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Mães e filhos


Mães e filhos

Elas foram doadas pelas mães: "Minha vida teria sido pior se ficasse"

Arquivo pessoal
A analista em telecomunicações Janaina Zambzickis foi adotada por Maria da Luz Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

2019-06-24T04:00:00

24/06/2019 04h00

Ana Cleide Mendes Barros, de 33 anos, e Janaína Zambzickis, 42, foram doadas por suas respectivas mães ainda muito novas. No Tocantins, a família de Ana, hoje auxiliar administrativa, não tinha condições financeiras para sustentar sete crianças. A família de Janaína, que hoje é analista de telecomunicações, não queria mesmo criá-la. "Não tinha amor", justifica a fluminense, criada em Caxias (RJ) -- ela foi doada junto com a irmã gêmea, Soraia. As duas afirmam entender as mulheres que, independentemente do motivo, escolhem doar seus filhos.

A lei ampara a mulher que não quer ou não pode criar o filho: no momento em que a mãe toma a decisão, ela deve procurar a Vara da Infância e da Juventude e manifestar sua vontade. Haverá um acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais. Após a entrega da criança, ela pode ainda se arrepender até 10 dias depois de publicada a sua decisão. Mas esse arrependimento não significa que a criança necessariamente voltará para ela -- é a justiça que vai analisar a situação. Uma vez entregue, a Justiça aciona o cadastro das pessoas que estão na fila de adoção. A mãe não vai saber para onde o bebê será levado. Também não poderá escolher com quem ele ficará. Isso, aliás, é crime.

Mas lá atrás, há 40 anos, era comum a chamada "adoção à brasileira", em que famílias combinavam entre si o cuidado com a criança. Foi o que aconteceu com as mulheres cujos relatos você lê agora

"Nunca tivemos raiva da minha mãe biológica"

A mãe de Janaína engravidou dela e de sua irmã gêmea, Soraia, aos 19 anos. Ela morava em São João de Meriti, região de classe média baixa na Baixada Fluminense. O pai das crianças já tinha uma noiva, e morava em São Paulo, mas concordou em assumir a paternidade. Só que a mulher não quis, já que não seguiria com o relacionamento e, frustrada, prometeu "dar cabo" nas crianças assim que elas nascessem, caso ninguém as adotasse. Foi aí que entrou a família Souza:

"Quando soube da nossa gravidez, minha mãe nem pré-natal fez. Só descobriu que esperava gêmeas na hora do parto. Eu e minha irmã nascemos muito magrinhas, e ficamos dois meses na incubadora para ganhar peso. Ela não quis nem nos amamentar.

Na época, minha mãe biológica trabalhava num supermercado com uma das minhas irmãs de criação. Essa irmã vivia ouvindo da minha mãe que estava procurando uma família para ficar com a gente, senão iria nos abandonar no hospital ou cometer alguma loucura. Minha irmã adotiva então pediu para a mãe dela ficar conosco, mesmo já tendo 12 filhos. Mas ela aceitou. Sua filha mais nova estava com 5 anos, e de tanto estimular, ela conseguiu nos amamentar.

Mesmo vivendo com muita humildade, minha mãe Maria da Luz, que lavava roupa para fora, e meu pai, seu Antônio de Souza, que carregava caixas numa distribuidora de bebidas, nos acolheram e nunca deixaram nos faltar nada. Recebíamos muita ajuda também dos vizinhos. Minha mãe de criação viveu até seus 86 anos. Ela faleceu esse ano. O nosso pai adotivo morreu aos 84, há 16 anos.

Eles deram a oportunidade para nossa mãe biológica conviver conosco, mas ela só nos visitou até nossos 4 anos de vida. Depois sumiu. Meu pai descobriu onde estávamos e nos visita até hoje. Ele tem uma filha de 28 anos e sempre a vejo.

Soubemos da nossa história aos 8 anos de idade. Achamos que a mulher que nos visitava era uma tia, não nossa mãe biológica. Em nenhum momento fiquei revoltada ou com vontade de ir atrás dela. Quando tínhamos 17, por um acaso, uma das nossas irmãs achou a família dela e promovemos um encontro. Ela não casou nem teve filhos.
Fizemos um almoço na casa da minha avó materna biológica e nos receberam muito bem. Depois foi a vez de fazermos na nossa casa. Ela foi e depois desapareceu mais uma vez.

Minha irmã engravidou e ela soube que teve um netinho, mas não a procurou. Hoje ele tem 24 anos. Eu também tenho um filho, de 9, mas ela não sabe.

