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Violência contra a mulher


Por que devemos parar de romantizar psicopatas e stalkers da ficção

Divulgação/Netflix
Internautas estão romantizando o Joe de "Você" e isto é um problema Imagem: Divulgação/Netflix

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

26/01/2019 04h00

A série "You" tem feito enorme sucesso desde que estreou na Netflix há cerca de um mês. Mais do que a trama cheia de reviravoltas e a ironia sutil do enredo à geração dos "Millenials", é o protagonista, Joe (Penn Badgley), que caiu no gosto do público -- em especial, o feminino. Baseado no livro de suspense psicológico de Caroline Kepnes, lançado em 2014, o seriado trata do amor obsessivo de um gerente de livraria de Nova York por Beck (Elizabeth Lail), uma confusa aspirante a escritora. Para conquistar a moça, Joe não hesita em apostar em uma série de comportamentos stalkers e, conforme a fixação vai avançado, acaba cometendo assassinatos -- mesmas atitudes que tivera num romance anterior. 

Em tempos de índices chocantes de feminicídio e relacionamentos abusivos em diversas partes do mundo, a paixão do público pelo psicopata Joe precisa ser encarada com ressalvas. Na verdade, "You" não é a primeira obra de ficção com um "protagonista" de conduta duvidosa a encantar mulheres nos últimos tempos. A lista inclui o vampiro Edward Cullen da série Crepúsculo, que persegue e vigia Bella até mesmo durante o sono da garota; o milionário controlador de gostos peculiares Christian Grey da trilogia de soft porn "Cinquenta Tons de Cinza" e o estuprador misógino Berlim interpretado por Pedro Alonso em "A Casa de Papel". 

Todos, segundo o psicólogo e educador sexual Breno Rosostolato, de São Paulo (SP), criados sob o mesmo viés distorcido e um tanto ultrapassado do que aprendemos a entender como masculinidade. "Essa é uma das razões pelas quais homens stalkers, controladores, psicopatas e sociopatas fazem sucesso na ficção. Embora de um modo deturpado, eles correspondem ao ideal de 'macho' esperado pela sociedade. Afinal, são viris e sedutores e ocupam um papel de gênero enraizado na nossa cultura. Embora a chamada 'masculinidade tóxica' venha passando por uma desconstrução, esse é um processo contínuo e que leva tempo", afirma. 

Já Marcelo Lábaki Agostinho, psicólogo do IP-USP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo), questiona se é a própria compreensão das pessoas que necessita ser trabalhada. "É difícil explicar a popularidade de personagens como Joe ou Berlim, cujos aspectos manipuladores são apontados e criticados na história. Será que o público não consegue mais ver o todo de uma situação, escolhendo apenas ver um aspecto da situação mostrada? Acredito que isso também tem acontecido com as fake news e com o entendimento do mundo complexo em que vivemos, de modo geral", observa.

Fascínio e perigo

Outra possibilidade, de acordo com Marcelo, é o fascínio que emana de algo que -- aos olhos de quem assiste -- fica oculto na personalidade deles. "A atração não é pelo que eles mostram, mas, principalmente, por aquilo que deixam de mostrar. E o que não é mostrado pode ser construído, criado, projetado e inventado por quem está envolvido com uma pessoa assim. Eles apresentam parte do que são, mas o que não mostram deixa um espaço enorme para que sejam criados como a outra parte quer", explica. 

Ou seja, as mulheres que desenvolvem um crush por esses personagens acabam terminando de inventá-los da maneira que bem entendem. Trata-se de um processo inconsciente que, para o público, provoca deslumbramento, pois é sempre muito difícil assumirmos de fato qual é o nosso desejo, até porque na maior parte das vezes ele é desconhecido.

O stalker, seguindo esse mecanismo um tanto torto, pode ser interpretado como um meio para atingir o objetivo: o coração da mocinha. "Os psicopatas usam as outras pessoas via tirania e sedução. A sedução, para funcionar como 'controle do outro', necessita o conhecimento dos pontos vulneráveis. As necessidades e fantasias do outro são esse ponto. E é justamente a partir da percepção dessa fantasia que o psicopata atua para conquistar sua vítima", alega Lígia Baruch de Figueiredo, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e coautora do livro "Tinderellas - O Amor na Era Digital" (Ema Livros). 

A sedução TV/livro/série-espectador segue a mesma lógica -- o que, segundo os especialistas, é algo perigosíssimo. Perseguição, controle e, sobretudo, ciúme mostrados como um padrão aceitável de relacionamento podem levar o público a normalizar a violência contra as mulheres. "Romantizar o ciúme é algo perigosíssimo, pois minimiza os efeitos negativos desse sentimento nocivo. Mesmo da maneira mais branda, o ciúme precisa deixar de ser valorizado e tido como algo importante e até necessário numa relação", fala Breno. Nas obras citadas, é visível que os homens encaram as mulheres como sua propriedade ou parte deles mesmos. É um cenário totalmente equivocado para o amor que só serve para normatizar a posse e a violência doméstica. "Controle jamais deve ser entendido como 'cuidado romântico'. Essa é uma confusão bastante comum, inclusive, por isso é tão necessária uma desintoxicação de um romantismo exagerado que pressupõe o amor como fusão total com o outro. Sem liberdade de ser não há amor real", declara Lígia.

Apesar de, pelo menos em teoria, uma mulher mais segura, autossuficiente e dona de si tenha menor propensão, na vida real, a se envolver com um Joe, por conhecer melhor os próprios desejos, ninguém está livre desse tipo de relação abusiva. "Mesmo a mais empoderada feminista tem suas carências e fantasias. Que, aliás, pode ser até a fantasia de 'consertar' o cara", diz Lígia. "Por essa razão a construção de papéis sociais, na realidade e na ficção, precisa ser revista e discutida com frequência", conta Breno.