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Violência contra a mulher

As histórias e o cotidiano da primeira Delegacia de Defesa da Mulher de SP

Matheus Souza/Universa
Imagem: Matheus Souza/Universa

Matheus Souza

Colaboração para Universa

03/09/2018 04h00

Um pequeno prédio de três pavimentos, localizado atrás do Pátio do Colégio, concentra boa parte dos milhares de histórias sobre a violência contra a mulher ocorridas na maior cidade da América Latina. É ali que funciona a 1ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, a única que funciona 24 horas por dia na capital.

Somente de janeiro a abril deste ano, foram instaurados, na capital paulista, um total de 2.907 inquéritos policiais relativos a abusos cometidos contra a mulher, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. A DDM da Sé concentrou 441 casos, perdendo somente para a Delegacia de São Mateus, na zona Leste, que, no mesmo período, acumulou um total de 478 registros.

Com tanta demanda de trabalho, o cotidiano é corrido na maioria das noites acompanhadas pela Universa, que passou uma semana indo à DDM. O entra e sai de vítimas é mais intenso à noite, especialmente durante os dias da semana.

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É numa tarde de domingo que conhecemos Tatiane*, de 35 anos, mãe de uma menina de dois anos. Ela e a filha estavam sob medida protetiva, porém as visitas indesejadas do ex-marido ao trabalho dela –uma igreja localizada na região central– passavam a ser constantes. Era a décima visita dela na DDM.

Viveu uma união estável por quatro anos marcada por seguidas agressões. A última delas foi num Dia das Crianças, com a filha no colo, onde um soco desferido na altura da maçã do rosto deixou seu pescoço banhado em sangue.

“Foi o presente que minha filha ganhou naquele dia”, disse. As lembranças do antigo relacionamento ainda deixam cicatrizes abertas. “O pior não foram as agressões físicas. Elas passam. Mas as coisas horrorosas que ele me dizia estão até hoje na minha cabeça”.

Bruna*, uma cuidadora moradora da zona sul, recebeu ameaças do ex-marido ao tentar buscar seus pertences na casa onde moravam há pouco mais de um ano. Comprada a prestações divididas entre o casal, Bruna passou a notar um comportamento estranho de seu então marido quando o pagamento chegou à metade.

“Ele passou a atrasar as parcelas seguidas vezes. Ele trabalhava em dois empregos. Nas noites que estava de folga, sumia. Descobri que ele era viciado em jogo”. Com o dinheiro do marido indo para mesas e máquinas de jogos de azar em cassinos clandestinos, ela pediu a separação. O então companheiro não aceitou.

“Saí da minha casa, fiquei fora de São Paulo por um ano. Quando retornei, passei a ser ameaçada de morte. A sensação é a de que convivi por muito tempo com um bandido do lado. Nenhuma mulher merece passar por isso. Tenho certeza que ele ainda virá atrás de mim um dia”, disse.

Rotina de uma DDM

O atendimento inicial, por ordem de chegada, é feito, em grande parte, por investigadores homens, sem grandes cerimônias. O tom das perguntas é direto, mas respeitoso. O trabalho inicial da equipe policial –composta, além dos agentes, pela delegada responsável pelo turno e um escrivão ou escrivã– é fazer, inicialmente, uma “triagem” dos casos apresentados.

Com tanta gente para atender, um investigador ou escrivão de plantão tem que ter a capacidade de entendimento de um caso em questão de minutos. Um treinamento constante de interpretação de acontecimentos narrados por cada vítima a cada oitiva.

Muitos não geram Boletins de Ocorrência, inicialmente. Outros podem levar horas para serem registrados, levando vítimas e servidores e uma maratona de depoimentos, registros, encaminhamentos e exames de corpo de delito em unidades de saúde de plantão, em determinados casos.

Matheus Souza/Universa
Imagem: Matheus Souza/Universa

Situações como as vividas pela analista administrativa Marcela*, 41. Após o final do expediente na empresa em que trabalhava na região central, foi abordada por um estranho em pleno viaduto da rua Maria Paula. “Estava com o celular na mão e percebi que alguém havia me agarrado por trás. Quando me virei, vi aquela figura que nunca havia visto na vida me enforcando, tentando pegar meu telefone e enfiando a mão por dentro da minha blusa”, disse ela.

Antes de chegar à DDM, ela e um rapaz, que a havia ajudado no caso, já tinham passado por três DPs na companhia da Polícia Militar. Preso na viatura da PM, o homem acusado pelo assédio falava sem parar. Aquela noite ainda seria longa. Para dar sequência ao registro da ocorrência, ela e a testemunha deveriam seguir para um exame de corpo de delito, finalizado somente na manhã seguinte, mais de 12 horas após o abuso.

Além da complexidade dos casos, o fluxo de vítimas acima da média da DDM da Sé pode ser explicado pelo direcionamento dos casos ocorridos em diferentes pontos da capital até a unidade da região central. “Todos os DPs contam com equipe preparada e procedimentos definidos aos casos de violência contra a mulher. Mas, em grande parte deles, existe uma certa cultura em encaminhar os casos diretamente até aqui, por considerarem a DDM o local mais adequado para o acolhimento das vítimas”, disse um policial militar, que pediu para não ser identificado.

De acordo com dados obtidos pela Universa junto à Polícia Civil, as DDMs da capital instauraram, de janeiro a abril deste ano, um total de 2.907 inquéritos relacionados a casos de abusos e violência contra a mulher.

A DDM de São Matheus é a que concentra o maior número de inquéritos (478), seguida da Sé, com 441 e Itaquera (391). Completam a lista as Delegacias de Santo Amaro (371), Freguesia do Ó (352), Jaguaré (276), Vila Clementino (236), Pirituba (206) e Parque São Jorge (156).

Em grande parte, os crimes estão relacionados a Lesão Corporal Dolosa e Ameaça. Chama atenção também o número de Estupros contra mulheres (80) e Estupro Contra Vulnerável, praticados contra crianças (153).