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Letticia Munniz: "Humor quebra quem acha feminismo coisa de mulher louca"

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Letticia Munniz quer que todo mundo jogue como uma garota Imagem: Divulgação

Mariana Kid

Colaboração para Universa

2019-06-18T04:00:00

18/06/2019 04h00

Letticia Munniz tem mais de 300 mil seguidores no Instagram. Ela é comediante, fala muito de body positive e, mais recentemente, tem vestido a camisa da seleção feminina de futebol para defender, do lado de fora do campo, que homens e mulheres tenham direitos iguais no esporte.

A capixaba de 29 anos deixou o Espírito Santo aos 19 para estudar em São Paulo, fez Radio e TV, estudou teatro, trabalhou na MTV com quadros do humor, foi recusada para o Porta dos Fundos (mas ganhou do diretor o valioso conselho de fazer Stand Up e se dedicar a produzir conteúdo na internet). Ficou com aquilo na cabeça e um dia teve o estalo de responder perguntas sobre relacionamento nas redes sociais como se soubesse tudo do assunto. "Era uma piada, eu nunca tinha sequer namorado", ela conta.

Danielle Sampaulo/ Divulgação
Imagem: Danielle Sampaulo/ Divulgação

A piada colou como verdade e ela passou a receber muitas mensagens. Assim, sua carreira de influencer decolou. "As pessoas realmente acreditaram que eu entendia tudo de relacionamento e eu não parava de receber mensagem. E as minhas respostas eram muito empoderadoras, muito feministas -- e eu nem sabia que era feminista", ela diz. Foi aí que Letticia percebeu um talento para falar sobre mulheres de uma maneira engraçada e quebrar essa parede com as mulheres e as pessoas que odeiam o feminismo. "Consigo, com humor, falar sem apontar o dedo na cara de ninguém. Então as pessoas param para escutar."

Treinos quinzenais para mulheres

Com esse batalhão "parando para ouvi-la", ela decidiu abraçar outra causa: o futebol feminino. "Por que a gente valoriza a Copa do Mundo masculina e eu não faço a menor ideia de onde eu estava na Copa do Mundo feminina? Essas jogadoras merecem que a gente saiba o nome delas, o rosto delas. Que nos identifiquemos com cada uma e saibamos suas histórias. Porque elas são muito guerreiras e merecem tudo", diz.

Assim surgiu o projeto "Jogue como uma garota". Em treinos quinzenais convocados em suas redes sociais, a ideia é ocupar espaços públicos e colocar qualquer mulher para jogar bola. "Podemos nos divertir. Sempre digo que a atividade física pro homem é diversão e para a mulher é obrigação. Porque existe a obrigação com o corpo, com emagrecer, de ficar com a bunda assim, com a barriga assado", afirma.

O corpo, aliás, é uma de suas bandeiras. Letticia usa manequim 46 e garante que só descobriu recentemente que era bonita. "Tenho peito grande, bunda grande, cintura fina? então na cabeça das pessoas é um corpo padrão e eu nunca passei por nada. Quando as pessoas olham meu corpo e acham bonito, elas associam ao magro. Dizem que não uso 46, que eu estou mentindo. Nunca disse que era plus size ou que era gorda. Falo de mim, das minhas experiências, do que eu vivi com o meu corpo. E sendo uma mulher 46, como é me vestir, como é achar roupa, como é me achar bonita. Falo do que é meu", ela desabafa. Veja trechos da entrevista:

Universa: Como é ser porta-voz dessa galera jovem que se inspira em tudo que você faz? A responsabilidade é muito grande?

Letticia: Eu não me sinto porta-voz. Acho muito ruim esse termo influenciar, nunca gostei. Acho que é porque remete muito ao que era a Internet antes. As pessoas que eram chamadas de influenciadoras eram as que te influenciavam a comprar coisas: compra essa roupa, vai nesse salão, faz essa viagem. E para mim isso é vazio. Agora eu percebo que eu influencio comportamentos. Me sinto uma representante do que as mulheres gostariam de dizer, mas as pessoas não estão ouvindo. Acho que na verdade eu estou aí para ser a mulher que as mulheres gostariam de ter como referência, porque a gente não quer a musa fitness maravilhosa que malha todo dia e tem uma vida perfeita, porque ninguém tem. As pessoas escutam o que eu falo. E elas só escutam o que eu falo graças a todas essas pessoas que me fazem ser ouvida.

