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Autoestima


Por que devemos parar de rotular as mulheres acima dos 40 anos?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

04/02/2019 04h00

Ficou para titia, tem a cara toda botocada, é solteirona, é uma loba, é rodada, ainda está enxutona... Até mesmo quando a intenção parece ser "elogiar", os rótulos e estereótipos dedicados às mulheres acima dos 40 anos soam ofensivos, cruéis e totalmente desnecessários, independentemente de quem venha --e por várias razões.

Para Luciano Passianotto, psicoterapeuta e terapeuta de casal, de São Paulo (SP), primeiramente, é preciso entender que as mulheres são plurais, com seus desejos e características. "Elas expõem quem são através do seu comportamento e esperam ser lidas a partir deles. Quando alguém as rotula, estão enquadrando toda a sua diversidade em um estereótipo raso e que, mesmo que contenha uma dose de verdade, limita toda essa pluralidade a poucas características que, muitas vezes, não são aquelas pelas quais a pessoa quer ser reconhecida", observa.

A psicóloga Adelsa Cunha, também da capital paulista, acredita que esses termos pejorativos são fruto de uma visão antiquada e machista das mulheres. "O conceito de solteirona ou titia é muito antigo e vem de uma época em que não havia opção para as mulheres. Ou casavam ou tinham que cuidar dos pais e, na falta deles, torcer para um irmão ou irmã casada as acolherem em suas casas. Elas não tinham renda. Em pleno século 21, usar esses conceitos não fazem mais o menor sentido", explica. "É um machismo primitivo e de mau gosto que define uma mulher a partir do homem. A pessoa em si não tem valor? Trata-se de uma mentalidade que faz mal para todo mundo, mulheres e homens", completa a psicóloga Maria de Melo, autora do livro "A Coragem de Crescer" (Ed. Ágora).

Como, durante muito tempo, a única alternativa viável para as mulheres era constituir família --e os casamentos aconteciam numa idade precoce aos padrões de hoje--, o conceito de beleza ficou atrelado à aparência jovial e saudável, porque indicava a garantia da perpetuação da espécie. "Hoje, o conceito de beleza está transformado e repercute em todas as fases da vida. Rotular uma mulher de enxutona só demonstra atraso no modo de ver as coisas. A expectativa de vida tem aumentado significativamente e, consequentemente, as pessoas mais velhas estão mais presentes. E há o reconhecimento da beleza da mulher madura", atesta Adelsa.

Rótulos são nocivos e criam papéis

Mulheres rotuladas, mesmo quando não se identificam com os papéis atribuídos a elas, têm dificuldade em se sentir naturalmente relaxadas para assumir papéis diferentes na frente das outras pessoas quando desejam, gerando ansiedade. É esperado que a loba esteja sempre à procura de uma presa ou que a titia nunca namore, por exemplo.

"Esses rótulos generalizam, inviabilizando outras características da pessoa, e limitam a descrição da sua personalidade. Com eles, algumas características de personalidade normalmente vistas como antagônicas, mas com as quais essa mulher pode se identificar, ficam difíceis de expor frente a um grupo. Isso gera desconforto e pode gerar ansiedade na tentativa de autoafirmação. Aquilo que é só uma brincadeira inofensiva pode fazer muito mal à mulher", comenta Luciano.

Outra questão, segundo o terapeuta, é que até mesmo rótulos tidos como positivos colocam essas mulheres em um patamar de expectativa e, consequentemente, de pressão sobre elas. "A solteira que finalmente encontra um par pode receber comentários involuntariamente contrários, lidos como críticas, somente porque não está agindo de acordo com o que se espera dela", exemplifica. 

Quem estigmatiza diz mais sobre si do que sobre a mulher

Para Gabriela Malzyner, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade de São Paulo) e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo (SP), qualquer estereótipo é reducionista e não diz nada do outro. "Mas talvez conte mais dos olhos de quem vê. Afinal, aquilo que olhamos na mulher à nossa frente tem mais a ver com as nossas concepções internas e de mundo do que da pessoa em si", argumenta. "Quando criticamos muito alguém, muitas vezes estamos sendo movidos pela inveja. Uma mulher que se cuida não é necessariamente uma 'botocada'. É apenas alguém que se gosta e que está usando os recursos disponíveis para se manter com a aparência desejada. Então, é bom pensar bem sobre o quanto suas críticas falam mais de você do que da pessoa criticada", endossa Adelsa.

Os rótulos também desprezam particularidades e escolhas de vida, levando a quem os coloca a encarar as mulheres com uma visão limitada. Muitas mulheres não querem se casar e optam por viver sua vida independente, dedicando-se ao trabalho, a si própria, aos amigos. Ninguém é "obrigada" a se casar só porque muita gente o faz.

"Esses rótulos dão a entender que a mulher que não conseguiu um par é 'inferior' às outras, não levando em conta que essa pode ser sua opção e ela pode estar feliz assim. Muitas também escolhem se casar mais tarde, aproveitando sua juventude e maturidade para dedicar-se ao desenvolvimento profissional, viajar, curtir a liberdade, e depois se unem a alguém", diz a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Eliminar a mania de rotular da vida é uma forma de combater o preconceito e evitar a perpetuação do machismo --além, obviamente, de demonstrar uma perspectiva bem obsoleta da sociedade. "Em tempos de transformações tão rápidas, não se atualizar é repetir um modelo ultrapassado. Meus conselhos, para quem insiste em estereotipar as mulheres maduras, são: observe, se aproxime, tente conhecê-las melhor. Assim você poderá descobrir pessoas muito legais e entender melhor como elas estão vendo o mundo. E certamente você se abrirá para novos conceitos", diz Adelsa.