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Cresce número de empresas que contratam trans e travestis

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Max Neufeld conseguiu trabalho como recepcionista por meio do Transempregos Imagem: Divulgação

Paulo Gratão

Colaboração para a Universa

28/11/2018 04h00

Max Neufeld, 41, iniciou sua transição de gênero há cinco meses. O tempo total fora do mercado de trabalho somou um ano. Desde então, ela percebeu que havia mais resistência das empresas em contratá-la como trans do que como homem gay. Os requisitos eram os mesmos, mas a quantidade de portas abertas diminuiu.

“Fiquei com receio pelo meu futuro. Como seria? Eu pensava: ‘Tenho conhecimento, tenho capacidade, mas não vão me contratar pela minha aparência?", lembra.

Max era cadastrada em uma plataforma popular de envio de currículos, mas não via resultados, até que conheceu o trabalho do Transempregos, fundado por nomes como Laerte Coutinho e Maite Schneider. “O trabalho da consultoria não é só captar trans, mas conscientizar as empresas sobre como receber esse profissional. Estou extremamente satisfeita. Não seria possível ter essa sensação se nós não tivéssemos pessoas como a Maite, que pavimentam o caminho e mostram que somos tão capazes como qualquer outro profissional”, explica Max.

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Do abrigo ao emprego formal

A história de Clay Thompson, 42, é parecida. Ela veio do Rio de Janeiro para procurar emprego em São Paulo, mas não encontrou. Morou por um tempo na Casa Florescer, um abrigo para trans e travestis em situação de vulnerabilidade, da Prefeitura de São Paulo, quando conheceu Maite. Ela havia conseguido um emprego como teleoperadora na Atento do Brasil, mas enfrentava um período de depressão, devido a problemas no relacionamento e à situação em que se encontrava.

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Maite Schneider, fundadora do Transempregos: número de empresas cadastradas subiu 300% em quatro anos Imagem: Divulgação

Maite a chamou para trabalhar como monitora em um festival e isso ajudou Clay a enxergar novas oportunidades. “Depois disso, eu já me inscrevi para processos seletivos. Quero ir para a área de treinamento. Também já fiz minha inscrição para o vestibular”. Hoje, Clay mora em sua própria casa.

Cresce 300% número de empresas interessadas

A fundadora do Transempregos conta que, em 2014, apenas 12 empresas eram cadastradas na plataforma e, hoje, quatro anos depois, esse número saltou para 46 –15 companhias buscam acompanhamento periódico para a inclusão de trans no ambiente de trabalho. Percentualmente, foi um salto de quase 300%.

As razões apontadas para isso são o reconhecimento de que a diversidade no quadro de funcionários estimula a inovação e ajuda a diversificar o olhar sobre as percepções de produtos e serviços lançados ao mercado, que reflete no potencial do público consumidor. “As multinacionais trouxeram isso para o Brasil e a diversificação começou a crescer e se tornar crível. As terceirizadas passaram a levar o conceito para as de médio porte e isso se multiplica. Hoje, já temos empresas de médio e pequeno porte, também”, explica Maite.

Embaixadora do empreendedorismo

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Ana Fontes, fundadora do RME: Maite ajudará a trazer visão de independência econômica para trans Imagem: Divulgação

Reconhecida por seu trabalho, Maite tornou-se a primeira mulher trans a ser nomeada embaixadora da plataforma Rede Mulher Empreendedora (RME). Ela se junta ao time de 110 embaixadoras e influenciadoras responsáveis por gerar conteúdo e representar as mais de 500 mil mulheres cadastradas na plataforma. A RME oferece mais de 60 eventos próprios ou apoiados, por ano, capacitação presencial e on-line e um espaço próprio para apresentar produtos e serviços produzidos pelas mulheres cadastradas.

“Conhecemos a história dela, vimos o quanto é importante tê-la em nosso ambiente e dar oportunidade de independência econômica para mulheres trans por emprego e também por empreendedorismo”, explica a fundadora da RME, Ana Fontes.

Capacitação direcionada reuniu mais de 100 pessoas

Maite já palestrava nos eventos promovidos pela RME, como a Virada Empreendedora, e também nos que eram organizados por apoiadores. Uma dessas ocasiões foi o Womenwill, promovido em julho, pelo Google, em São Paulo, que consistiu em dois dias de capacitação empreendedora e financeira para mais de 100 mulheres trans, em parceria com a RME. A edição brasileira foi a primeira do mundo, segundo o Google.

“Como embaixadora, ajudarei a potencializar essa discussão, trazendo novos pontos de vista, provocações, cases de sucesso e reflexões, que ficam meio limitadas quando são feitas por alguém que não vive aquilo”, explica Maite.

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Maite Schneider participa do evento Womenwill, promovido pelo Google: capacitação para trans foi a primeira da empresa em todo o mundo Imagem: Divulgação

“Quando sai para comprar um pão, toda trans já sabe o que vai enfrentar”

Com o auxílio da RME, o Transempregos deve lançar, em breve, uma plataforma que reunirá homens e mulheres trans autônomos e empreendedores para que seja possível mensurar esse público e ajudar a divulgar produtos e serviços. “É uma das ações que quero fazer como embaixadora da RME, usando as plataformas da consultoria”, explica Maite.

Por falta de oportunidades de emprego ou pelo ambiente inóspito de uma empresa, muitas decidem criar seu próprio negócio.

“O voo solo acaba sendo muito mais fácil do que em empresas, onde sempre pode encontrar alguém mais conservador ou com uma visão diferente. Quando sai para comprar um pão, toda trans já sabe o que vai enfrentar”, explica.

O mapeamento de pessoas trans entre as mulheres cadastradas na RME está nos planos de Ana Fontes para o próximo ano. “A independência financeira faz toda a diferença na qualidade e expectativa de vida dessas mulheres”, comenta.

Evasão escolar ainda é alta

Atualmente, o Transempregos recebe cerca de cinco currículos por dia. Destes, 40% têm ensino superior e 30% Ensino Médio. “Tendo o segundo grau, eu consigo fazer uma inserção imediatamente. Temos que batalhar para que elas estudem, mesmo. Eu sempre digo para elas que, quanto mais estudo tiverem, mais longe conseguirão ir”, explica.

No entanto, de acordo com a Rede Nacional de Pessoas Trans (RedeTrans), 82% das pessoas trans, entre 14 e 18 anos, abandonam os estudos. A escolaridade ainda é uma barreira para empregar homens e mulheres trans e também para tirar do papel planos de empreendedorismo.