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Sexo

Designer holandesa cria objetos que prometem ajudar a curar traumas sexuais

Boudewijn Bollmann
Imagem: Boudewijn Bollmann

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

07/10/2018 04h00

Só quem enfrentou a dor de sofrer um estupro, um abuso, um assédio ou uma situação de importunação sexual sabe o quão difícil é seguir em frente e viver uma sexualidade sadia e prazeirosa. O tempo ajuda a curar as feridas físicas, mas o impacto do trauma pode ser tão profundo que a relação da mulher com o próprio corpo é abalada.

Na prática, isso se reflete não só na dificuldade de se excitar e no bloqueio dos músculos pélvicos na hora da transa, mesmo ao lado de um parceiro carinhoso e acolhedor, mas na resistência em se tocar ou até olhar para si mesma nua diante de um espelho. Ao refletir sobre essas consequências, a designer holandesa Nienke Helder, de 26 anos, decidiu criar a coleção "Sexual Healing" (Cura Sexual, em tradução livre) como trabalho de conclusão de curso de sua graduação na Design Academy Eindhoven, na Holanda.

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Segundo Nienke, várias disfunções sexuais femininas vieram à tona em sua cabeça durante o processo de desenvolvimento. "Pensei, principalmente, em relações dolorosas, incômodos durante a penetração, vergonha do corpo, dificuldade para entrar no clima, problemas para atingir o orgasmo", conta, em entrevista exclusiva para Universa.

Ela mesma admite já ter passado por disfunções sexuais e, como conseguiu superá-las, quis usar a própria vivência para ajudar outras mulheres. "Minha ideia foi abordar esse tema desafiador pela perspectiva do design. Com a colaboração de médicos e um grupo de mulheres ligadas à sexualidade, surgiu a ideia de criar objetos para o resgate da sensação de segurança e relaxamento, algo imprescindível para o sexo", afirma.

O projeto Sexual Healing foi apresentada ao público durante a feira Dutch Design Week de 2017, um dos eventos mais significativos de design dos Países Baixos, e imediatamente atraiu a atenção da mídia e da comunidade médica locais. 

Reprodução
Imagem: Reprodução

"O apoio de especialistas, principalmente do campo da saúde sexual, é de grande importância para promover mudanças na forma como abordamos os problemas sexuais. Eu, por exemplo, não sou cientista, mas raciocino a partir de uma perspectiva de design thinking. Acredito que a colaboração e a abordagem interdisciplinar podem ser a chave para a solução desses problemas. Com o apoio de psicólogos, sexólogos, fisioterapeutas e ginecologistas, espero realmente fazer a diferença", pontua Nienke.

A coleção conta com quatro objetos, sendo que nenhum deles serve para a penetração. "A proposta é usá-los em casa, quando a mulher estiver sozinha, em um ambiente calmo e livre de distrações, para que a exploração do corpo seja plena e tranquila", conta a designer, que avisa que eles também podem ser adotados durante as preliminares. "Eles são uma combinação entre sex toys e acessórios de uso terapêutico. Os objetivos são a autoexploração e a redescoberta das sensações de prazer. É para uso pessoal, mas também podem ser utilizados a dois", destaca.

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Imagem: Reprodução

A Escova é o ponto de partida inicial: ela serve para se acostumar ao toque, para fazer cócegas e para despertar e identificar sensações. O Espelho foi pensado para que a mulher observe a vulva em seus mínimos detalhes. Ele conta com iluminação, a fim de que as usuárias mais tímidas possam ter esse aprendizado no escuro --traumas, tabus, crenças limitantes e educação repressora são alguns dos fatores que impedem muitas mulheres de se conhecerem e identificarem a própria anatomia.

A Pedra funciona como um sensor de respiração para guiar a mulher no processo de relaxamento. "Ela fornece uma espécie de 'feedback biológico', ao se comunicar com a usuária quando ela está num estado de muita tensão. É uma maneira não invasiva de medir a frequência respiratória e que também ajuda a relaxar a musculatura", relata Nienke. Já o Sensor Pélvico consiste num dispositivo que vibra quando os músculos pélvicos estão excessivamente contraídos, levando a uma maior consciência corporal.

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Imagem: Reprodução

No momento, a designer está promovendo uma campanha de crowfunding para viabilizar a produção em massa dos objetos. Feitos à base de silicone e plástico, os protótipos vem sendo apresentados em diversos eventos e palestras na Europa e nos Estados Unidos. Nienke vem analisando a possibilidade de produzi-los de maneira biodegradável sem perder de vista o fator acessibilidade. "Minha prioridade é tornar a coleção Sexual Healing disponível para o maior número possível de mulheres o quanto antes", assegura.