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De dia ele é o executivo Fernando. De noite, a drag Mama Darling

Montagem/Mariana Pekin/UOL
Imagem: Montagem/Mariana Pekin/UOL

Camila Brandalise

Da Universa

2019-02-26T04:00:00

26/02/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Fernando Magrin ocupa um cargo de executivo na filial brasileira da American Airlines
  • Seu outro trabalho é o de drag queen, quando encarna Mama Darling
  • "Ela é uma mãezona, mas é safada: dá selinho em todo o mundo"

Executivo na filial brasileira da American Airlines, uma das maiores companhias aéreas do mundo, Fernando Magrin, que também é a drag queen Mama Darling, ouviu há alguns anos de um ex-namorado: "Por que você sempre se veste de mulher?"

Refaço a pergunta para ele, em sua casa, no centro de São Paulo, um pouco antes de começar uma maratona de "montação". "Porque eu adoro, acho lindo me maquiar, usar roupas femininas, brincar de boneca. Era assim desde criança", diz Magrin, de 54 anos. "Só continuo fazendo o que gosto."

E aí veio um Carnaval, o de 2016, e Mama Darling virou uma personagem com nome e sobrenome para sair em um bloco de rua. Hoje, ela anima festas de empresas, encontros de amigos, confraternizações de fim de ano. Já foi jurada de concurso de drags. Também organiza o Baile da Mama, festa que ela criou e é realizada em diferentes lugares de São Paulo --só em 2018, foram quatro edições. 

Em 2019, vai estrear o Bloco da Mama, na terça-feira (5) de Carnaval. Depois, quer se dedicar a melhorar suas piadas e criar um show fixo, no estilo stand-up comedy. "Mas sem dublar música ou dançar. Meu negócio é fazer palhaçada." O cachê que é de R$ 500 --inclui apresentação e presença em eventos, por cerca de uma hora. 

Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Make, salto 15, peruca

É hora da "montação" para um evento de pré-Carnaval. Começa pela maquiagem: base, pó, sombra rosa para esconder a sobrancelha e lápis preto para desenhar outra por cima, mais arqueada e quase no meio da testa. Cílios postiços, blush, batom. Tudo rosa. O vestido lembra uma bola de sorvete de morango com confeitos coloridos, como se estivesse derretendo na casquinha. Da cama baú, ele tira os peitos de silicone. A sandália com salto de 15 cm faz Magrin chegar a 1,96 m, e a peruca alta, à la Marge Simpson, só que rosa, faz com que ele fique maior ainda. Ele, não. Agora é ela.

Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

O nascimento da Mama

A vida de drag começou em 2016. Magrin e um ex-namorado decidiram criar um bloco de Carnaval LGBT para os amigos, "umas 100, 200 pessoas". A ideia era carregar uma caixa de som portátil, com rodinhas. Ele pegou uma peruca rosa que estava dando sopa em casa, de outros carnavais, arrumou um vestido da mesma cor e foi. "Que linda, como é seu nome?", ele ouvia no bloco. Não tinha resposta. O evento foi muito maior do que o esperado: a prefeitura calculou 15 mil pessoas presentes no bloco Minhoqueens --um sucesso que o fez querer investir na personagem. 

O nome vem do filme "Grey Gardens" (2009), sobre uma tia e uma prima da ex-primeira-dama americana Jackeline Kennedy que viviam uma vida de luxo e, depois, ficam miseráveis, mas presas ao passado. No filme, a filha se refere à mãe como "mother darling", algo como "mãe querida". "Queria esse nome, mas não ia dar certo falar isso aqui, 'módadálin', ninguém ia entender", explica, pesando o sotaque adquirido em um intercâmbio na Califórnia aos 17 anos. E aí "mother" virou Mama. "Ela é a mãezona mesmo, normalmente a mais velha das festas. Briga, dá bronca, mas também é safada: adora dar selinho em todo mundo." 

Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Na época, Magrin se reportava, no trabalho, para o escritório da American Airlines em Miami e, por isso, viajava, no mínimo uma vez por mês para os Estados Unidos. Aproveitava para comprar vestidos e perucas mais baratos do que aqui, e tudo rosa. Hoje, seus trajes são confeccionados por um costureiro de São Paulo.

E no escritório?

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"Nunca tive problema no trabalho. Pelo contrário: eles adoram". E não é papo para não se complicar na empresa. A própria American Airlines pede a Magrin que se apresente em seus eventos. Já foi anfitriã de encontros entre funcionários e se vestiu algumas vezes de bruxas da Disney para ações em parceria com a ONG Make a Wish, que ajuda crianças com doenças graves.

Na companhia aérea desde 1996, começou recepcionando passageiros VIPs. Resolvia tudo, de comida a encaixe de voos. "Naomi Campbell me adorava, porque eu sempre conseguia um voo em cima da hora para ela." Em sua função atual, como gerente de novos negócios, é responsável por fechar contratos com empresas de pequeno e médio porte. Visita outros executivos, usando terno e gravata, e apresenta os programas de fidelidade empresariais da American Airlines.

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A vida no mundo corporativo veio depois de frustrações com a carreira de ator. Natural de Nova Odessa, a duas horas de São Paulo, Magrin cursou Artes Cênicas na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Jornalismo na PUC (Pontifícia Universidade Católica) --na segunda carreira, o máximo que fez foi um "jornalzinho" para uma diocese de Campinas, "e só porque namorava o padre da paróquia". Mas, na primeira, quis investir.

Conseguiu fazer um comercial para a Brahma na capital paulista, mas não teve mais contratos depois. Tentou o teatro, foi chamado para fazer uma peça espírita, baseada em um livro do médium Chico Xavier, mas foi um fiasco. "Quando fomos nos apresentar, descobrimos que o homem que nos contratou só investiu na peça porque acreditava ser o espírito reencarnado do protagonista. E ainda deu um tapa numa atriz. Desanimei." 

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Menino veste rosa

Corta para Mama Darling pronta, uma hora depois de começar a se arrumar, prestes a pegar um Uber. A peruca vai na mão para que ela consiga entrar no carro. "Oi, não parece, mas eu sou o Fernando", ela costuma dizer aos motoristas. "E sempre surge um papo do tipo 'o que a gente não faz para pagar as contas, né?'". Mas, claro, o negócio da Mama não é só dinheiro.

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Das lembranças de infância de Magrin, uma delas é a de uma mão adulta tirando a boneca do seu colo e colocando outro brinquedo no lugar, "de menino", assim que o pai chegasse em casa --ele encrencaria se visse a cena. Até sua morte, em 2012, ainda perguntava quando o filho arrumaria uma namorada. "Ele nunca soube da minha sexualidade. Na verdade, até ele morrer, eu não falava sobre ser gay com ninguém da minha família." Ser a drag queen Mama Darling é um jeito de brincar com a boneca que lhe era negada. Mas, agora, sem precisar esconder de ninguém.