Já teve problemas em se aceitar do jeito que era?

Passei por muitos distúrbios alimentares na minha adolescência porque não existiam referências. As referências eram as magras. Então tentei muito ser quem eu não era. E não consegui. Tive bulimia, fui viciada em laxantes, todas essas coisas. Quando a Internet começou a mostrar todas essas coisas, conheci a modelo Ashley Graham. Foi aí que eu vi o quanto ela era linda, e descobri que usamos o mesmo tamanho de roupa. Aí eu pensei: 'eu acho essa mulher a mais linda do mundo então como eu posso achar o meu corpo feio?' Percebi que isso dava muito certo e decidi fazer o mesmo para outras mulheres. Hoje em dia não é uma tentativa de influenciar os outros. Sou eu sendo sincera. Porque eu me acho muito linda e maravilhosa e fico postando porque me acho mesmo. Demorei 29 anos para me achar linda. E hoje que eu acho, quero mostrar.

Qual a importância de discutir com humor assuntos como violência doméstica, igualdade de gênero e empoderamento feminino?

O humor quebra essa parede com as pessoas que não querem ouvir, com as pessoas que acham que feminismo é coisa de mulher louca, de sapatão, que não depila. O humor consegue quebrar isso. Acho que ele é uma arma muito poderosa para tudo. O humor é o que faz as pessoas me ouvirem. Se eu não estivesse falando dessa forma, elas não iriam me escutar. Então é você ganhar ali e fazer com que ela te escute para você falar de uma coisa importante e ela de fato te escutar.

Já sofreu preconceito por ser mulher e comediante?

Sofri muito. Para fazer um show você precisa pedir pro dono do show, que normalmente são homens. Se já tiver outra mulher não deixam você fazer porque show de mulher é ruim. Muitas vezes já entrei no palco tendo que ouvir as piores coisas possíveis, porque o comediante que vem antes de você te chama. Então já entrei ouvindo coisas como: agora vou chamar ela, que eu queria comer. E aí você chega no palco com um outro mood que não é o que você deveria estar, porque você está puta. É muito difícil ser mulher no humor. O público é muito machista, ele gosta de piadas machistas. Se você for ver em muitos shows de stand up as piadas são machistas e as pessoas amam. Eu admiro muito as que estão aí na luta fazendo shows. Tenho amigas que continuam. Não faço mais porque não quis ficar passando por essas coisas.

Você foi criada pela sua mãe e sua avô. Não ter uma figura paterna presente foi decisivo?

Muitas pessoas têm um pai maravilhoso, uma figura masculina muito maravilhosa e aí você acaba achando que é isso. Tudo está lindo. Mas justamente por eu ter visto duas mulheres muito guerreiras criando filhos sozinhas e tendo que trabalhar muito sem parar e sem nem ter tempo para eles, porque assim que é o mundo em sua maioria, cresci com essa noção de realidade um pouco maior. Por isso consigo ver mais do que o meu próprio quintal. E é isso, às vezes temos a tendência de não se colocar no lugar do outro. E como eu cresci já vendo que essa é a realidade de muitas famílias, consegui ter um pouco mais de empatia. Consegui abrir mais a minha mente para entender que não é tudo lindo, incrível e perfeito.

Quando você percebeu que era ouvida pelas redes sociais?

