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Política


As polêmicas de Carla Zambelli: "Jean Wyllys é covarde ou mentiroso"

Sérgio Dutti/UOL
Deputada Federal eleita por São Paulo, Zambelli ganhou destaque com o grupo "NasRuas", pedindo o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff Imagem: Sérgio Dutti/UOL

Marcos Candido

Da Universa

31/01/2019 04h00

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) é feroz em suas declarações na internet e nas ruas, mas mantém um tom de voz tranquilo enquanto fala ao telefone com a Universa. A calma ao se pronunciar não impede Zambelli de parar em uma nova polêmica a cada semana

Atualmente, a parlamentar foi condenada a pagar R$ 40 mil reais ao ex-deputado federal Jean Wyllys -- após uma postagem na página dos NasRuas tê-lo associado a atos de pedofilia. Não cabem recursos ao processo. Na última semana, Wyllys desistiu do mandato e saiu do país após revelar que sofria ameaças de morte -- sobre o caso, a deputada garante que seu desafeto é "um covarde". Wyllys entregou ao Ministro da Justiça Sérgio Moro um ofício revelando que sofreu novas ameaças, nesta terça (29). 

Na última semana, Zambelli embarcou para a China e foi criticada por Olavo de Carvalho, o 'guru' do bolsonarismo. Ele a acusa de estar envolvida em pesquisas chinesas para facilitar o reconhecimento de rostos em aeroportos. Ela nega. 

Eleita com 76,3 mil votos por São Paulo, Zambelli é uma das mulheres do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, que, como Joice Hasselmann, não defende projetos para as mulheres e rechaça o feminismo. Diz preferir o monarquismo e o combate à corrupção. 

A carreira política de Zambelli foi catapultada com o movimento NasRuas, fundado por ela em 2011, ainda no primeiro mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff. Já a candidatura para o Congresso foi impulsionada pelo WhatsApp e Facebook, e o sucesso das redes atraiu empresários como o dono da rede SmartFit e Bioritmo, Edgard Corona, para custear a campanha. Só em impulsionamento de conteúdo nas redes houve um investimento de R$ 270.299,17. Seu patrimônio declarado é R$ 35.737,34. Essa é sua estreia um cargo público.

Controle de natalidade

Apesar de não ter projetos para mulheres, ela diz que a ideia que mais se aproxima da causa é um "controle de natalidade" de longo prazo, com aplicação de injeções anticoncepcionais em quem já ficou, nas palavras dela, "mocinha" e não tenha "condições ou instruções". Profissionais do sexo e quem troca sexo por drogas, o que ela chama de "cracudas", também estariam na lista.

Segundo ela, essas mulheres decidem pelo aborto ou têm filhos "com problemas". Ela explica que esse atendimento seria feito com uma van itinerante."Eu ainda não tenho um estudo sobre [a viabilidade desse projeto]", ressalta. Leia mais da entrevista à Universa.

Jean Wyllys recentemente saiu do país sob ameaças. Qual sua avaliação sobre o caso? 

Eu já fui muito ameaçada. Meu filho foi ameaçado por um pedófilo, que foi preso. Sofri ameaças reais de morte. Eu fui ameaçada e mandei prints à Polícia Federal. Apesar disso, aumentou minha vontade de lutar. Soldado que não vai para a guerra é covarde. É isso que Jean Wyllys é: covarde. Ou é covarde, ou é mentiroso. 

Você defende uma caravana para dar métodos como DIU e injeções anticoncepcionais para evitar o aborto de certas populações. Mas grupos de mulheres dizem que essa condição de fragilidade seria resolvida com aborto seguro, como existe em outros países. Você é a favor da ampliação ao direito ao aborto?

Não sou favorável. Há meios de se evitar o aborto. Por vários motivos, o aborto não é bom. Há a questão religiosa, financeira e de risco à mulher. Tive amiga que fez aborto na adolescência e morreu. Sou favorável a manter a lei como é: para casos de estupro, risco de vida à mãe ou anencéfalos. 

Por que se diz monarquista e não feminista?

O feminismo atual não está pautado no que é o verdadeiro feminismo: que é buscar igualdade naquilo em que a gente pode ser igual e proteger a mulher. Ao contrário. Não me sinto representada por feministas. A monarquia coloca a mulher onde ela quer estar: ou na liderança ou cuidando do lar, das crianças. Já fui gerente de 60 homens e não precisei de cota para nada, por exemplo. Absurdo ter cota para mulher na câmara.

