göteborg.

É possível até, diz a fundadora do evento, que o festival já tenha cumprido parte de seu objetivo:

“É difícil afirmar o que for. Mas de qualquer forma, não tenho ouvido falar sobre casos de violência sexual nos festivais de música deste verão na Suécia”.

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