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Direitos da mulher

Algemada em audiência, advogada agora dá palestras e clientes triplicam

Marcus Steinmeyer/UOL
A advogada Valéria dos Santos está viajando pelo país dando palestras Imagem: Marcus Steinmeyer/UOL

Luiza Souto

Da Universa

18/10/2018 04h00

A advogada Valéria Lucia dos Santos, que foi algemada por policiais durante uma audiência em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, em setembro, afirma que o ocorrido “rendeu bons frutos”. Do alto de seu 1,83 metro e a todo instante sendo interrompida para um pedido de foto, neste encontro com Universa, a advogada conta que viu o número de seus clientes triplicar, vai abrir o primeiro escritório na próxima semana para “atuar pela minoria” e está viajando pelo país dando palestras. Neste momento, passa uma temporada em São Paulo. 

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“A exposição de uma coisa ruim virou algo positivo. Triplicou o número de casos que chegam a mim, inclusive, os de racismo. Já tenho o de três meninas reprovadas numa entrevista de emprego para estoquista de loja porque não tinham, segundo os empregadores, “características para o cargo”. Valéria conta que pretende, no futuro, se especializar na área criminal, além de seguir atuando na cível e trabalhista.

Uma comissão judiciária dos Juizados Especiais do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) inocentou a juíza leiga que chamou a polícia para algemar Valéria de qualquer prática abusiva. A investigação concluiu que ela se “jogou no chão” e se “debatia”. A Comissão de Prerrogativas da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) está recorrendo da decisão no Conselho Nacional de Justiça. "Pedimos indenização pelo ato vexatório que passei", explica Valéria.

Marcus Steinmeyer/UOL
A advogada Valéria dos Santos está perto de abrir seu primeiro escritório Imagem: Marcus Steinmeyer/UOL

A advogada, que tem 48 anos, é separada e mãe de dois filhos que moram nos Estados Unidos, viajou recentemente para Piauí, Mato Grosso e Amazonas para dar palestras sobre prerrogativas, que são os direitos específicos dos advogados. Por palestra, ganha cerca de mil reais, e em cada estado por onde passa, aproveita para fazer duas ou três audiências, ao preço de R$ 100, mais ou menos, cada. “Meu trabalho é advogar. Palestra é consequência”.

Formada em agosto de 2016, após trabalhar como enfermeira, até o episódio do mês passado, Valéria atuava de casa e prestava serviços para um escritório duas vezes por semana, elaborando petições, recursos e participando de audiências, como a que foi algemada. Agora, acaba de alugar uma sala em frente ao fórum de Duque de Caxias e planeja inaugurá-lo na próxima semana.

Diz que atuará pela minoria -- “que nem minoria é” -- como negros e pessoas de classe social baixa, mas que nada sairá de graça. “A gente não vive de caridade. O bom, é que agora aceitam meu preço. Antes, cobrava R$ 3 mil por uma causa de família, por exemplo, e a pessoa não queria pagar, sendo que na tabela o valor é de R$ 7 mil. Agora, ninguém reclama”.

"Não abandonei meus filhos"

Jogadora de basquete profissional na juventude, Valéria foi para os Estados Unidos no fim dos anos 1990, onde conheceu o pai de seus dois filhos. Lá, ficou casada por seis anos, mas voltou ao Brasil, com os filhos, para cuidar da mãe, em 2005, diagnosticada com câncer. “Nessa época, o casamento já não estava bom”. O pai já era falecido, e os dois irmãos dela haviam sido assassinados.

Temendo pela segurança dos filhos no Rio de Janeiro, combinou com o ex-marido de dividirem a criação deles: as crianças morariam nos Estados Unidos com ele e voltariam para o Brasil para passar as férias escolares com ela. Desde 2011, no entanto, Valéria não os vê. Naquele ano, depois que voltaram para os Estados Unidos, os meninos nunca mais vieram para cá. Valéria conta que nunca conseguiu visitá-los por causa da falta de dinheiro e porque precisou cuidar da mãe, que morreu em 2016.

“O pai deles não os deixa mais virem nas férias e quase não consigo falar com eles pelo telefone. Acredito que ele tenha dito que preferi a minha carreira a eles, porque o mais velho é arredio comigo. Não abandonei meus filhos, tanto que consegui uma liminar para que ele deixe a gente ter contato via internet. Se não cumprir, vai ter que pagar uma multa”. O mais velho, com 17 anos, estuda engenharia na Carolina do Norte, e o de 15 está concluindo o Ensino Médio na Flórida.

Valéria conta que precisou fazer outros ajustes em sua vida.“Sempre usei brincão e trança. Esse é meu estilo, mas existe a questão de como o outro vai me olhar; então, mudei. O direito é muito formal. Acabei me padronizando porque a gente vende um produto”, conta a advogada.