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Violência contra a mulher


"O que ela fez para apanhar?": por que fazer essa pergunta é errado

Getty Images/iStockphoto
A Universa explica para o leitor dúvidas sobre feminicídio Imagem: Getty Images/iStockphoto

Luiza Souto

Da Universa

2019-05-07T04:00:00

07/05/2019 04h00

Quando uma mulher sofre violência doméstica, a culpa não é dela. Independentemente do que ocorreu entre quatro paredes, ela -- nem ninguém --, merece apanhar ou morrer. Parece óbvio, mas para muitos ainda restam dúvidas. A gente está aqui para explicar.

No dia 24 de abril relatamos o assassinato da advogada criminalista Angelina Silva Guerreiro Rodrigues, de 42 anos e casada havia duas décadas. Deste relacionamento, teve um filho. O marido, Nilson Aparecido Rodrigues, a golpeou dezenas de vezes com uma faca no rosto, pescoço e cabeça, dois dias antes da reportagem.

Contamos que ele já tinha histórico de violência e feminicídio. Uma sobrinha afirmou que Angelina sentia pena dele. Talvez por isso, e pelo fato dela ser advogada, alguns leitores se sentiram confortáveis em comentar que a vítima buscou pelo seu fim.

"Criminalizar a vítima é cruel, mas precisamos assumir a verdade. Se submeter a um relacionamento abusivo com um marido que já tinha assassinado uma companheira e tinha diagnóstico de problemas psiquiátricos nada tem a ver com bondade. O perfil da vítima sugere, possivelmente, problemas de autoestima e a reprodução de maus tratos e violência vividos na infância ou adolescência", escreveu um leitor no UOL.

A cada 7,2 segundos, uma mulher é vítima de violência física, de acordo com os Relógios Maria da Penha. E os maiores índices residem no ambiente que deveria ser sinônimo de proteção, o doméstico. Metade dos feminicídios (50,3%) é provocado por familiares, sendo 32,3% cometidos por parceiros ou ex-companheiros das vítimas.

Vítima de qualquer tipo de crime busca por qualquer coisa, menos pelo seu fim. Dentro dessa procura, por exemplo, está a de tentar fazer o casamento dar certo. A mulher, quando sofre uma violência, não quer o companheiro preso inicialmente, mas que ele mude. Quem explica é a diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, a pesquisadora Marisa Sanematsu. A organização feminista é referência nos campos dos direitos das mulheres e da comunicação.

"A vítima acaba se apegando à ideia de que pode mudar esse companheiro agressor, mas muda suas próprias atitudes, por medo da violência. O que a gente percebe é que a mulher faz todos os esforços para tentar continuar e resolver o problema", ensina a pesquisadora.

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Imagem: Reprodução

Ela fala das dificuldades de sair de um relacionamento. E isso tem muito a ver com a forma como a mulher é criada. É cultural ser educada a ter o sonho de encontrar alguém, recaindo sobre si o peso de manter a relação. Por isso, é dispensável perguntar por que a vítima ficou tanto tempo ao lado de seu agressor.

"A gente já realizou pesquisas em que a maioria apontou a mulher como a responsável pela manutenção e harmonia do lar. Quando não dá certo, portanto, ela mesma se cobra e acha que está fracassando na missão".

Talvez essa explicação ajude o leitor a responder outra indagação sua. Num trecho de seu comentário, ele escreve:

"Uma advogada criminalista que ascendeu socialmente sozinha se casa com um homem violento, um criminoso, desequilibrado, aposentado por invalidez e que tem com a esposa uma relação de dependência de mãe e filho...E tanto Angelina como a família fazem de conta que nada está acontecendo, mesmo com todas as agressões".

Marisa tem uma teoria diferente desse faz de conta que o leitor sugere:

"Essa mulher entrou na relação porque tem afeto pelo companheiro. É muito difícil desistir desse amor. E existem questões que são os filhos, e eles fazem com que a mulher pondere sobre os impactos desse término. Ela vai tentar todos os caminhos possíveis para tentar resolver".

Quanto à família, muitas nem sabem o que realmente está acontecendo com o casal. E se a mulher pertencer a uma classe econômica mais alta, tiver um nível de instrução elevado, ela se sente mais envergonhada, culpada e inibida de se abrir para alguém, conforme conclui a pesquisadora.

O leitor termina sua opinião falando justamente dessa questão familiar. Ele destaca que o casamento de Angelina durou 20 anos e pergunta "em que planeta as pessoas estavam para não saber como histórias como essa terminam? Deixo essa pergunta para todas as mulheres e suas famílias porque essa reflexão precisa ser feita".

A especialista ajuda nessa reflexão:

"O homem não gosta de ser contrariado, e quando é, quando a mulher, por exemplo, tenta deixar o casamento, ela corre mais risco de ser assassinada. O que está faltando é ver e tratar o outro com respeito".