Com o Lele responde meus seguidores começaram a crescer muito e percebi que apesar do humor ser essa barreira que quebra, depois de um tempo as pessoas que me seguiam estavam evoluindo e se desconstruindo junto. Eu não precisava ficar só na piada. Comecei a falar de assuntos mais sérios, como assédio e outras lutas femininas. E óbvio que não é todo mundo que recebe 100% bem. Tem gente que reclama e diz que aquilo que você está falando não tem nada a ver, principalmente em temas mais polêmicos, como aborto. Mas comecei a perceber que as pessoas se sentiam representadas pelo que eu dizia e elas queriam que eu dissesse mais e mais, para poder legitimar o que elas pensavam, ou para aprenderem mais. E quando as marcas foram chegando, foi o momento que tudo fez sentido. Porque você precisa trabalhar e fazer dinheiro. Só que quando uma marca se alia ao meu discurso ela quer que você a represente. E isso é muito poderoso. Eu recebo sempre muita mensagem, muito comentário, porque é sempre isso, as mulheres estão realmente sentindo que aquilo representa elas e não a mulher bonita da revista, que tem seu espaço também. Mas as mulheres querem mais. Elas cansaram de só ver isso.

Você sempre gostou de futebol?

Nunca tive muito contato. Como a minha família é de mulheres, nunca esteve presente na minha casa. Só o meu irmão que jogava, que ganhava bola, que fazia escolinha. Eu quis muito uma época, pedi para ir na escolinha do meu irmão, mas cheguei lá e não me senti bem-vinda, fiquei envergonhada. Não tinha escolinha de meninas. Na escola o futebol era sempre dos meninos e o vôlei das meninas. Então nunca foi presente na minha vida, nunca tive nem time.

E de onde saiu esse projeto?

O futebol surgiu na minha vida no ano passado em um evento da Nike, era perto da Copa, e eu me diverti muito e comecei a me questionar porque só aos 29 anos eu fui me divertir com o esporte. Por que a gente parava para ver a Copa do Mundo masculina e eu não faço a menor ideia de onde eu estava na Copa do Mundo feminina? Comecei a me questionar muito e foi daí que o futebol feminino entrou na minha vida porque eu decidi que precisava fazer alguma coisa para mudar essa realidade das mulheres, sejam elas mulheres que queiram ser atletas profissionais, que lutam para ser atletas, sejam meninas que simplesmente têm o direito de jogar, ou mulheres adolescentes, ou da minha idade ou até mais velhas que só querem se divertir com as amigas jogando futebol. Porque os homens se divertem com os amigos jogando futebol, porque a gente não pode, sabe?

Qual o objetivo do projeto "Jogue como uma garota"?

São treinos gratuitos para mulheres de todas as idades e acontecem normalmente a cada 15 dias. Tenho 4 treinadoras. A gente faz toda a parte física, técnica e depois jogamos. Porque é para as mulheres deterem conhecimento e não apenas irem jogar. Sempre fazemos em espaços públicos porque lutamos para que as mulheres também ocupem esses espaços. Que a gente também tem esse direito, sabe? E que possamos nos divertir. Convidamos sempre mulheres que não necessariamente jogam. Temos mulheres que calçaram uma chuteira pela primeira vez na vida com 35, 40 anos. Então é para que elas saibam que tudo bem, o esporte não entrou na sua vida quando deveria, mas que ainda dá tempo.

Por que é importante falar de futebol feminino?

Tivemos muitos espaços negados historicamente por muitos e muitos anos e até hoje tudo é muito difícil. Então você pensa que até pouquíssimo tempo atrás era proibido por lei porque era um esporte considerado masculino. E qual o sentido disso? É um absurdo. Então óbvio é tudo muito atrasado. Na seleção masculina, aqueles meninos começaram a jogar bola com 5 anos. As meninas começam a aprender mesmo com 15. E é óbvio que é diferente, é óbvio que tudo vai ser mais difícil. Tudo delas é menos, a estrutura é menor, o salário é infinitamente menor. A visibilidade? Falar disso é unir as mulheres. É lutar junto por alguma coisa.

Quais os planos futuros?

Espero poder mudar muita coisa. Não só no futebol, mas em muitos aspectos relativos às mulheres. E apesar disso eu sou atriz, sou humorista, quero muito fazer TV, cinema. Mas nunca vou deixar de lado as lutas que puder comprar. Acho que todo artista que tem voz, que é ouvido, precisa falar. Precisamos lutar para mudar, porque temos força.

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