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"Diziam que estava tirando vaga de um homem", diz primeira diretora da Poli

Arquivo pessoal
A professora Liedi, na faculdade: ambiente masculino Imagem: Arquivo pessoal

Vanessa Fajardo

Colaboração para Universa

24/09/2018 04h00

Na parede do corredor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) decorada por quadros dos dirigentes da instituição, a imagem da engenheira Liedi Bernucci, de 60 anos, destoa. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo de direção da escola que possui 125 anos de história. Sua fotografia estará lá daqui a quatro anos, quando encerra o mandato.

Liedi nasceu em casa, na cidade de Jarinu, no interior de São Paulo, estudou na rede pública e decidiu seguir carreira na engenharia ainda na adolescência. Em casa, na década de 60, quando ainda não se falava em discussão de gênero, tinha o apoio dos pais para brincar de carrinho e outros brinquedos rotulados como masculinos. “Das bonecas eu só gostava de construir casinhas, com prego e martelo. Com 9 anos, ganhei um autorama. Na minha casa isso nunca foi visto com preconceito, brincava muito livre.”

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O autorama virou profissão: fez engenharia (passou em 35º lugar, das 620 vagas), mestrado e doutorado na Poli e se especializou em pavimentação e construção de estradas na Suíça. Casou-se com um físico suíço, tem dois filhos formados em administração. Mesmo na cadeira de diretora, não abandonou a sala de aula. Leciona há 32 anos no curso de graduação. “Ensinar para mim é uma terapia.”
Seis meses após ocupar o cargo, Liedi diz que se surpreendeu com a repercussão positiva entre as mulheres da universidade. Conta que muitas alunas, professoras e funcionárias ainda a cumprimentam e a sensação é que houve uma “satisfação coletiva das meninas” ao se sentirem representadas. Na nova posição, a professora diz que “não dorme tranquila” ao ver que a inclusão dos alunos de escola pública ainda não ocorre plenamente na Poli e torce para que cada vez mais as meninas vençam o machismo se interessem pela ciência. Assim como ela.

Pavimentação de estradas

Durante o mestrado, ela ganhou uma bolsa para estudar na Suíça. "Tive um professor, Franco Balduzzi, que falava que o Brasil precisava muito fazer estradas porque sem elas, as pessoas não teriam acesso à educação, à saúde e a economia ficaria estagnada. Ele dizia que eu tinha de ir para essa área", conta.
Quando voltou ao Brasil, começou a trabalhar na área de transporte e aeroportos. Em 2010, começou a trabalhar com ferrovia. "Se não investirmos em infraestrutura de transporte na área ferroviária de maneira consistente, não vamos ser competitivos economicamente. E aqui na Poli estamos formando massa crítica", ela diz.

Machismo na engenharia?

"Sempre houve preconceito contra as mulheres, quem não sentiu é porque nunca prestou atenção. Mas era uma época em que não tínhamos com quem reclamar. Quando cheguei na Poli, em 1977, éramos só 4% de mulheres", conta. Liedi diz que episódios que viveu poderiam tê-la afastado da área, mas "a minha paixão era maior do que um idiota falando alguma coisa".

"Uma vez estava entrando na sala e o professor falou: não sei por que mulher quer fazer engenharia se depois o que ela quer é casar e largar tudo. Ele entrava na sala e contava quantas meninas havia e falava ‘tantas vagas perdidas, roubadas dos meninos.’ Era terrível. Hoje um cara desse seria processado", lembra.

Atualmente, 19% dos alunos da Poli são do sexo feminino. Ela comenta que escolas como MIT e Cornell [nos Estados Unidos] têm mais mulheres pelos movimentos de apoio, que as provocam a estudar exatas.  "É preciso também trabalhar com os professores na base, não dá para falar que matemática é difícil para uma menina de 7 anos. Aqui temos um projeto de pré-iniciação cientifica, as meninas ficam deslumbradas em fazer robôs, também fazemos oficinas de brinquedos [programa Poli Cidadã, direcionado a alunos de escolas públicas]". 

Inclusão de cotas na Poli

Pela primeira vez, a Poli reservou parte das vagas (37%) para alunos de escola pública e para estudantes autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Liedi é a favor da inclusão, mas acha que precisam de mais preparo. "Saltamos de uma inclusão de 19% (em 2013) para 37,5% (em 2018) de alunos de escola pública, mas o problema é que muitos alunos têm uma falha de base. O que a universidade fez para se preparar para receber esses alunos? Nada. Não é uma questão de falar você é bem-vindo. Como um aluno de 17 anos, de 18 anos vai lidar com a falta de base para fazer disciplinas dificílimas da Escola Politécnica? Como vai ficar a autoestima dele, o que vamos fazer por eles?", questiona. Hoje o grêmio politécnico oferece aula de reforço, onde os alunos dão aulas para outros alunos, mas a diretora reforça que é preciso fazer mais alguma coisa.

"Sair nos jornais que a USP abre para as cotas pode ficar muito bem com a opinião pública, mas precisamos trabalhar para a sociedade e precisamos saber receber esses alunos e dar as ferramentas para eles continuarem. Esse é um dos temas que mais me preocupam, precisamos tratar profissionalmente disso. Eu não acho que a USP estava preparada para fazer a inclusão dessa forma. A Poli ainda tem dificuldade e vamos ter de enfrentar isso de frente e com responsabilidade. Temos muitas comissões trabalhando nisso, mas estamos atrasados. Enquanto a gente não resolver, não temos de ter a consciência tranquila", diz.

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