menu
Topo

Violência contra a mulher


Paciente de João de Deus: "Fui abusada por 3 dias. Mandava fazer cara boa"

AFP
O médiu João de Deus, acusado de abuso sexual por dezenas de mulheres Imagem: AFP

Camila Brandalise

Da Universa

11/12/2018 15h35

A empresária mineira Priscila Marques, 34, afirma ter sido abusada três dias seguidos por João de Deus, em 2007. Ela foi à Abadiânia para tentar se curar de um quadro de depressão. "Ele me levou para o escritório e mandou que eu o masturbasse. Disse que assim eu ficaria curada. No final, ele gozou, se limpou com uma toalha branca que levava no ombro e em seguida pediu que eu o ajudasse numa cirurgia espiritual", diz Priscila, em depoimento à Universa. Nos dois dias seguintes, novos abusos, que incluíram sexo oral nele, se desenrolaram. "Ele ficava bravo e mandava eu fazer uma cara boa. Era nojento", conta Priscila. 

João de Deus e a mulher dele, segundo Priscila, pagaram a viagem dela até a Abadiânia, depois que ela lhe enviou uma foto sua -- um pedido dele à mãe de Priscila, que o conheceu em um velório e lhe contou sobre a doença da filha. "Eu era linda. Estava com uma roupa branca, sorrindo", conta Priscila, que na época, tinha 23 anos. Ela e a mãe ainda foram convidadas a se hospedar na casa do casal e, depois da série de abusos, ele disse à menina que lhe pagaria uma faculdade de medicina e a chamou para morar com ele.

Veja também:

Desde a sexta-feira (7), quando viu os primeiros depoimentos de estupros envolvendo João de Deus, Priscila diz que não para de chorar. Há dois dias, acompanhada do marido, ela foi a uma delegacia e fez boletim de ocorrência contra João de Deus.

    Leia o relato de Priscila:

    "Quando cheguei na frente da casa de João de Deus, em Abadiânia, pensei comigo: 'Vou ser curada'. Era 2007, eu estava com 24 anos e procurei o lugar para me tratar de depressão e síndrome do pânico. Viajei com a minha mãe, fomos bancadas pelo próprio João de Deus e pela mulher dele. Minha mãe o conheceu e ele pediu uma foto minha para saber o que eu tinha e eu mandei no dia seguinte. Na mesma noite, a mulher dele ligou, dizendo que eles pagariam a viagem e ficaríamos na casa deles.

    'Fizeram coisa ruim para ela e João vai desfazer isso', disse Ana Keyla (Teixeira Lourenço), a mulher do médium, ao telefone. 'Vocês precisam vir para cá urgentemente.' Chegamos em uma quarta-feira de manhã. Entrei na triagem e disse que era a Priscila de Uberaba. 'Te conheço', ele falou, 'senta aqui do meu lado.' Enquanto ele fazia os atendimentos, cochilei na cadeira e algum tempo depois, fui levada para uma cama, onde várias pessoas me deram o que chamaram de banho de luz. Eu estava vestida e coberta com uma manta até a cabeça. Quando isso acabou, uma das mulheres que me atenderam disse: 'Agora o João quer te ver'. Fui para o escritório dele e foi lá que sofri o primeiro abuso. 

    Jogou um colchão no chão, quis tirar minha roupa e eu pedi que não, por favor

    Ele me virou de costas para ele e disse que tinham feito um trabalho para mim, e que eu ia morrer. Pediu para assistentes que estavam na sala, cerca de três pessoas, e a minha mãe saírem. Ele passou a mão nos meus braços, nos meus seios e na minha barriga. Senti muito medo. Ele puxou minha mão para trás e vi que estava com as calças abaixadas e o pênis para fora. Eu não me lembro exatamente as palavras que ele usou, mas ele disse que eu tinha que acariciar o pênis dele pra ser curada. Fiz o que ele mandou. Gozou, pegou uma toalha branca que usava no ombro e se limpou. Daí, disse que a gente ia almoçar na sala. 

    No meio de mais um monte de gente, tomamos uma sopa. Depois de comer, ele falou "vamos continuar o trabalho". Ele jogou um colchão no chão do escritório e falou para eu deitar. Quis tirar minha roupa e nessa hora eu falei que não, pedi por favor. Ele ficou bravo: 'Você não quer ser curada? Você não vai ser nada na vida se não for curada'. Me neguei de novo. Ele deitou em cima de mim, colocou o pênis pra fora e ficou um tempo se esfregando em mim. Em algum momento, um assistente bateu na porta, e ele parou.

