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Minha história

"Como consegui sair de uma relação em que apanhei todos os dias por um ano"

Arquivo Pessoal
Letícia Coui viu no pole dance a chance de recomeçar após ser violentada pelo namorado Imagem: Arquivo Pessoal

Letícia Coui

Em depoimento a Talyta Vespa

28/07/2018 04h00

Foi quando decidiu morar junto com o namorado que a pole dancer mineira Letícia Coui, de 24 anos, descobriu que havia algo de errado com seu relacionamento. Impedida por ele de frequentar o curso de teatro em que estava matriculada, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), as brigas foram dos gritos aos socos em poucos dias. “O primeiro tapa que ele me deu foi quando fui à padaria comprar pão de sal e cheguei com pão de forma”, diz.

“Meu ex-namorado me bateu todos os dias por 365 dias. As agressões aconteciam pelos mais diversos motivos, sempre que ele sentia ciúme. Tudo começou quando passei no curso de teatro da UFMG, saí de Governador Valadares e fui morar em Belo Horizonte. A gente namorava há dois anos e ele nunca tinha sido agressivo comigo. Na mudança de cidade, ele comunicou que iria comigo. Não tinha emprego nem onde morar e se mudou para o meu quarto, em uma república. 

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Quase bombei na faculdade porque ele não me deixava ir para a aula. Saía e me trancava em casa. Dizia que eu ia fracassar sendo atriz e que eu deveria cursar medicina. Para tentar concluir o semestre, eu fugia da república e dormia na casa de amigas. Ao voltar, era recebida a socos. Eu vivia um inferno e não conseguia fugir dele. Quando eu ameaçava terminar o relacionamento, as agressões se intensificavam: ele me batia, a ponto de eu desmaiar de dor. Quebrou minhas costelas, meu nariz e eu fui parar na UTI.

Em uma dessas fugas, descobri o pole dance — e foi a primeira vez em anos que me senti livre. Eu sabia que, se meu namorado descobrisse, me mataria. Vesti um shortinho, um top e participei de uma aula. Foi difícil, não consegui fazer nada. Porém, me senti tão minha que decidi que participaria de outras aulas — mesmo sabendo que seria uma loucura, porque ele me ligava de 20 em 20 minutos o dia todo. 

Decidi tentar. Sempre que ele ligava, eu parava e atendia. Não queria que ele descobrisse. Mas um dia, fui seguida e ele me viu entrando no estúdio. Me chamou de puta, me jogou na parede, deu socos e chutes. Na república, todo mundo via mas ninguém me ajudava. Era aquela coisa de não meter a colher. Todos os meus amigos se afastaram por medo dele.

Eu sabia que era errado continuar com aquela relação, mas não conseguia sair dela. Até hoje tenho medo de me relacionar com homens, não me entrego. O término do namoro aconteceu sem que eu me impusesse. Nos últimos meses, ele começou a vender drogas para ganhar dinheiro. Por medo de ser pego, fugiu para o Rio de Janeiro. Mesmo com ele longe, eu sentia medo. Achava que ia aparecer a qualquer momento – e acertei. Ele me procurou na faculdade algumas vezes. Por sorte, meus colegas o impediram de se aproximar de mim. 

E, de repente, a decisão de sair dessa relação só dependia de mim. Parei de responder às mensagens de WhatsApp. Quando ele tentava me procurar, encontrava meios para não deixar que se aproximasse. Dessa forma, ele foi desistindo, tentando menos contato. Até que parou.

Desde que ele foi embora, há pouco mais de um ano, o pole dance se tornou a minha vida. É minha distração, o que eu faço para esquecer a realidade. Se tornou meu processo de autoconhecimento, minha resistência. Passei a odiar meu corpo por causa desse homem, e é o pole dance que me faz encará-lo todos os dias. 

Terminei a faculdade e abri meu estúdio de pole. Quero que outras mulheres descubram o amor próprio que eu descobri com essa prática. Dei a volta por cima. Descobri minha força e sei o que eu não quero: ter alguém do meu lado que me faça duvidar do meu potencial. Não o denunciei à polícia porque não sei se quero reviver aquele tormento. Minha vida recomeça todos os dias quando eu fujo do trauma. Não é fácil, mas é necessário."

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