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Direitos da mulher

Simone Veil, ícone pró-aborto na França, entra para o Panteão de Paris

Philippe Wopjaze via AP
Simone Veil discursa antes de cerimônia em Paris em 2010 Imagem: Philippe Wopjaze via AP

da RFI

02/07/2018 09h25

A França presta uma grande homenagem à Simone Veil neste domingo (1°), grande figura política do século XX, sobrevivente do Holocausto, responsável pela lei que ...

"Uma decisão de todos os franceses": assim classificou o presidente Emmanuel Macron, durante seu discurso, neste domingo, em uma grande cerimônia de homenagem à Simone Veil.

Ícone feminista, seus restos mortais e de seu marido, Antoine Veil, passam a integrar o templo que abriga as maiores personalidades da França, como Voltaire, Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas, Pierre e Marie Curie.

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A cerimônia foi transmitida em cadeia nacional neste domingo e acompanhada por milhares de pessoas que lotaram as ruas do 5° distrito de Paris. Cobertos com a bandeira francesa, os caixões carregando os restos mortais de Simone e Antoine Veil entraram no monumental Panteão na presença de grandes representantes políticos, dos filhos e netos do casal.

Eles repousarão em uma cripta ao lado de Jean Moulin, André Malraux, René Cassin e Jean Monnet "quatro grandes personagens de nossa história", classificou Macron, "que foram, como ela, mestres da esperança". 

Nos últimos dois dias, os caixões de Simone e Antoine Veil puderam ser visitados na cripta do Memorial da Shoah em Paris, do qual a própria ex-ministra foi fundadora e presidente, de 2001 à 2007.

Desde sua morte, em 30 de junho de 2017, as autoridades francesas se mobilizaram para prestar homenagem desta que é um símbolo incontestável para os franceses. Ruas, praças e uma estação da linha 3 do metrô de Paris, passaram a levar seu nome.

De imortal à eterna

Eleita para a Academia Francesa em 2010, Simone Veil já era, desde então, uma "imortal". Mas com a transferência de seus restos mortais ao Panteão, ela se torna uma "eterna", como são chamadas as personalidades que repousam no local. 

De todos os pontos de vista, Simone Veil traçou um caminho fora do comum e exemplar para uma mulher de sua época.

Sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, para onde foi deportada com toda a sua família aos 16 anos, e onde morreram os pais e o irmão, a francesa nascida em Nice, no sul do país, lutou a vida inteira contra as injustiças e pela igualdade de direitos. 

Essa batalha levou do Holocausto para dentro de sua própria família. Na época Simone Jacob, a jovem conheceu o marido, Antoine Veil, na prestigiosa Science Po de Paris, em fevereiro de 1946; ela com 18 anos, ele com 19. Apaixonados, eles se casaram oito meses depois, tiveram três filhos e passaram 67 anos juntos, até a morte de Antoine, em 2013.

A vida conjugal, no entanto, começou a se construir em torno da carreira diplomática de Antoine Veil, nomeado para trabalhar na Alemanha, onde Simone Veil o acompanhou. Pouco favorável que a mulher trabalhasse, Antoine não aprovou que a esposa se tornasse advogada.

Mas a jovem perseguiu seus ideais com determinação, levando na memória a própria do oposição de seu pai que sua mãe pudesse ter uma carreira profissional.

Na Chancelaria de Paris, sua capacidade de trabalho não passou despercebida e Simone Veil se tornou, em 1970, a primeira mulher designada à secretária-geral do Conselho Superior da Magistratura. Foi onde o então primeiro-ministro Jacques Chirac a conheceu e a nomeou ao Ministério da Saúde da França.

Da primeira mulher a ocupar a pasta da Saúde, Simone Veil se torna, em 1979, a primeira presidente do Parlamento Europeu, de 1979 à 182. Em 1993, torna-se a primeira francesa a ocupar o ministério do Estado. Em 2010, no final de sua vida, passa a ser a sexta mulher a ser eleita para a Academia Francesa. 

Legalização do aborto, a "Lei Veil"

Apesar da grande lista de conquistas, a maior delas foi a legalização da interrupção voluntária da gravidez na França. A lei entrou em vigor oficialmente em 19 de janeiro de 1975, durante o mandato do presidente Valéry Giscard d'Estaing, após meses de virulentos debates.

A aprovação do texto foi o resultado de um esforço conjunto de vários setores da sociedade, que enfrentaram o conservadorismo, uma grande ofensiva da igreja e uma forte oposição por parte até mesmo dos integrantes do governo Giscard d'Estaing. 

O combate, no entanto, foi liderado por Simone Veil. Não por acaso, a lei é conhecida até hoje como "Lei Veil". A árdua batalha foi detalhada em seu livro de memórias, "Une Vie" (Uma Vida), publicado em 2007.

No texto, a ex-ministra conta que, na época do debate da lei, seu prédio foi pichado com a cruz suástica, além de ter sido frequentemente insultada nas ruas e seus filhos terem sido alvo de violências.

As agressões antissemitas não vieram apenas por parte de opositores do aborto nas ruas. No Parlamento francês, formado na época por 481 homens e nove mulheres, após um debate de 25 horas, no qual foi sofreu uma torrente de acusações, ouviu alguns legisladores compararem a interrupção voluntária da gravidez ao Holocausto. 

Outros episódios marcaram o debate, como do então deputado de direita René Feït, médico ginecologista, que veiculou para toda a Assembleia sons de batimentos cardíacos de um bebê na barriga da mãe.

Ele foi o mesmo a defender que, se o projeto fosse aprovado, faria, a cada ano, "duas vezes mais vítimas que a bomba de Hiroshima. Um outro parlamentar chegou a defender sua posição contra a legalização do aborto exibindo um feto morto dentro de um vidro cheio de formol. 

"Nunca imaginei o ódio que eu iria desencadear", disse a ex-ministra da Saúde depois da aprovação da lei. Anos depois, Simone Veil entraria para a lista das personalidades mais admiradas pelos franceses, ocupando por anos consecutivos os dez primeiros lugares e, em 2016, a segunda colocação. 

Ao ser questionada pouco antes de sua morte se os ataques que sofreu a desmotivaram, respondeu: "Não, nunca perdi minha confiança e desisti. Tudo aquilo me incentivava, me dava forças para vencer. E acho que, definitivamente, esses excessos me ajudaram", reconheceu. 

No entanto, nunca deixou de dividir sua grande conquista - que a tornou um ícone feminista - com um homem. "Me dizem frequentemente que eu encarno a causa das mulheres. Elas têm consciência do que eu fiz por elas, batalhando pela lei que autorizou a interrupção voluntária da gravidez.

Mas essa lei também devemos a um homem, Valéry Giscard d’Estaing", defendeu, em uma entrevista. Na época, o presidente da República foi a pessoa que mais apoiou Simone Veil em seu combate. 

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