    Eles o estavam chamando para uma cirurgia espiritual, e ele me pediu para ajudá-lo. Me deu instrumentos para segurar, entre eles, uma faquinha e uma tesoura. Eu estava tão nervosa que tremia muito, o que fazia os metais baterem uns nos outros. Lembro bem do som. E das cirurgias. Em uma delas, ele cortou um homem na barriga e tirou uma bolinha. Na outra, colocou a tesoura no nariz de uma pessoa.

    Voltei para a casa de João de Deus e da mulher, em Anápolis (cidade vizinha à Abadiânia), e não consegui dormir. Senti muito nojo: de mim, de ter feito aquilo, de não falar para ninguém. E senti muito medo também. Não consegui nem contar para a minha mãe. Na hora, eu tinha fé que seria curada, por mais que tivesse nojo. Quem ia acreditar que eu tinha sido abusada? Ele curava as pessoas.

    Mais dois dias de abusos e proposta para morar com ele 

    No dia seguinte, voltei para o lugar dos atendimentos e fomos de novo para o escritório. Ele se sentou em uma poltrona e falou que eu devia fazer sexo oral nele para "fazer uma limpeza". Era um velho nojento. Ele dizia: 'Faz cara boa, faz direito. Você está com nojo?', ele dizia.

    Eu estava com muito medo, não estava mais suportando quilo. Eu não lembro mais como foi, mas sei que ele me chamou de novo para participar de uma cirurgia. No terceiro dia, ele pediu sexo oral de novo. Eu fiz, ele gozou e se limpou com a toalha branca. E mais uma vez ele me chamou para ajudar numa operação. Nesse mesmo dia, ele me convidou para morar com ele. "Vem morar aqui. Vou pagar seus estudos, Medicina. Você tem que ser alguém na vida", ele me disse. 

    No final do dia, voltamos para a casa dele. Naquela noite, eu e minha mãe voltamos pra Minas. Eu contei para ela o que tinha acontecido quando entramos no ônibus. Ela ficou horrorizada e pediu que eu não falasse sobre aquilo com meu pai e nem com meu irmão porque eles iriam matá-lo. Minha mãe contou a história para um irmão dela e ele também pediu silêncio. 'Ninguém vai acreditar na Priscila', disse. 

    'Quando você fizer 33 anos, vai ser minha'

    Na sexta-feira, quando fiquei sabendo da reportagem, foi um alívio. Sempre me perguntava se minha mãe e meu marido (com quem me casei um ano depois daquilo) acreditariam em mim. Hoje sei que acreditam. Por outro lado, é um sofrimento relembrar de tudo. Fiz o B.O. chorando. Contar toda a história de novo dói demais. Decidi registrar queixa depois de pesquisar na internet e chegar ao site idvics.org, uma plataforma de denúncias contra abusadores em série.

    Achava que o abuso tivesse sido só comigo. Por isso, me surpreendi quando vi as notícias sobre mulheres que passaram pelo mesmo. Desde que esses relatos começaram a aparecer, não paro de chorar. Há dez anos, quando comecei a namorar o homem que é meu atual marido, disse que meu sonho era denunciar João de Deus. 

    Depois dos abusos, minhas crises de pânico ficaram mais fortes e comecei um novo tratamento, com remédios diferentes. Fui àquela casa para ser curada, mas fui abusada. E fiquei mais doente do que já estava. E hoje, minha mãe me lembrou de algo que eu tinha esquecido. Quando estávamos na casa de João de Deus, ele falou pra mim: 'Quando você tiver 33 anos, você vai ser minha'. A minha mãe me disse que meu aniversário de 33 foi um drama pra ela. Que ela só se tranquilizou, quando eu fiz 34."

    A reportagem tentou contato por telefone com a Casa Dom Inácio de Loyola, mas não foi atendida. O advogado de João de Deus, Alberto Toron, disse ao jornal "Folha de S.Paulo" que o médium recebeu com "indignação" a notícia das acusações e está à disposição das autoridades para esclarecimentos. A assessoria de imprensa também se pronunciou negando as acusações.

    O Ministério Público de São Paulo e o Ministério Público de Goiás disponibilizaram os seguintes e-mails para vítimas denunciarem abusos praticados por João de Deus: somosmuitas@mpsp.mp.br (MP-SP) e denuncias@mpgo.mp.br (MP-GO). Se você vive alguma situação de abuso sexual, também pode pedir orientações ligando para o número 180 - Central de Atendimento à Mulher, do governo federal.