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Direitos da mulher

Militantes feministas rompem tabu e lançam rádio na Arábia Saudita

Tasneem Alsultan/The New York Times
Estudantes sauditas fazem curso de segurança no trânsito na Universidade Effat, em Jidda, na Arábia Saudita Imagem: Tasneem Alsultan/The New York Times

20/08/2018 14h45

“A política e o feminismo estão ligados”, afirma a rádio independente Nsawya FM em sua conta no Twitter. O canal, criado por ativistas, tenta romper com dogmas machistas na Arábia Saudita, que preconizam a eterna tutela masculina sobre a vida das mulheres no país. Em questão de horas, neste domingo (19), a rádio havia sido bloqueada na monarquia saudita. As feministas, no entanto, afirmam desejar continuar a realizar os programas semanais, que versam sobre temas como violência doméstica e direitos das mulheres.

Operando a partir de um pequeno escritório em um país desconhecido, a nova estação de rádio Nsawya FM (Feminismo FM) produz e difunde os programas via internet desde o dia 4 de agosto. Após o terceiro deles, transmitido no último domingo (19), a Arábia Saudita decidiu bloquear sua programação no país. No twitter, uma usuária responde à proibição contando que a “Magic FM” também havia sido bloqueada, porque as autoridades sauditas pregam que “mágicas não podem ser praticadas no Reino”.

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Comparações à parte, a rádio conta hoje com cerca de três mil seguidores na rede social e continua a produzir seus programas mesclando informações e entrevistas. Com uma música árabe melancólica tocando ao fundo, pode-se ouvir uma voz feminina abordando questões como a violência doméstica e a “primazia masculina sobre as decisões femininas” no reino do Golfo. Segundo informações de France Info, a voz da apresentadora “treme de emoção” enquanto ela discute o destino de Sara, uma estudante saudita de 33 anos que, de acordo com a apresentadora da rádio, foi morta por seu irmão porque ela queria se casar com um homem de outra nacionalidade. Segundo a Anestia Internacional, lembra o site da rádio francesa, “as mulheres são privadas de seus direitos fundamentais”.

No Twitter, as responsáveis afirmam que não são “nem um partido político, nem um grupo de oposição”, e que não procuram “confrontações”, mas que “isto não significa que evitarão de ser críticas ou de falar sobre política”. Segundo declarações feitas à BBC, a jovem Ashtar, apresentadora de 27 anos, diz ter começado o projeto “para que as pessoas saibam que nós existimos”. “Somos a voz da maioria silenciosa”, disse à emissora.

Um total de nove mulheres - sete das quais são cidadãs sauditas – além de dois homens, trabalham na produção do programa. Os ativistas convidam potenciais voluntários para contribuírem com os programas, e um endereço de email foi disponibilizado para contatos pela equipe nas redes sociais: nsawya.fm@gmail.com

Ênfase na violência doméstica

Segundo France Info, a pauta das últimas produções da Nsawya FM focou em diversos casos de violência familiar sofridos por mulheres sauditas no país. Além do caso da estudante, o programa abordou o suicídio de Hanan Shahri, que teria morrido em 2013 após ter sido espancada por seu irmão e seu pai, que também foi mencionado. Eles teriam se recusado a deixá-la se casar com seu noivo.

Pelo menos 17 defensores dos direitos humanos e feministas ativistas dos direitos das mulheres da Arábia Saudita foram presos ou detidos desde meados de maio de 2018, segundo a ONU. Vários deles foram acusados de crimes graves, incluindo "contatos suspeitos com partidos estrangeiros", e podem pegar até 20 anos de prisão se forem condenados.

As ativistas decidiram levar a campanha da Nsawya FM para o Twitter, a plataforma de mídia social mais popular da Arábia Saudita, onde as mulheres sauditas são muito ativas. No entanto, muitos sauditas denunciaram as ativistas como "espiões" e "não sauditas", e as descreveram como "espiãs eletrônicas" em uma tentativa de minimizar sua atuação em prol dos direitos das mulheres no país.

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