A mulher não participa da política porque não quer.

Mas a falta de representação e ambientes ocupados amplamente por homens não cria um entrave às mulheres que vai além de ser uma questão de opção? 

Não consigo enxergar desta forma. Quando a mulher se posiciona de forma verdadeira, sem bater de frente, as coisas acontecem. Isso quer dizer se ajustar e não querer mudar o sistema.

Convidei mulheres a se candidatarem, por exemplo, mas elas não quiseram.

Você é mãe solo. Como é a experiência de criar um filho sozinha no país?

A maior dificuldade é encontrar escola. Tive ajuda dos meus pais, mas precisei buscar escolas particulares em tempo integral ou babás quando morei no interior de São Paulo e no nordeste. Há mulheres que não conseguem pagar por esses serviços. O Estado precisa garantir escolas em tempo integral. Eu não encabeçaria um projeto desses nos municípios e estados, mas apoiaria. 

O que a escola deve ensinar? Nomes do governo Bolsonaro, como Damares Alves, defendem educação em casa. 

O Ministério da Educação deveria se chamar "Ministério do Ensino". A escola deve ensinar, e não educar. Educação quem dá são os pais com valores, crenças e base de vida. Já a escola deve ensinar geografia, matemática, etc. O "homeschooling" [educação em casa, em inglês] só funciona quando o pai e a mãe estão presentes. Mas sou favorável.

Em um vídeo antigo, você defende parto humanizado em uma manifestação. Ainda é uma bandeira para você? 

Em 2012, um projeto de lei queria proibir que mulheres tivessem filho em casa. Tive um filho no SUS e não há nada de humano em um parto feito no sistema de saúde. Inclusive, dei entrevista na época contando que eles me cortaram e deram 14 pontos sem anestesia. Para mulher, é algo traumático. 

Danilo Verpa/Folhapress
Em 2015, Zambelli aparece em protestos contra o PT Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

À época, você estava grávida do segundo filho...

Sim, mas tive um aborto espontâneo. Infelizmente. Já está superado. Deus sabe o que faz. Na época foi difícil. Meu filho já tinha madrinha, padrinho... Está superado. 

A senhora foi para a China e recebeu críticas de Olavo de Carvalho, que disse que já te ajudou muito. Como foi essa ajuda?

A ajuda foi teórica. Eu já li muito Olavo de Carvalho e fiz [Google] 'Hangouts' com a participação dele para receber orientações sobre determinados assuntos. Olavo não deu apoio para a minha candidatura. Ele não me indicou ou pediu voto para mim. Os discípulos que assistem aos vídeos dele votaram em outra pessoa.

Qual foi objetivo da viagem?

Não fui para a China atrás de reconhecimento facial [como dito por Olavo]. Fui convidada pela embaixada da China -- e vamos soltar um relatório sobre a viagem em breve -- para conhecer tecnologias de cura para a atrofia muscular espinhal (AME). E pretendo visitar não só a China, mas Israel e vários outros. Para mim, combater a corrupção está ligado a ativar a economia. Eu não devo minha eleição ao Olavo de Carvalho. Devo a minha eleição a Jair Bolsonaro.

A minha lealdade é ao Jair Bolsonaro. Ponto final.

O governo Bolsonaro começou com o caso Coaf, envolvendo o senador Flávio Bolsonaro. Qual seu posicionamento sobre o tema?

O mesmo posicionamento que tive com o PT. Deixa eu te explicar: foram quatro anos, de 2011 até 2015 para gritar "Fora, PT". O Nas Ruas sempre foi contra a corrupção. A gente só começou a pedir investigação sobre o Lula quando o PT começou a ser investigado. Então questionamos: por que não investigar o Lula também? Pedimos a investigação quando o problema surgiu com indícios de envolvimento de Lula.

A gente só pediu "fora, PT" e "fora, Dilma" após o julgamento do TCU (Tribunal de Contas da União), que é um órgão que tem poder de condenação. A gente esperou o devido processo legal para pedir [pelo impeachment de Dilma]. Por que faríamos diferente com o Flávio Bolsonaro? Todos têm que ser investigados, mas a condenação pública tem que seguir o processo legal.

As investigações, nesta lógica, deveriam chegar ao presidente Bolsonaro também, não?

Primeiro, o Queiroz tem de ser investigado e também o Flavio. Mas eu não vou condenar o Flavio. Todos têm de ser investigados. O que não pode é o [presidente] Bolsonaro ser execrado por uma possível atitude de um ex-assessor de um filho dele.