Arquivo pessoal
Janaína com a mãe adotiva, a irmã gêmea e o filho Imagem: Arquivo pessoal

Nossa mãe biológica não nos aceitou mesmo em sua vida. Mas não temos mágoa. Fomos criadas com muito amor e isso que conta.

Eu tive muita dificuldade para engravidar. Recebi o diagnóstico de que não poderia ser mãe de forma natural porque não ovulava. Entraria na fila de adoção se a inseminação que eu e meu marido pensamos em fazer não desse certo. Mas contrariei a medicina e não precisei de tratamento para ter o Pietro. Por isso defendo a doação nesses casos: entregue para alguém que vai dar amor, porque no fim das contas muitas colocam a culpa na situação financeira, mas no geral é falta de amor. Se você ama, vai parar debaixo da ponte junto ao seu filho."

"Foi difícil de aceitar no início"

A auxiliar administrativa Ana Cleide Mendes Barros, de 33 anos, nasceu em Porto Nacional, uma cidade de pouco mais de 52 mil habitantes no Tocantins. Ela é a quarta de sete filhos de Maria Mendes Barbosa, de 58, uma mãe solo que deixava as crianças com parentes para trabalhar no garimpo. Numa dessas ocasiões, Ana Cleide se feriu gravemente com água quente, e Maria a encontrou com queimaduras de terceiro grau. Ana não tinha completado 4 anos. Ao tomar conhecimento da situação, uma tia levou a menina para sua casa, no Pará. O combinado era bancar seu tratamento por um ano, e devolvê-la assim que a criança apresentasse uma melhora, mas ela não voltou mais.

"Foi quando a minha história realmente começou. Eu me lembro dessa tia, Joana, falando: 'Quando a gente chegar em casa, eu vou chamar meu marido, o Jorge, e você vai perguntar se ele te quer. E se quiser, você vai morar conosco'. Chegamos numa zona rural, numa fazendinha bem simples. Encontramos o Jorge numa estradinha que iria em direção a uma roça, e perguntei: 'Pai, o senhor me quer?' Ele se abaixou, me abraçou e disse: 'Quero sim'. Eu me emociono toda vez que lembro desse episódio. A partir desse dia ele me chamava de menininha do pai.

Um ano se passou e minha tia cumpriu o que prometeu. Ela me levou de volta a Porto Nacional, mas no fundo não queria me entregar. Ao chegar em casa, minha irmã de 7 anos começou a chorar querendo ir embora também. Minha mãe biológica então pediu para minha tia ficar com a gente.

Arquivo pessoal
Ana Cleide com a mãe biológica: contato até hoje Imagem: Arquivo pessoal

No começo, eu senti raiva dela, não queria muito contato, porque eu não entendia o fato de ter ido morar com outra família.

Achei que minha mãe tinha abandonado a gente, e a tratei mal no início, apesar de ter nos visitado sempre.

Lembro que numa dessas ocasiões ela levou um colarzinho e um par de brincos pra gente, de presente, e eu não queria aceitar. Mas o tempo foi passando e hoje nos falamos todos os dias. Eu e minha irmã moramos com nossa tia até a gente se casar, e ainda vivemos perto deles. Eles são a minha base, o meu orgulho. E a minha mãe biológica é a minha rainha, guerreira, tão forte e tão sofrida. Ela carrega no corpo muita marca de sofrimento e tem nos olhos uma tristeza imensa.

Arquivo pessoal
Ana Cleide com o filho e a mãe adotiva Imagem: Arquivo pessoal

Meu filho hoje tem 8 anos e depois que me tornei mãe entendi seus motivos: tínhamos um lar desestruturado, minha avó era alcoólatra. Minha vida teria sido pior se ficasse".

"Faria tudo de novo"

No intervalo de seu trabalho como doméstica, Maria, a mãe de Ana Cleide, falou à Universa, e do outro lado da linha emocionou-se ao relembrar o passado. Ela conta que passou fome, dormiu no mato, carregava os filhos para a lavoura quando não tinha ninguém para olhá-los. Sofreu alguns abortos espontâneos e não teve por perto nenhum pai de seus filhos. Mas nunca pensou, conta, em interromper uma de suas gestações.

"Faria tudo de novo pelos meus filhos. Doeu o coração ficar longe das meninas, mas quando vi a Ana Cleide bem cuidada, arrumadinha, depois de ter passado um ano com a tia, não podia deixá-la levando a mesma vida que eu. Faria tudo de novo".