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Violência contra a mulher


Mais vulneráveis ao assédio, mulheres negras contam casos de preconceito

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Em 2016, foram registrados 22.918 casos de estupro: 54% das vítimas eram negras Imagem: iStock

Carolina Prado e Simone Cunha

Colaboração para Universa

20/11/2018 04h00

Em 2016, foram registrados 22.918 casos de estupro: 34% das vítimas eram brancas e mais de 54% eram negras (pretas e pardas). O restante das vítimas informou ser indígena ou amarela. A informação consta da edição 2018 do Atlas da Violência, editado pelo Ipea em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência (Seppir-PR) e a ONU Mulheres.

De acordo com Jackeline Aparecida Ferreira Romio, mestre e doutoranda em demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/UNICAMP) e autora de uma tese sobre feminicídios no Brasil, a mulher negra é duplamente vulnerável. “Infelizmente, em países com alto grau de desigualdade de raça, gênero e classe, como o Brasil, o índice de todos os tipos de violência é mais alto para as mulheres negras. Elas sofrem violência racial, sexual, doméstica, econômica e a simultaneidade na experiência dessas violências”, explica.

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Para a advogada Maria Sylvia Oliveira, presidenta do Geledés - Instituto da Mulher Negra, o processo histórico de exploração e violência, desde o período colonial, perpetuou o conceito de controle sobre o corpo da mulher negra. “Há um imaginário equivocado de que essa mulher está disponível, aceita ser assediada, está mais aberta para as questões relacionadas à sexualidade”, relata. Segundo Jackeline, se manteve uma representação hipersexualizada da mulher negra, como amante ou mulata do carnaval. “Isso já poderia ter sido alterado por meio de políticas públicas”, diz.

A professora de dança Jeniffer  Cristini Paula dos Santos, 32 anos, conhece o peso desse estereótipo pois, em apresentações de samba, é frequentemente exposta a constrangimentos: “Sou bailarina, esse é o meu trabalho. Quando me apresento como passista, estou ali desenvolvendo uma arte, não estou disponível”. Ela conta que, recentemente, viveu uma experiência muito humilhante, durante uma apresentação em uma empresa. “Durante um breve intervalo, um funcionário se aproximou de mim e falou para todos escutarem: ‘Eu te ofereço o valor que você quiser para que fique à minha disposição’. Foi muito constrangedor porque eu estava ali trabalhando e, portanto, não podia dar uma resposta à altura. Mas minha vontade era tirar o salto e arremessar nele”, relata.

Violência tratada com naturalidade

Segundo Jackeline, há uma omissão do Estado diante da exploração da imagem da mulher negra, como se ela fosse uma mercadoria a ser consumida, no carnaval, nas novelas e até nas propagandas de televisão: “O discurso reproduzido diariamente na mente das pessoas e da sociedade acaba por naturalizar certas violências e isso impacta diretamente na manutenção e no aumento da violência sexual contra mulheres negras”.

De acordo com Jeniffer, ela não precisa estar vestida como sambista para atrair olhares indiscretos. “O fato de estar com um turbante ou uma roupa mais colorida já desperta atenção. Parece que a questão de a gente assumir a nossa negritude já incomoda, é como se fosse uma afronta”, diz.

Já Patrícia Frota*, 45 anos, administradora, critica o ideário de que a mulher negra é mais quente na cama. Ela afirma que isso faz com que muitos homens, em especial no ambiente de trabalho, considerem que podem partir para o assédio: “Já passei por esse tipo de situação com um colega de trabalho que tentou me beijar à força, tive que ameaçá-lo dizendo que iria chamar o segurança”.

Com relação à violência, as próprias condições de vida que as mulheres negras têm de enfrentar no dia a dia acabam por deixá-las mais expostas a riscos, como caminhar por percursos mais longos em regiões sem iluminação ou depender de um sistema de transporte inadequado às amplas jornadas de trabalho. “A falta de policiamento sensível às questões de gênero, para acolher as vítimas das violências, ou mesmo a ausência de acompanhamento e julgamento dos casos de assédio cria um ambiente que favorece o surgimento de novos crimes”, considera a doutoranda. 

A produtora de audiovisual Maria Batista*, 53 anos, conta que já vivenciou muitas situações de assédio. A primeira vez foi aos 12 anos, quando ela andava pela rua com outras amigas jovens: “Houve um momento em que fiquei para trás e vi um homem mais velho, de uns 40 anos, usando terno e gravata, que ficou acenando para mim. De repente, ele tirou o pênis para fora. Aquilo foi um choque, pois nunca havia visto um homem nu. Saí correndo, com medo e vergonha”. Maria acredita que o fato de ser negra sempre a deixou mais vulnerável, porque muitos homens brancos, de alguma forma, se sentem superiores: “É como se o fato de sermos escolhidas por eles fosse um privilégio”.

Maria Sylvia diz que o assédio vem aumentando entre meninas mais novas, a partir dos 15 anos. “Entre 15 e 29 anos é o período em que elas mais sofrem assédio, e é preciso falar sobre isso para que as meninas não se enganem”, diz. Portanto, disseminar informação de qualidade e educar contra as práticas de racismo e sexismo é fundamental. “É preciso formar e empoderar as meninas negras e fortalecer os grupos de mulheres para a luta pela garantia dos direitos sexuais e reprodutivos”, conclui Jackeline.

* Nomes trocados a pedido das entrevistadas